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[Reportagem] HMF XXV – Mangualde a ferro e fogo

João Correia

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Chris “Mean Man” Holmes (Foto: João Correia)

Pese o facto de às três da tarde o chão de terra dos arredores apresentar gelo, a XXV edição do Mangualde – Hard Metal Fest (HMF) resultou num ambiente infernalmente quente devido à enchente cada vez maior de massa humana que acorre ao chamamento anual de José Rocha. Ponto de encontro de muitos amigos e bandas, o HMF já é uma instituição em Portugal por si só, o que explica facilmente a sobrelotação do recinto, sendo quase impossível andar de um lado para o outro a partir de determinada hora. Vários testemunhos no local disseram-nos que estão presentes mais pelo convívio do que pelas bandas em si, mas logicamente juntam o útil ao agradável para verem colectivos que nunca viram ao vivo ou que desconhecem por completo.

Os Basalto foram os primeiros a pisar o palco e a debitar o seu doom/post-metal cavernal. A actuação decorreu sem percalços e o som do conjunto invoca o seu demónio por excelência continuamente – o riff pesadão e arrastado. Tecnicamente, os Basalto são simples, o que não significa ‘maus’, pois a descarga de violência sónica resulta, mesmo que de forma moderada. Com “Doença” ainda fresco (2018), tocaram um set que oscilou entre o doom mais lento e partes stoner mais revivalistas e animadas, saldando-se o concerto num exercício mediano. Foram a opção certa para dar início a um dia bastante longo.

Basalto (Foto: João Correia)

Entre cada banda há uma intermissão de cerca de 15 minutos, o que dá tempo para fumar, falar, comer e beber, bem como rever amigos e conhecer mais pessoas. Os portugueses Affäire entraram de seguida e proporcionaram cerca de meia-hora de hardrock/heavy metal que toca no mesmo compasso de Mötley Crüe, Guns n’ Roses e Skid Row, entre outras, mas sem 1% da chama de qualquer uma dessas bandas. Em palco, os Affäire são monótonos, desprovidos de temas que prendam o ouvinte; o vocalista D. D. Mike tem uma voz demasiado grave para o glam/sleaze rock que reinou incólume durante a década de 80, o que também não ajuda. Instrumentalmente são bastante simples, com um ou dois solos a salvar  a honra da banda, mas o que realmente fez maior impacto foi a ausência de emoção em palco, a falta de movimento, a apenas aparente falta de experiência com o público (afinal, a banda remonta a 2011). Desiludiram, mas ficámos a pensar que com mais dedicação e feeling (nitidamente ausentes) a prestação ao vivo poderá ganhar uma nova dimensão.

Logo após, os Dark Oath prepararam-se para mais um concerto que habitualmente convence, mas tiveram azares durante todo o set, que começaram imediatamente na intro devido a um cabo com mau contacto. Tudo isto pode ser resolvido com facilidade, e a ideia de apresentar a banda com uma intro apelativa gorou-se devido a um cabo. Acontece. Já a voz de Sara Leitão sofreu de outro tipo de interferência, que presumimos ser devida ao tempo gelado que vivemos actualmente. Isso não impediu que a frontwoman tentasse comunicar com o público, ainda relativamente escasso à altura, mas que também não foi realizado com grande emoção/naturalidade. Musicalmente, a vocalista sabe o que faz, mas diz-nos a experiência que pode vir a ser muito melhor em termos de carisma, de contacto. Em termos instrumentais, nada a apontar – trata-se de um som fácil de gostar: é épico, melódico, pesado e algo técnico. A adição de Tiago Correia (Analepsy) como live drummer fez bem aos Dark Oath, que acidentalmente ficaram mais pesadões, um ponto sempre a favor.

