Wells Valley: sem olhar para trás (entrevista c/ Filipe Correia) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Wells Valley: sem olhar para trás (entrevista c/ Filipe Correia)

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Pode parecer que o aparecimento dos Wells Valley na cena nacional em 2015, com o álbum de estreia, “Matter As Regent”, foi uma coisa inusitada e impulsiva, mas a verdade é o que o trio constituído pelo vocalista/guitarrista Filipe Correia (Concealment), pelo baterista Pedro Mau (Kneel) e pelo baixista Pedro Lopes teve um crescimento sustentado e um processo evolutivo. E, numa altura em que chegam ao seu segundo registo – o EP “The Orphic” – esse processo torna-se ainda mais evidente, resultando numa sonoridade que não é apenas a soma dos imaginários de Blut Aus Nord, Trypticon, Converge e Nine Inch Nails (nunca o foi, na realidade) e toma uma forma mais própria. Filipe Correia partilhou connosco as fundações deste projecto, o seu presente e deu-nos um vislumbre do futuro.

«Esta banda invoca uma série de assuntos que vivem no universo do ocultismo, do esoterismo e por aí fora.»

Editaram um primeiro álbum em 2015 e agora sai um EP. Começaram logo a banda a rebentar de inspiração?
A banda surgiu em 2011, como uma brincadeira. Tínhamos uma ideia muito vaga do que poderia ser, eu estava num período em que tinha bastante disponibilidade e decidimos marcar uma série de ensaios para fazer jam sessions na óptica de percebermos para onde a sonoridade se podia direccionar. Eu não tinha nada feito; tinha apenas na ‘gaveta’ um conceito mais ao nível das letras do que propriamente musical. A banda começou então com essas jam sessions e começaram a surgir os primeiros temas do “Matter As Regent”, que foi o primeiro disco. E aconteceu um fenómeno bastante interessante: estivemos cerca de seis meses para fazer a primeira música, que até é a do vídeo-clip: a “Star Over A Wheel”. Essa faixa simplesmente não saía. Compúnhamos, mandávamos fora, víamos, refazíamos, alterávamos, a nível de direcção não sabíamos bem que caminho seguir… Estava ali tudo muito confuso no aspecto de apanhar o fio condutor. Entretanto acabámos de compor esse tema e a partir daí, num mês e pouco, compusemos os temas todos. Apanhámos a direcção e a banda ganhou uma sonoridade que foi agradável a todos os elementos. Acabámos de compor esse tema em meados de Junho e até Agosto/Setembro já tínhamos fechado as restantes cinco músicas do disco. Gravámos o trabalho em Ponte de Sor, num estúdio que pertence à Câmara Municipal local, por via do Centro de Artes e Cultura, onde o Mau – o nosso baterista – tem um pequeno estúdio cedido por eles. Aproveitámos, fomos para lá em dois fins-de-semana, trabalhámos dia e noite e gravámos o trabalho. O disco acabou por sair num conceito ainda experimental… Aquilo era o mais cru possível que a banda tinha para oferecer no primeiro disco. Não há aquela coisa de termos feito um álbum em quatro ou cinco anos. Foi o mais directo e honesto possível.

Se a banda surgiu em 2011 e foi tudo tão rápido e directo, porque saiu o disco apenas em 2015?
Depois da gravação tivemos um período em que a banda esteve um bocado parada. Só para dar uma ideia, posso dizer-te que a banda surgiu no final de 2011 e durante 2012, praticamente até Junho, foram os tais ensaios direccionados para essa primeira música e depois o resto saiu muito fluido e nós gravámos o disco em Outubro de 2012. Depois o grupo parou porque sentimos necessidade de trabalhar bastante na mistura. Porque como não somos ricos e foi tudo gravado por nós, numa espécie de do it yourself em que todos tivemos de ter a nossa quota-parte. E na mistura acabou por acontecer a mesma coisa. O Mau já tinha algum conhecimento mas ainda estava numa fase algo prematura no que diz respeito ao lado de mistura e masterização. Então resolvemos ir pelo lado lógico, que foi esperar que ele estivesse mais à vontade com esse lado. Ele acabou por comprar uma série de cursos online, desde mixing a mastering e por aí fora, e acabou por ganhar esse know how. E só quando ele ganhou esse know how e estava suficientemente confiante para saber para que lado a ‘coisa’ havia de ir, é que resolvemos começar a procurar uma editora e desenhámos um plano para a banda. Ou seja, estivemos o ano de 2013 praticamente todo neste impasse, ele acabou por fazer a mistura a meio de 2014 – foi para aí um ano a dar-lhe forte e feio até conseguir –, depois acabámos por assinar com a Chaosphere, com a Bleak e com a Raging Planet. Basicamente as três editoras gostaram do trabalho, acreditaram e quiseram apostar nele. Em 2015 lançámo-nos à estrada já para fazer promoção ao disco e tocámos inúmeras vezes por Portugal fora. Aí começou já um lado de desenvolvimento do projecto em direcção a uma banda mais sólida.

