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Aveiroshima2027: um festival de um só dia (entrevista c/ João Peça)

Diogo Ferreira

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31740019_10209930993906221_3763990938850951168_nLucifer’s Ensemble

No dia 19 de Maio, o Espaço GrETUA (Aveiro) recebe a 7ª edição de um evento mutante que insiste em destacar-se tanto pela diferença como pela dinâmica na programação – um festival de um só dia, ou de uma só noite, como quiserem.  É o Aveiroshima2027, o primeiro de 2018. Sem mais delongas, até porque o cerne está nas respostas e não nas perguntas ou nesta introdução, João Peça (um dos membros da organização) concedeu-nos uns momentos para nos/vos ajudar a perceber o que é, afinal, Aveiroshima e todo o seu universo.

«A principal preocupação é oferecer vários ambientes dentro de um único espaço.»

AVEIROSHIMA2027. O nome do festival é composto pelo nome de Aveiro e por uma terminação que nos remete imediatamente para Hiroshima, uma das cidades japonesas vítimas da bomba atómica em 1945. Isto requer uma séria explicação.
Séria ou não, existe uma só explicação. Aveiroshima foi o nome de baptismo atribuído à cidade de Aveiro pelo Filho Do Demo (aka Flávio Moura), um street-artist / ilustrador do Porto que cá residiu uns tempos. Passo a citar: “(…nesta Aveiroshima que tão bem me recebeu.)” É assim que termina a sua nota de agradecimento na sinopse de apresentação da exposição que apresentou no Café, Galeria & Livraria Má Ideia, actualmente mais conhecido por Má Ideia – Craft Beer & Coffee. O nome ficou-me sempre na cabeça e não foi difícil adoptá-lo quando surgiu a necessidade de atribuir um título ao evento. Foi uma questão de fazer um telefonema, perguntar se o poderíamos utilizar e a resposta foi como se esperava, positiva. No início de 2016, a CM de Aveiro anuncia publicamente que se vai candidatar a Capital Europeia da Cultura para o ano de 2027. A notícia era tão séria quanto ridícula. Por um lado, este novo executivo não demonstrava qualquer interesse genuíno em investir na cidade a nível cultural – a deterioração da esperança num futuro mais cultural foi mais do que evidente após a sua entrada, embora o problema já viesse de trás. Por outro lado a candidatura parecia ser o seu único motivo de interesse e contributo nesse sentido. Ora, não nos interessava a candidatura em 2016, queríamos resultados naquele momento. No fundo, o 2027 acaba por ser o lado profético do nome do evento.

31747902_10209931027987073_3694520761961152512_nHHY & The Macumbas

O manifesto deste evento dá pano para mangas. Parece que Aveiroshima em 2027 é um local engarrafado pelo vazio, mas lá no centro há um subúrbio doente e desnutrido que resiste. No entanto voltamos ao presente – a Aveiro de 2016-2018 – e há um exército de entusiastas que teima em não perder para as massas, para o turismo desmesurado, para o capitalismo sem quartel que está por todo o lado. Queres dar-nos a tua visão real e sem metáforas do que se está a passar?
Com esta é que me fodeste. Posso tentar. A principal diferença entre 2016 e 2018 está no número de promotores, no tipo de promotores e no número de locais interessados em acolher os eventos, existem em mais número em regra geral, tem uma especial tendência e à-vontade para a mútua colaboração e isso traz frutos, obviamente. Antes, a programação cultural era prevista em apenas dois ou três espaços, sendo que apenas um mantinha a regularidade em termos quantitativos e qualitativos. No entanto, acabava por ser uma oferta algo limitada, um local por si só não é suficiente para transformar uma cidade inteira, pelo menos nos dias de hoje, e com este tipo de colaboração criam-se laços que tornam possível com que espectadores que procuram apenas um certo tipo de eventos marquem presença em diversos tipos de eventos, quanto mais não seja pela proximidade à casa onde este decorre. Embora dentro desta teia, o AVEIROSHIMA2027 continua a ser um filho bastardo por opção, o que não invalida o facto de poder usufruir (nem deve) desta nova abordagem colaborativa entre espaços. Embora opte por uma programação mais desviante, completamente afastada de qualquer circuito nacional, continua a ser um nome de referência pela diferenciação positiva no que toca a escolhas de cartaz. Para além disso, conceptualmente é um mutante – ainda não houve, nem deverá haver, uma edição similar à anterior e a próxima vem responder bem a isto. Para que não haja dúvidas, são três as edições propostas para este ano no GrETUA e estão todas fechadas.

