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Angelus Apatrida: na ponta da lâmina (entrevista c/ Guillermo Izquierdo)

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«Será que este é o nosso “Load”? É claro que não. É o nosso sexto álbum, sim senhor, mas não é nada diferente em relação ao que fizemos antes. Ainda estamos na cena e continuamos a procurar coisas novas para introduzir na nossa música.» Guillermo Izquierdo “Polako” mantém-se impassível, mesmo apesar de o provocarmos com uma pergunta inicial que liga “Cabaret de la Guillotine”, o sexto álbum dos seus Angelus Apatrida, com sextos álbuns dos Big Four do thrash: “Youthanasia” dos Megadeth, “Divine Intervention” dos Slayer, “Sound Of The White Noise” dos Anthrax e, claro, o infame “Load” dos Metallica. O guitarrista e vocalista vai mais longe: «Gostei de uma coisa que um jornalista espanhol me disse hoje noutra entrevista: este disco é como quando os Metallica lançaram o “…And Justice For All” depois do “Master Of Puppets”. Até porque esses são os meus dois discos de Metallica preferidos. Não acredito que este seja o nosso álbum “Load” ou o “Youthanasia”, que por acaso adoro. Na minha opinião estamos numa evolução constante e, por isso, continuamos a subir. É a minha opinião e, na próxima entrevista que me fizeres, se me colocares uma questão semelhante, acho que vou responder de forma igual em relação ao próximo disco.»

«Políticas extremas estão a chegar ao poder… O fascismo e o nepotismo estão a marchar sem oposição e vivemos numa era completamente louca.»

É claro que “Cabaret de la Guillotine” não é um “Load”. A nossa pequena  provocação foi tão mais maldosa quanto o novo álbum do quarteto de Albacete continua a respirar força, vitalidade e aquele poder cru que apenas o thrash pode dar ao metal. E inclui uma boa dose de melodia na abordagem violenta, quase zangada, que a banda tinha nas propostas anteriores. «Existe uma grande confiança dentro da banda, o que não impede que, sempre que gravamos um álbum, sabermos exactamente o que temos de corrigir e melhorar. Depois disso podemos ir em digressão e defender ao vivo o disco que gravámos. Mas ao mesmo tempo temos de ser humildes e honestos connosco próprios para perceber, também aí, o que podemos melhorar. São ciclos», diz-nos o músico. E, logo a seguir, a conversa muda para as influências musicais da actuais da banda e é a vez de Guillermo devolver a provocação: «No último ano tenho ouvido todo o tipo de música, não apenas metal. Percebi que gosto, por exemplo, do Bruno Mars. [risos] E não tenho medo de reconhecê-lo. Gosto mesmo muito de Bruno Mars. Era um fã enorme de Michael Jackson quando era miúdo e agora descobri o Bruno Mars. É claro que não vou tocar aquele estilo de música funky mas, de alguma forma, por vezes podemos ser influenciados por pequenas partes, como ritmos ou mesmo a forma de cantar. Não tenho qualquer problema em pegar nesse tipo de coisas, torná-las nossas e gravá-las. Também sou um grande fã de hip-hop… Não encontro uma ligação óbvia entre a minha música e a música que ando a escutar agora, mas por vezes posso ser influenciado por letras, pelo modo como eles cantam as palavras, não sei. Por vezes não se trata apenas da música; é todo o conceito.»

É difícil imaginar que músicas como “Downfall Of Nation” podem ter sequer um resquício de Bruno Mars e hip-hop na sua concepção. É difícil pensar num tema mais representativo do que a nova geração é capaz de fazer, ainda por cima com uma temática de letras que, não há como negar, olha para a realidade sociopolítica espanhola como inspiração. «Sim, cerca de 75% do disco fala de Espanha, mas também fala do resto do mundo», confirma o nosso interlocutor. «Políticas extremas estão a chegar ao poder… O fascismo e o nepotismo estão a marchar sem oposição e vivemos numa era completamente louca. Em 2018 é bastante surrealista o que se está a passar nos governos em todo o mundo, tornando muitos locais do mundo extremamente perigosos. Basta olhar para a situação dos imigrantes, por exemplo. É um mundo muito duro, louco por vezes. O mais estranho é que noutro dia vi um documentário na TV sobre a Segunda Guerra Mundial e pensei ‘caraças, devíamos ter aprendido com o que fizemos e com o resultado que obtivemos’. Agora olhamos para o mundo e para o modo como as nações facilmente ameaçam chegar ao mesmo ponto, e é de doidos. E claro, essa situação inclui a Espanha também.» A questão seguinte é inevitável: será que nunca aprendemos com os erros que a História nos ensina? «Ainda noutro dia um amigo meu me falou nisso. Tudo na vida anda em ciclos e a História repete-se. Isto é muito perigoso e interessante ao mesmo tempo, porque tanto somos capazes de aprender com a História e com os erros cometidos, como somos capazes de fazer ainda pior. Mas sabes o que é mais assustador? É que acho que isto é apenas o início. Talvez o pior esteja ainda para vir. É realmente muito assustador.»