Como foi a aceitação do público nos concertos que deram?
A aceitação foi positiva… Como é óbvio houve concertos com muita gente e concertos com pouca. Nunca sabemos bem como é… Já tivemos concertos em que pensávamos que não ia lá estar ninguém porque éramos só nós, uma banda portuguesa, e tivemos o Sabotage cheio… E fomos tocar com os Lucifer e estavam lá sete ou oito pessoas. É aquele tipo de coisas que podem acontecer e aconteceram. Faz parte do rock’n’roll.

«Por volta de 2011 queria explorar uma coisa que tivesse base em uso massivo de efeitos, psichadelia, aquela vertente seventies sem ser seventies chapados, sem ser uma cena retro…»

Se não existiam ideias pré-concebidas em relação à sonoridade que iriam praticar quando tiveram o primeiro ensaio, porque chegaram a este som e não a outro qualquer?
Na altura em que saiu o [álbum] “Leak”, dos Concealment, estávamos associados a uma editora, que era a More Agency, e que tinha uma série de colaboradores, inclusive o Mau. Ele era o designer da editora, que fez inclusivamente a capa do “Leak”. Tivemos sempre um bom relacionamento com ele, mas sempre o encarámos como designer e eu não conhecia a faceta de músico dele. Mas num Verão, por volta de 2007 ou 2008, os RCA estavam sem músicos para fazer uma série de concertos, porque eles também pertencem aos RAMP – como era o caso do Ricardo e do Rui – e o Daniel Cardoso, que era o baterista, tinha saído da banda nessa altura. E o grupo estava desmembrado; uns estavam a tocar com as suas bandas de originais, o outro rapaz também tinha saído porque estava dedicado à produção e não tinha tempo para aquilo, e eu e o Mau fomos convidados. Tocámos, conhecemo-nos melhor e percebemos que tínhamos gostos musicais parecidos. Ele sempre foi muito virado para o noise/hardcore, bem como algumas coisas prog e por aí fora, que eu também gosto bastante. Tínhamos ali pontos em comum que fizeram com que eu passasse a encará-lo como “pulguinha atrás da orelha” para se um dia eu tivesse um novo projecto de originais. Até também pelo lado do trabalho, porque ele é um tipo super-trabalhador, dedicado e tem feito inúmeras coisas – mesmo fora dos Wells Valley – num projecto que é os Kneel, que tem bastante qualidade e é dentro da óptica dos Meshuggah. Começámos então a desenvolver um elo de amizade e proximidade. E, por volta de 2011, queria explorar uma coisa que tivesse base em uso massivo de efeitos, psichadelia, aquela vertente seventies sem ser seventies chapados, sem ser uma cena retro… Que viva daquilo, mas que tivesse também aquelas influências mais actuais. Lembro-me que nessa altura andava a ouvir bastante aquela linha de Blut Aus Nord e coisas assim, e isso às vezes acabava por não ter paralelo com a sonoridade que eu fazia com o meu outro projecto, que é Concealment. E acabei por sentir necessidade de fazer um projecto paralelo para conseguir pôr em prática essas vertentes, que não são aplicadas numa banda que é muito riff e em que é difícil às vezes ter aquele tipo de ambiências muito nuvem, porque a banda não bebe disso. O Pedro já tinha tocado comigo num projecto que eu já tinha tido no início de 2000, que era uma coisa mais alternativa e que acabou por ser mais um grupo de amigos do que propriamente uma banda que tenha tido alguma expressão. Ele é também um pouco como eu no sentido de gostar de procurar sonoridades diferentes e ouvir vários estilos de música; não é uma pessoa que esteja só presa àquela coisa típica de “só oiço death metal”, “só oiço black metal” ou “só oiço thrash”. Somos capazes de estar a ouvir Sonic Youth, mas depois, se for preciso, ouvimos Morbid Angel ou algo desse género. Compor o disco nem foi difícil, porque as ideias já estavam consolidadas, a direcção da banda era por ali, já estávamos todos de acordo com aquilo e estava a ir de encontro às sonoridades que defendíamos inicialmente: beber da veia de algum pós-metal, de algum vanguardismo, do psicadelismo dos anos 70, de algum death metal… Mas de coisas mais cruas, não aquele death metal dos Concealment, que é muito elaborado. Queríamos um death metal mais Celtic Frost, mais Triptykon, queríamos coisas mais monolíticas.