31886594_10209931034427234_735867213658980352_nJorge Barco

Há ainda um outro texto que se vira para a falta de civismo e para a cegueira religiosa. Há nisso algum ponto de partida para um conceito específico em relação a este Aveiroshima 2027?
Penso que terão sido apenas metáforas e figuras de estilo escolhidas pelo autor do texto de apresentação desta edição que, por sua vez, é também autor do manifesto inicial. Não existe um conceito específico neste evento, até porque sou a favor de voltar a explorar ideias que ficaram perdidas no tempo ou que ficaram por terra por muitas curtas tentativas que possam ter tido. O old-school tem tanto ou mais peso nos nossos critérios do que por exemplo o avant-garde ou o experimental. Não nos podemos esquecer da panóplia de bandas e projectos conjuntos ou a solo que marcaram os anos transactos, tanto nacional como internacionalmente. De resto não existem segredos, acho que a mais-valia a par das escolhas de cartaz é mesmo o próprio local que nos permite basicamente brincar com o espaço, concertos no palco, fora do palco, junto ao bar, na bancada, etc.. A principal preocupação é oferecer vários ambientes dentro de um único espaço, e o espaço do GrETUA agrupa todas essas possibilidades. Não há nada de inovador neste conceito, só nos resta que o público sinta algum interesse e simpatia pela dinâmica geral e que isso o faça voltar de edição para edição.

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Todavia, acabam por olhar para a palavra ritual como algo que pode ser positivo – algo que pode mesmo ser transcendental para toda a gente que visitar o evento. O que é que o Aveiroshima 2027 tem para oferecer a nível artístico e de comunidade?
Em Aveiro não existe um evento que seja pensado da forma como este é. Apesar de inicialmente termos apostado na dicotomia Concerto – Festa/DJs, o futuro dita que nos afastemos cada vez mais desse modelo e apostemos mais em vertentes ligadas à performance, à instalação, ao video e ao live-act sem colocar de lado o dancefloor, é importante que no meio de tanta informação e absorção haja espaço para a descompressão e o entretenimento – existem é várias formas de o fazer e o DJ não é a única opção com capacidade de produzir esse efeito. Para a próxima edição apostámos em espectáculos muito específicos e de rotulagem difícil, muito fortes a nível coreográfico e no mínimo intrigantes se vistos da abordagem musical e que, por obra do acaso ou não, partilham características subjacentes à temática que inicialmente nos levou a pensar este evento em particular. Para ser sincero, nunca esperei ver juntos na mesma noite e no mesmo local o colectivo Lucifer’s Ensemble e HHY & The Macumbas no espaço de três horas. Vai ser necessário algum fôlego da parte de todos e estaria a mentir se não dissesse que existe um certo receio e curiosidade em relação à reacção final do público. Aqui estamos certamente a falar de uma experiência –  e no fundo é tudo o queremos que as pessoas levem para casa: a sensação de que viram algo diferente do habitual mesmo numa altura em que praticamente já se viu de tudo. A estes dois nomes juntamos mais dois momentos improváveis, um concerto de noise com uma componente exploratória forte a partir de instrumentos construídos e desenvolvidos pelo próprio músico/artista, neste caso o colombiano Jorge Barco que penso que poderá ser visto em três momentos e com trabalhos distintos em Aveiro durante um certo período de tempo. Para finalizar a noite estreia em Aveiro, uma dupla que já se estreou em Águeda na festa de encerramento de um festival de Butô no ano passado: a dupla é composta pelo Hugo Branco (aka Fulano47) e pelo Israelita (Guvibosh) que deram corpo, alma e mãos a Antippode, um live-act carregado de hardware definitivamente dedicado à música electrónica que vai fechar o evento em grande classe. O programa aqui já vai bastante denso, posso apenas adiantar que, para descomprimir, na zona do bar vai estar um DJ da RUC responsável pelo programa Suburbano, dedicado ao hip-hop e às novas tendências dentro do género. Espera-se portanto, para além do hip-hop, a visita a subgéneros como o horror core, o hardcore hip-hop, o hip-hop experimental, entre outros.