Balmog (Foto: João Correia)

Seguiram-se-lhes os galegos Balmog. Há sempre uma banda qualquer inicial que nos faz virar os olhos em direcção ao palco ao mesmo tempo que pensamos ‘o que é isto?’. Assim aconteceu com os Balmog, praticantes de black/death metal com contornos vocais no mínimo interessantes. Por partes: a secção instrumental é potente, violenta e insistente sem entrar em exageros, mas é a voz de B que colhe todas as atenções quando nos faz lembrar Heroes del Silencio e, de seguida, qualquer banda de black metal clássica. A gama vocal de B eleva o som dos Balmog a outro patamar sem grandes dúvidas. Outra nota a apontar é a eficácia de V, o baterista de serviço, que imprime uma pujança fortíssima à banda. Na estrada a promover o recente “Vacvvm” (2018), foram seguramente a banda que mais nos impressionou no sábado passado.

Por volta das 18h55 foi a vez dos Ironsword, colectivo de heavy metal clássico de Lisboa que já contava com uma saudável legião de fãs entre o público. Na estrada desde 1995, pouco haveria a apontar aos Ironsword no que toca a prestação ao vivo, e foi exactamente isso que sucedeu no XXV HMF, onde tivemos oportunidade de ver uma banda rodadíssima, muito confiante em palco e com faixas já clássicas dentro do movimento nacional, casos de “Burning Metal” e “Dragons Of The Sea”, ambas tocadas no festival. O desempenho geral foi muito bom, que é sempre o mínimo que se espera de uma banda responsável por discos como “Ironsword” e “Return Of The Warrior”.

Night In Gales (Foto: João Correia)

O primeiro nome grande da noite foi Night In Gales, o colectivo clássico alemão de death metal melódico com severas influências suecas. Após um começo com o pé direito em 1997, com o promissor “Towards The Twilight”, a banda encarreirou pelo mesmo som uma e outra vez, o que fez com que perdesse o ímpeto  inicial e tivesse caído um pouco no esquecimento. Felizmente, ao vivo, os Night In Gales levam-nos de volta a 1997, tal é a energia e a velocidade, violência e competência do quinteto. Os temas de outros tempos estiveram presentes na forma de “Razor” e “Autumn Water”, o que não impediu os germânicos de apresentarem pérolas recentes como “The Last Sunsets”, extraído do último trabalho da banda (2018). A qualidade de som esteve impecável, e o regresso recente de Christian Müller ao comando da voz e a potência inquestionável de Adriano Ricci na bateria fizeram do concerto de Night In Gales o mais sólido da noite. O slam, os circle pits e algum stagediving confirmaram-no. Chapeau!

Seguiu-se Chris “Mean Man” Holmes, uma figura bastante aguardada pela geração dos entas. Corresponsável por alguns dos temas mais viciantes e pesadotes do hardrock/heavy metal norte-americano enquanto membro dos W.A.S.P., apresentou algumas das músicas mais marcantes dessa época – como “Blind In Texas”, “I Wanna Be Somebody” ou “Animal (Fuck Like A Beast)” -, o que fez do concerto pouco mais do que um revival set de uma banda lendária, com certeza, mas que apela a uma fatia muito reduzida dos festivaleiros. Em vez de bom, pareceu-nos um concerto OK – não é que os que o esperavam tivessem saído da sala defraudados, mas custou-nos ver um representante desta envergadura a basear a sua performance em temas de W.A.S.P. quando poderia investir mais em novos originais. Não aqueceu nem arrefeceu, mas teve o seu público-alvo rendido desde os primeiros instantes.

Steve Grimmet (Foto: João Correia)

Seguiu-se outra lenda de outros tempos: Steve Grimmet, membro fundador dos Grim Reaper. Para variar, também não faltaram fãs dos entas colados à frente do palco a debitar refrãos como se conhecessem a banda desde os anos 70 (e na volta conhecem). A vitalidade de Steve Grimmet e o seu know-how para comunicar com o público estão reservados só para alguns. Se dúvida houvesse, desvaneceu-se quando Steve levou o público a cantar com ele “Don’t Talk To Strangers”, clássico original de Ronnie James Dio e que o vocalista desempenhou em jeito de tributo. Desde os momentos iniciais da música que o público se rendeu ao vocalista, entoando a letra em coro, respondendo aos seus desafios e finalizando pouco após num concerto bastante interessante e que vale a pena presenciar pelo menos uma vez. Ficámos a pensar de como teria sido uma actuação dos Grim Reaper nos seus tempos áureos.