E a composição, como funciona? É uma democracia total?
A composição de Wells Valley é um processo de jam e acabou por ser assim desde o princípio. Agora está muito mais fácil porque já nos conhecemos melhor como músicos; ao princípio estávamos ainda ali um bocado no improviso. Mas sempre gostei muito do improviso, porque tem uma coisa boa: impede-nos de ter uma linha de raciocínio e estruturar logo as coisas. Isso é giro quando já fizemos as coisas durante muito tempo. Mas esta é uma banda nova, existe sangue novo e existem ideias novas. Então, todos nós vamos dando ideias. Por exemplo, este EP já começa a ser um trabalho mais consolidado da banda a nível de estrutura de composição. A primeira música do EP que surgiu foi da responsabilidade do Pedro, que estava num ensaio e começou a compor uma malha de baixo. O início da música começa com aquela linha de baixo bastante cadenciada; ele compôs aquilo num ensaio… E lembro-me que nessa altura até andávamos mais focados na estrutura da cover, e a meio de uma pausa ele estava a tocar aquilo e eu estava cá fora a fumar um cigarro e a ouvir e pensei “Epá, isto está bom”. Pedi-lhe para gravar e, no mesmo dia, experimentei umas linhas de guitarra para colocar por cima para ver o que saía… Foi para um lado e para o outro e, a partir dali, dentro de uma semana ou semana e meia de ensaios já a música estava toda feita. No ambiente desta banda evitamos repetir as coisas a nível da composição; há sempre qualquer coisa que muda, seja uma parte de bateria, o conceito estrutural da guitarra, a voz ou até o baixo. Há sempre qualquer coisa que ganha uma nuance diferente. Isso é uma assinatura que a banda tem. Durante todo o processo de estrutura e de desenvolvimento da música, podem ouvir-se coisas que são parecidas, que invocam outras e que reconhecemos, mas não são exactamente iguais àquilo que estava feito antes. Até porque isso acaba por ser um bocado o ciclo natural da vida; as coisas nunca são iguais.

Como surgiu a ideia de fazerem uma versão do “Set The Controls For The Heart Of The Sun”, dos Pink Floyd?
A ideia do nascimento da adaptação da “Set The Controls…”, que é uma versão um pouco mais ritualista, surgiu num ensaio que não tinha nada a ver. Nesse dia, por curiosidade, naquelas visitas e revisitas que vamos fazendo a temas, no meio do YouTube calhou-me aquela música e pensei “Epá, já não oiço isto há tanto tempo” e aquele riff do princípio ficou-me na cabeça o dia todo. E depois no ensaio, no aquecimento, comecei a tocar aquela parte do início. E eles começaram a segui-la. E começámos naturalmente a estruturar aquilo tudo… Às duas por três já estávamos a tocar o tema à nossa maneira. Ou seja, já o tínhamos adaptado. Recordo-me que o Mau virou-se para mim e disse-me “Epá, toca lá isso outra vez que isso é uma ideia do caraças. É uma música nova que vamos começar aí”. E eu: “Tem calma, que isto não é meu. Isto é Pink Floyd”. [risos] Ele disse “Epá, mas eu nem curto nada Pink Floyd”, e eu respondi-lhe “Agora tanto faz gostares ou não gostares. Agora já está cá”.

«Metemos na cabeça que em Dezembro íamos começar a compor o disco seguinte; começámos a escrever no início de Dezembro e desde aí até agora já temos dois temas feitos.»

E já há material para um próximo disco?
Sim. Metemos na cabeça que em Dezembro íamos começar a compor o disco seguinte; começámos a escrever no início de Dezembro e desde aí até agora já temos dois temas feitos. E uma das músicas tem quase nove minutos. Já não temos de pensar muito para onde é que a banda vai; cada um de nós já sabe qual é o tipo de tarefa designada para chegarmos a um certo tipo de sonoridade e começamos a caminhar ao encontro disso. Volta e meia nasce de uma ideia de bateria, outras vezes nasce de uma ideia de guitarra, outras ainda de uma ideia de baixo… Não existe aquela coisa de eu chegar lá com um tema feito e dizer “Pessoal, está aqui esta música. Vamos tocá-la”. Porque isso não seria Wells Valley, seria um conceito que não é o conceito desta banda. Esta banda vive mesmo muito de respiração. E, no fundo, respiração a nível musical deve-se ao facto de explorarmos ambiências in loco. Temos de estar a sentir as coisas no momento. Porque estar em casa a fazer uma programação no computador e depois tocar por cima é giro, mas nunca é a mesma coisa que estarmos num ambiente de improviso, em que as coisas ganham dinâmicas diferentes e acabam por ter texturas que são bastante mais viáveis. E para uma banda que acaba por querer invocar também algum feeling das décadas de 60 e 70, isso é bastante importante. Porque era o que essas pessoas faziam na altura. Obviamente que não estamos under the effect, mas o que acaba por prevalecer é o lado de irmos à procura daquele estado de espírito, deixar fluir a coisa.