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 “Engendrado pela Má Ideia, acolhido pelo GrETUA, coproduzido pela Zigur Artists, tecnicamente possível graças à Musa e apadrinhado pelo empenho e pela boa vontade dos artistas convidados (…).” Esta é uma das frases que apresenta o evento ao mundo. Lutar contra tudo e todos mas com a intenção de encontrar sinergias que nos levem a bom-porto é a cruz de todas as entidades independentes. Por mais desigual que possa ser ir contra multinacionais e enormes infra-estruturas, também é com ânimo que se realizam coisas como o Aveiroshima, certo?
Sim e não. Primeiro sim, dá um tesão enorme conjecturar uma noite assim, e desde já saliento os dois cartazes que mais tesão deram “engendrar”, como refere o texto. O actual cartaz proposto para o próximo dia 19 de Maio de 2018 e o cartaz da 4ª edição que aconteceu há mais ou menos um ano atrás. Curiosamente foi o que nos deu mais prejuízo, porque esteve muito menos gente presente. Até hoje acredito que a razão para tal deveu-se ao facto de os holofotes da passadeira de peões mais próxima do evento estarem apagados devido à falta de eficiência dos serviços municipalizados da cidade de Aveiro. As pessoas ficam mais facilmente marcadas por datas de acontecimentos traumáticos e talvez por essa razão, e pelo facto de ter uma puta de um cartaz como este mais ou menos na mesma altura passado um ano, eu tenha tendência de ter o pé atrás. Espero mesmo estar errado, e felizmente o Hugo Branco (VIC // Aveiro Arts House) contrabalança com eficácia esta tendência menos positiva no seio da organização – é tipo Yin-Yang, acho eu. Ir contra as multinacionais é sempre discutível, já não se vai contra as multinacionais, mas sim rogamos aos céus que a nossa voz seja ouvida neste meio; aqui quem faz a diferença são as pessoas caso decidam valorizar o nosso trabalho – os pequenos e médios promotores estão condenados ao insucesso já há muito tempo. Se por um lado não queres trabalhar com patrocínios só o retorno de uma boa bilheteira é que te safa as costas, se as bilheteiras são fracas não podes apostar em bons cartazes. Por outro, se optas por recorrer a patrocínios estás a entrar no jogo das multinacionais e a vestir uma camisola que não queres vestir. Este ano, por exemplo, renunciámos ao único patrocinador que tínhamos que dava uma folga mínima para trabalharmos, porque no ano passado achámos que não conseguimos devolver resultados satisfatórios ao patrocinador – custa-nos pedir dinheiro a alguém só para nos safar as costas sem devolver nada em troca quando é da responsabilidade do público assegurar que o evento tem continuidade. De que é que vale ter um patrocinador que te dá, por exemplo, 1000 euros hipoteticamente para montar um evento para 250 pessoas se aparecem 100? O evento fica pago, mas quem é que paga a desilusão pessoal e individual da organização que tanto fez para que isto acontecesse? Portanto, nem tudo são rosas. Não queremos enchentes histéricas e desmesuradas, apenas queremos atingir o conforto mínimo a vários níveis e que as pessoas que venham ao evento fiquem com essa mesma sensação, a de que correu tudo bem para todos.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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RDB: corridos à pedrada (entrevista c/ Micael Olímpio)