Como nem só de heavy metal e rock se faz um HMF, as vertentes mais pesadas começaram a suceder às velhas gerações. Os thrashers irlandeses Gama Bomb provocaram o maior arraial de pancadaria no festival com constantes circle pits e slam a decorarem a frente do palco. Vimo-los anteriormente no Vagos Metal Fest e não deixaram grandes saudades, mas a actuação da banda no HMF foi diferente, talvez mais íntima e adequada, com um som a roçar o perfeito e as mesmas bocas de sempre do vocalista Philly Byrne. “Quem quer ouvir um tema de Slayer?”, perguntou, para resposta efusiva do público. “Então vão a um concerto de Slayer!”, respondeu. Também a promoverem o recente “Speed Between The Lines” (2018), são o exemplo perfeito de uma banda thrash revivalista: não apresenta novidades, não oferece música para pensarmos sobre ela, mas, em contrapartida, proporciona 40 minutos de bandalheira sónica perfeita para entusiastas do pit. Aprovados.

Agressor (Foto: João Correia)

Na mesma linha de peso, seguiu-se a penúltima oferta desta edição, os lendários Agressor. Os franceses praticam um death/thrash metal de alta qualidade desde a sua incepção com o lançamento do não menos lendário “Neverending Destiny”, editado em 1990 e que trouxe a banda a Portugal nesse ano ao saudoso Rock Rendez-Vous. Muito mudou desde então, mas, em termos de identidade, os Agressor mantiveram-se fiéis ao som que os caracteriza: técnico, veloz, agressivo e com identidade própria. Rapidamente começou o stagediving e o slam, com um Alexandre Colin-Toquaine (voz) bastante divertido com a movimentação e um sempre demolidor Kévin Paradis (Benighted) a tomar conta da já por si extrema secção rítmica dos Agressor. Não faltaram clássicos como “Rebirth” e “The Sorcerer”, que eram esperados por meia-dúzia de fanáticos da banda e que por eles foram devidamente  celebrados. Exceptuando um ligeiro problema de som a meio da actuação, tratou-se de um concerto à moda antiga: rápido, rijo e que fez mossa tanto a quem os conhecia como aos restantes.

Para finalizar as hostilidades, o HMF convidou os nacionais Analepsy para encerrar o cartaz com chave de ouro, do pesado. Basearam a sua prestação em temas bem conhecidos como o inicial “Apocalyptic Premonitions” ou “Engorged Absorption”. São o tipo de banda que temos a certeza que cumpre do princípio ao fim sem desiludir e, fora dois pregos, foi o concerto que ninguém se deveria importar de esperar para encerrar o festival.

A organização continua a demonstrar boas práticas a cada edição: os preços mantêm-se baixos (por ex., 5 cervejas por 5 euros), a aposta musical continua a ser diversificada e o bom ambiente geral que se sente no HMF é motivo mais do que suficiente para ir e repetir sem receio. Lá estaremos na XXVI edição.

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Texto: João Correia
Fotos: João Correia, à excepção de Anaplesy por Filipe Gomes

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[Opinião] Conan Osiris e a diferença, ou a necessidade de a defender

Diogo Ferreira

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(Foto: roya_contemporary)

Não gosto de Conan Osiris. “Ah, mas tu és do metal, claro que não gostas.” Não, eu sou de tudo o que me sabe bem ouvir. Uma das entrevistas que mais gozo me deu em fazer foi com Sette Sujidade de Scúru Fitchádu e ainda há poucas semanas saí de um concerto de Mazgani em Aveiro para apanhar Serrabulho na hora seguinte em Coimbra. Mas deixemos o ‘eu’ e falemos do ‘nós’.