Porque decidiram agrupar estes três temas e não incorporá-los num próximo álbum de originais?
Inicialmente estes temas nasceram para serem lançados num split com uma banda francesa chamada Deluge. A determinada altura trabalhávamos com um promotor que era a ligação entre os Deluge e nós, mas os franceses acabaram por separar-se dele e ficámos sem a ligação a essa banda. Ainda tentámos, depois, procurar algumas bandas com quem fazer o split, mas a realidade é que havia pelo menos um requisito: a banda escolhida tinha de ter uma cover, para a nossa fazer sentido também. Mesmo que as sonoridades não fossem iguais, tinha de haver esse lado para haver uma simetria. Existiam bandas com que falámos que ainda não tinham covers gravadas, não sabiam quanto tempo iam levar a gravar uma e começámos a perceber que a coisa estava a empatar. E chegámos à conclusão de que se não fizéssemos já o lançamento dos temas, ia ser difícil fazermos. Porque nunca conseguimos encarar aquelas três músicas como integrantes de um disco longa-duração. Eram temas que tinham nascido para aquele efeito: ou para um split ou para uma situação como a que acabou por acontecer, de EP. Acabámos, por isso, por ter aquela ideia bastante direccionada de “OK, isto é uma banda com conceitos bastante sólidos e se isto não é para ser um split também não vamos estar à espera para inserir estes temas no disco. Vamos agarrar neles e fazer qualquer coisa, porque se calhar a sonoridade que queremos desenvolver para o disco pode já não ter muito a ver com os temas que estão aqui”.

«Existe um lado pessoal obviamente, porque se não cantássemos sobre o que sentimos também não seríamos verdadeiros para quem está a ouvir.»

Ao contrário da música, esta banda é mais direccionada para as tuas letras e visões pessoais?
Esta banda invoca uma série de assuntos que vivem no universo do ocultismo, do esoterismo e por aí fora. Coisas que eu gosto de estudar, sobre as quais gosto de ler e que pertencem ao conhecimento milenar do ser-humano. Existe um lado pessoal obviamente, porque se não cantássemos sobre o que sentimos também não seríamos verdadeiros para quem está a ouvir. O que acaba por acontecer aqui são analogias feitas em prol de alguns mitos, lendas e teorias conspiratórias. Mas sempre no foco de algo que já se passou, neste caso na minha vida porque sou eu que escrevo as letras. E acabo por ter esse lado pessoal mais ou menos evidenciado, mas se calhar de uma forma mais simbólica e metafórica e não de forma frontal, de falar directamente sobre o assunto. O conceito do EP “The Orphic” é o mito de Orfeu. Mas a palavra “orphic” em si não é só associada a Orfeu. Significa mistério, algo de obscuro, indecifrável ou encriptado. E acaba por ser também um pouco isso, porque o culto de Orfeu é uma coisa, a história de Orfeu é outra, o orfismo é outra… Existe uma série de coisas associadas a este nome. Logo aí há um lado polivalente. Mas o design acabou por ir de encontro ao mito de Orfeu que, como quem conhece sabe, tem a ver com o facto de Orfeu ter perdido a mulher dele, do nada, para o inferno – neste caso o inferno de Hades – e de ir à procura dela. E ele, que até era um músico excelente, conseguiu ir ao submundo resgatar a mulher. E quando estava de regresso à Terra, ao plano material existencial, saindo do estado liminar em que estava focado, foi avisado para não olhar para trás. Porque se o fizesse perderia a mulher de novo. E o que acontece é que ele a determinada altura, ouvindo os gritos de desespero associados ao submundo, acabou por virar-se e olhar. E quando olhou, a mulher desvaneceu-se e voltou ao inferno. Ou seja, o que temos de perder perdemos e não há hipótese, mesmo que vamos aos confins do mundo… É essa um pouco a moral da história. No fundo, o lado prático desta história também pode ser associado a certos acontecimentos na nossa vida – e no meu caso pessoal também. Isto é um pequeno conceito, como os temas também terão outros, de outras situações do quotidiano e que são adaptáveis a qualquer pessoa, porque todos nós temos este tipo de situações no nosso dia-a-dia e na nossa vivência pessoal. Neste caso, em Wells Valley, acabo por criar um lado simbólico associado a esses termos mais encriptados.

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