«Amo a Espanha, amo Portugal, amo o sol, a praia, a comida e as pessoas.»

Com 18 anos de carreira e o proverbial sexto álbum de originais já despachado, um dos maiores perigos de uma banda que até há bem pouco tempo era vendida com a etiqueta da “irreverência da juventude” colada pode ser a perda da motivação e “fome” dos primeiros tempos. Polako diz que isso não é para os Angelus Apatrida. «Sentimos precisamente o contrário», afirma. «Já tocamos juntos há 18 anos, porque começámos quando ainda éramos miúdos, e somos amigos desde aí. Somos como um casal que se uniu para a vida toda. Por isso, tudo se torna mais interessante a cada ano que passa. Sempre que estamos prestes a gravar um novo álbum e sempre que vamos em digressão sentimo-nos mais motivados. É claro que não ensaiamos com a mesma frequência com que o fazíamos há dez anos, porque não é necessário; todos sabemos o que fazer e temos bastante mais prática. Basta-nos ensaiar duas ou três vezes antes de irmos em digressão. No resto do ano não ensaiamos, porque tocamos tantas vezes em concerto, que tocar ao vivo é o nosso ensaio. É a nossa forma de vida, é o nosso emprego principal neste momento e é muito interessante estar numa banda com estes tipos. Somos amigos para a vida e somos irmãos. E é claro que espero estar mais 18 anos ou mais ao lado deles a fazer isto.» Por outro lado, o espectro da emigração, sempre presente nos países do sul, para paragens onde o mercado musical “metálico” seja mais forte e apetecível, nunca passou pela cabeça do quarteto. «Na verdade, acho que a indústria musical aqui em Espanha é bastante boa para nós. Somos muito afortunados e temos uma posição muito boa na cena heavy metal aqui. E não é só por causa disso que eu nunca pensaria em mudar de país… Ando em digressão pelo mundo todo e consigo ver que a cena espanhola é uma das melhores que há. Posso apenas compará-la com a cena da América Latina, que tem um público extremamente poderoso. Também posso compará-la com Portugal, claro, mas Portugal é como Espanha, porque somos irmãos. Portugal, Espanha e a América Latina têm o melhor público do mundo, por isso nunca me mudaria. Amo a Espanha, amo Portugal, amo o sol, a praia, a comida e as pessoas. Prefiro ir à Alemanha e ao Reino Unido para visitar e trabalhar, mas quero viver aqui.»

«O Daniel [Cardoso] é um bom amigo nosso e sempre nos ajudou em tudo.»

“Cabaret de la Guillotine” tem uma diferença considerável quando comparado com os seus antecessores: não contou com produção feita nos Ultrasound Studios, de Daniel Cardoso. Os Angelus Apatrida decidiram gravar “em casa”, mas não dispensaram os serviços do português na mistura e masterização. «Decidimos produzir o álbum sozinhos também porque tivemos dicas muito valiosas do todo-poderoso Daniel Cardoso. Consideramo-lo mais do que um amigo e ajudou-nos bastante. Apenas fizemos as captações sozinhos no nosso próprio estúdio, mas depois, claro, tivemos o Daniel a dar-nos montes de dicas, conselhos e opiniões por telefone e e-mail. Foi o método que utilizámos desta vez. E foi muito engraçado… Foi duro gravarmos sozinhos, mas soube muito bem termos o nosso próprio local na nossa cidade, não estarmos longe de casa pressionados com o tempo e com o dinheiro. Porque cada dia que passamos num estúdio profissional tem de ser pago, assim como as pessoas que lá trabalham. Por isso foi muito confortável trabalhar em casa. E depois o Daniel fez um trabalho fantástico e espantoso na mistura e masterização, e o resultado é mais que óptimo. Devo dizer que o Daniel nos confidenciou que este era o álbum com que estava mais feliz, de todos os que tinha feito.» Apesar desta decisão, a relação de amizade e aliança ibérica entre o produtor e a banda não saiu minimamente beliscada. «Sim, claro. Já nos conhecemos todos há muito tempo», confirmou-nos Guillermo. «Como foi dito, o Daniel é um bom amigo nosso e sempre nos ajudou em tudo. Ao início disse ‘OK malta, não sei se vocês vão querer misturar o álbum comigo, mas vou ajudar-vos de qualquer modo’. Tinha-lhe ligado a dizer como íamos fazer as coisas desta vez e na altura não sabíamos se ia ser ele a misturar o trabalho. E perguntei-lhe se nos podia ajudar. E ele respondeu: ‘Foda-se, sim! Claro. És meu amigo e vou dar-vos montes de conselhos e dicas para gravarem o álbum sozinhos. Se quiserem que eu misture o álbum faço-o obviamente com todo o gosto, e até tenho montes de material novo e equipamento que quero experimentar com o vosso som.’ Por isso sabíamos que estaríamos bem com ele. Mas mesmo no início do processo não sabíamos bem o que fazer e ele demonstrou sempre uma vontade enorme de ajudar-nos. Temos muita sorte em tê-lo ao nosso lado.»

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 2 de Maio no Hard Club do Porto e o segundo a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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