Há muita alínea por onde se começar para falarmos deste ódio – sim, já é ódio – a Conan Osiris; desde o não termos gostado da morte anunciada do rock e do metal por parte de alguns meios de comunicação (o que é mentira, bastando olhar para a agenda e ver a carrada de concertos/festivais que se avizinham de norte a sul do país) à prática comum do metaleiro no que à fúria contra o popular e o mainstream da rádio e da televisão diz respeito.

Não morro de amores por Conan Osiris. Tem um timbre característico e sedutor a tempos, mas não tenho qualquer apreço pela maioria do mash-up sonoro, das letras e da forma como o artista se exprime nas entrevistas que dá. No entanto, gosto da diferença e da tolerância pelo simples facto de eu próprio e todos nós pertencermos a um movimento já por si diferente, anti-sistema (não tanto como antes) e tantas vezes ostracizado pela sociedade em geral porque ouvimos berros, vestimos de preto, temos tatuagens e adoramos Satã.

Não serve este texto para nos pormos uns contra os outros dentro da facção que é o metal e o rock, mas antes para considerarmos que a tolerância é uma ponte, para olharmos para as próprias biqueiras de aço e pensar que também somos diferentes e já sofremos com e por isso. Quando o bullied se torna o bully, toda a luta anterior perde efeito, toda a sagacidade por prosperar dá lugar ao ódio gratuito.

Numa época em que a extrema-direita intolerante cresce a olhos vistos com o método populista como maior ferramenta, em que temos polícias contra desajustados e brancos contra pretos, urbanizações de luxo a contrastar com acampamentos de ciganos e patrões milionários a assediar moralmente os seus trabalhadores, o melhor não é, de facto, dar a outra face, mas o ódio tão barato, proveniente por exemplo das redes sociais, também não é um fim justificável. Põe antes um disco de At The Gates ou vai a um concerto punk numa república e deixa a massificação tomar conta dos Conans Osiris desta vida. Nunca fomos, enquanto adeptos de metal, o ideal da sociedade, nunca teremos uma mão-cheia de bandas a apresentarem-se em horário nobre, nem nunca conseguiremos verticalmente mostrar o nosso ponto-de-vista a quem não tem isto no sangue e na alma. É uma luta que perderemos sempre para fora, mas que ganhamos para dentro quando estamos juntos num bar com 20 pessoas ou num festival com 10000.

Sempre quisemos ser distintos – há até quem gostasse que tudo à volta fosse e sentisse como nós – e a nossa missão, se é que podemos apelidar isto assim, não pode ser baseada na intolerância precisamente porque somos diferentes. Vejamos isto por outro prisma mais panorâmico: desejamos antes destoar, ver o mundo doutra forma sem nos importarmos com as massas mesmo que isso implique viver num nicho e criar uma comunidade que rejubila entre si mesma com uma mera malha de guitarra.

Não gosto de Conan Osiris, mas gosto da diferença e da alternativa. Somos todos freaks e não sabemos. Ou se sabemos, agimos de maneira a que o outro pareça mais freak do que nós para, quem sabe, nos deitarmos um bocadinho menos inquietados com aquilo que realmente somos.

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[Reportagem] Mastodon + Kvelertak + Mutoid Man: três foi a conta que o Diabo fez (17.02.2019 – Lisboa)

João Correia

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Mastodon (Foto: Solange Bonifácio)

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Mastodon + Kvelertak + Mutoid Man
17.02.2019 – Lisboa

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Na ronda final da digressão “Emperor of Sand” não seria de esperar outra coisa do que casa cheia para assistir a mais um concerto de Mastodon em Portugal, que, desta vez, trouxeram na bagagem os Mutoid Man e os Kvelertak como bandas de apoio, o que é curioso se pensarmos que ambas têm capacidade para serem cabeças-de-cartaz em concertos em nome próprio, principalmente Kvelertak. Quanto aos Mastodon, noticiámos há cerca de dois anos o início desta digressão noutras paragens, cujo concerto nos deixou visivelmente impressionados e que queríamos ver como decorreria (uma vez mais) em Portugal, muito por causa das recentes declarações de Troy Sanders à Ultraje.

Mutoid Man (Foto: Solange Bonifácio)

O pano subiu ao som dos Mutoid Man, desta feita sem Ben Koller atrás da bateria. Poucos ignorarão que o baterista dos Converge fracturou o cotovelo em Dezembro passado, tendo por isso sido substituído por Chris Maggio, que revelou ser um sticks man muito acima de músico de sessão. Ainda a promoverem “War Moans”, de 2017, os Mutoid Man são um caso sério de competência – banda residente do talk show “Two Minutes To Late Night”. A banda de Brooklyn despeja tudo aquilo que poderíamos esperar de um colectivo desses lados: punk, rock, core, metal e – principalmente – uma atitude rara que nos faz lembrar de colectivos clássicos de NYHC, tudo com doses generosas de progressivo. Stephen Brodsky (vocalista/guitarrista) teima em não ficar quieto e em deixar o público respirar um segundo que seja. Brodsky é possuidor de uma voz rara, potente e agressiva, com uma assinatura natural que não deixa os ouvintes indiferentes, claramente um filho pródigo da cena hardcore nova-iorquina. Não menos irrequieto é Nick Cageao, o baixista de serviço que deveria ter uma marca registada do seu headbanging furioso e pose ameaçadora em palco. À terceira música, Brodsky anuncia que era chegado o momento de uma «canção de amor». «Agarrem a vossa companheira… PELO PESCOÇO!» O som em geral esteve como se quer: uma mistura de lixa de vidro, volume q.b. e nitidez em geral. O trio soube a pouco, assim exigiu o cronograma, mas deixou na Sala Tejo um aroma a gordura, suor, urina e Coney Island que será difícil de remover.

Kvelertak (Foto: Solange Bonifácio)

Logo após, chegou a banda da noite… quero dizer, os noruegueses Kvelertak. Sim, toda a gente se deslocou à Sala Tejo para ver Mastodon, mas os Kvelertak simplesmente ofuscaram o brilho dos norte-americanos nesta noite. É fácil de entender o convite dos Metallica aos noruegueses após ver um concerto destes ao vivo. Durante cerca de 45 minutos, o sexteto deliciou os presentes, dos desconhecedores aos fãs de longa data, devido ao rebuliço constante em palco, bem como fora dele. Se existe actualmente uma banda que é a fiel representante do espírito do rock, é impossível que essa não seja Kvelertak. Após a recente partida de Erlend Hjelvik (vocalista), os escandinavos recorreram aos serviços de Ivar Nikolaisen, um animal que nasceu para reinar num ecossistema muito particular – o palco. E reina, ó se reina! Ao passo que Erlend detinha uma actuação (e até compleição física) musculada e potente, Ivar é o seu antípoda: escanzelado, aparentando ter saído de uma clínica de reabilitação, mas muito, MUITO energético e furioso. Foi a banhos de multidão cinco vezes e, quando não estava a nadar em público, nadava em álcool em cima do palco. Os restantes elementos fizeram-lhe frente de forma magistral, sempre em movimento, sempre a tentar trazer o palco abaixo. A qualidade sonora não foi perfeita, mas também não esteve abaixo de boa. O som de marca da banda ajuda à festa, fazendo lembrar uma mistura entre The Hives e The Hellacopters, com cock rock à moda antiga de Led Zeppelin e com inteligentíssimas pinceladas de black metal e devidos blast-beats. Dizer que os Kvelertak são um oásis no meio de um longo deserto é um eufemismo. A sensação geral depois do concerto foi de um evento especial proporcionado por uma banda que, a continuar assim, conseguirá que os Mastodon abram para ela.

Mastodon (Foto: Solange Bonifácio)

Pouco depois das 22h20, os Mastodon subiram ao palco perante uma sala repleta de fãs e de pares. Clássico atrás de clássico, sem medo de esgotarem todos os seus trunfos. Com uma prestação logicamente baseada em “Emperor Of Sand”, o público soube corresponder aos acordes iniciais de temas como “Precious Stones”, todos recebidos com a devida efusividade e algum crowd surfing e slam. A banda conseguiu atingir um ponto épico em “Emperor Of Sand”, um disco que imprime à banda todos os ingredientes necessários para o sucesso: raiva, drama e criatividade desmedida. Assim, a celebração do último concerto de uma digressão de dois anos teria de ser especial e foi-o à sua maneira. Pelo meio, houve tempo para passar revista a discos como “Once More ‘Round The Sun”, “Crack The Skye” e “The Hunter”, conseguindo agradar às diversas gerações de fãs que ouviram o chamado do mastodonte. Uma vez mais, o som não foi cristalino, mas, ainda assim, foi nítido e desembaraçado. Para o final, a esperada “Blood and Thunder” recebeu de volta um pavilhão lotado a entoar talvez o refrão mais emblemático do álbum mais emblemático dos Mastodon, “Leaviathan”. Findo o concerto, a banda disse «vemo-nos no próximo ano já com o disco novo» e, mesmo a finalizar, Bran Dailor (baterista) aproveitou para agradecer ao público e bandas de apoio, bem como ao staff envolvido na digressão mundial, explicando o significado de Kvelertak em inglês e do porquê de os Mutoid Man serem «não um homem, não um mutante, mas algo esquisito entre ambos», misturando brevemente agradecimentos com stand up comedy. Concerto muito acima da média mas um pouco abaixo da experiência de ver Mastodon num estádio, convenceu os presentes à velha maneira de César: Veni, Vidi, Vici. Perdeu quem não foi.

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Texto: João Correia
Fotos: Solange Bonifácio

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[Reportagem] Slapshot + Crab Monsters + BAD! (16.02.2019 – Lisboa)

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Slapshot (Foto: Solange Bonifácio)

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Slapshot + Crab Monsters + BAD!
16.02.2019 – Lisboa

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Slapshot é uma banda repleta de história, rumores e lendas urbanas. Poucas bandas – dentro do género – deixaram uma marca como eles, em que, geração após geração, novos miúdos dentro do movimento do hardcore são capazes de descobrir esta banda de modo a ser-lhes dada uma base e uma frescura musical. Os Slapshot continuam a ser nada mais do que uma versão pura e crua de hardcore, tal como ele o é e de modo bastante consistente a nível instrumental.

Formados em 1985, faziam parte do movimento de hardcore de Boston, e, tal como eles, bandas como Jerry’s Kids, Gang Green, The F.U.’s, SS Decontrol, Negative FX (em que Jack “Choke” Kelly, de Slapshot, fez parte) e Siege, sendo uma grande parte delas influenciadas pelo movimento straight-edge de D.C. – por isto tudo e muito mais, esperava-se uma noite memorável, e assim o foi.

As bandas de suporte foram ambas nacionais. A abrir as hostilidades da noite – de celebração ao hardcore da velha-guarda – contámos com os BAD!, das Caldas da Rainha, que trouxeram-nos o seu 80s Rawcore. Logo de seguida, os Crab Monsters subiram ao palco e fizeram-nos viajar no tempo até ao underground do punk-hardcore dos anos 80. Com uma atitude puramente old-school e repletos de energia, marcaram a sua pegada musical nesta estreia em Lisboa.

Sem desculpas, altamente straight-forward e repletos de rapidez e fúria musical, os Slapshot fecharam a noite com chave de ouro – tal seria de esperar de uma banda com o peso que esta tem e por tudo que representa. Com constantes momentos de boa disposição entre músicas, desde ficarmos a saber que o vocalista Jack “Choke” Kelly afinal de contas tem uma costela portuguesa a sing-alongs de grandes sucessos pop dos anos 80 e piadas portuguesas, consolidou-se ainda mais o ambiente festivo que já se tinha gerado.

O Popular Alvalade foi o local escolhido para acolher o regresso dos Slapshot, recentemente headliners do Hell Of a Weekend (também promovido pela Hell Xis Agency)mas desta vez num registo bem mais intimista, o que ajudou esta noite a ser especial para os que lá estiveram. Esta noite de concertos resumiu-se a um lema: OLD TIME HARDCORE!

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Texto e fotos: Solange Bonifácio

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