João Correia

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«Não julgues que te vais embora a falar mal da Covilhã», diz Micael Olímpio, baixista dos Raw Decimating Brutality (RDB), enquanto mete dois copos na mesa e abre uma garrafa de Grant’s Signature. O Micael convidou a Ultraje Magazine para dois dedos de conversa em sua casa para falarmos um pouco sobre “Era Matarruana”, o último trabalho do colectivo das antigas e profanas montanhas da Beira Interior. Ainda a entrevista não ia a meio e Micael já abria uma segunda garrafa, desta vez uma Logan de 12 anos. Tentámos recusar firmemente e educadamente a oferta, mas ele tanto insistiu que seria má educação passar. Copos puxam conversa e, entre outras coisas, falámos de Coimbra, do DJ A Boy Named Sue, de The Legendary Tigerman, do Barracuda Clube… Enfim, com uma conversa com o Micael percebemos que o país é bem mais pequeno do que se julga.

Primeiro whisky. “Era Matarruana”, sucessor de “Obra Ó Diabo!” em que os RDB passaram a pente fino a nobre arte da construção civil, é um disco que se encontra a universos de distância do seu predecessor no que toca a produção e instrumentalismo, mas é no conceito lírico que ele mais se distingue ao explorar a Proto-História portuguesa: os celtas, o paganismo, a importância da pedra no desenvolvimento da civilização, as montanhas por associação. Embora o género musical se mantivesse (grindcore), a primeira questão teria de incidir forçosamente no porquê de uma mudança lírica e conceitual tão radical e a prestar vassalagem ao misticismo dos pedregulhos. «Desde o princípio que os RDB abordam temáticas diferentes: o “Sperm To Grind Your Ears” está relacionado com esperma, o split está relacionado com estrume [risos]… Todos os temas têm uma relação pessoal connosco, ou com pelo menos um dos membros da banda, e quando debatemos essas ideias elas passam a ser transversais. No caso do “Obra Ó Diabo!”, centrámo-nos nas nossas experiências de putos nos anos 80, quando houve o boom da construção civil – íamos brincar para prédios em construção, fazer merda, e focámo-nos nesses tempos. Em relação ao “Era Matarruana”, o Daniel Gamelas [vocalista] tem uma grande proximidade com tudo o que tenha a ver com misticismo e deuses dentro da arte. Foi uma temática que ele quis explorar. No fundo, ele acabou por fazer investigação sobre esses tempos proto-históricos, achámos piada e acabámos por seguir esse conceito. O Daniel é que fez a maior parte da investigação, embora os nomes das músicas tivessem surgido nos ensaios – sempre foi assim com os RDB, desde a construção musical aos nomes dos temas, sempre em conluio uns com os outros.»

Segundo whisky. A pesquisa de que Micael fala é por demais profunda – por exemplo, “Reve Marandicui” é o nome de uma das principais deidades galaico-lusitanas do tempo dos celtas. Assim como esta faixa, os RDB falam amiúde sobre pedregulhos em temas como “Calhau no Quintal”, “Falos em Pedra” e “As Forças Ocultas dos Cromeleques”. Tudo isto indica um fétiche por pedras mas, embora o Daniel tivesse sido o criador do conceito, não ficou muito clara a forma como o vocalista surgiu com ele. «O Gamelas “trabalha a pedra”. [risos] Bom, não trabalha pedra, mas trabalha outros materiais. Eu não sou a pessoa mais indicada para falar de arte, mas ele é artista plástico. Parece-me que a escultura em pedra é uma das muitas facetas da escultura, pois os materiais com que geralmente trabalha não têm nada a ver com pedras. Pesquisámos sobre cromeleques e menires, que são coisas distintas, e escolhemos abordar esse temas porque ainda hoje não há uma conclusão generalizada sobre o propósito dessas esculturas, não sabemos para que serviam. Ritos funerários, fecundidade… Existem várias hipóteses, mas nenhuma é conclusiva. Derivado ao contacto que o Gamelas teve com a História da Arte, ele desenvolveu essa parte da História e, por outro lado, foi-nos explicando os períodos temporais. Ele situa o trabalho na Idade do Ferro. A cena dos cromeleques estava associada ao conceito e estivemos para ir gravar a Viseu, mas acabámos por gravar no Cromeleque dos Almendres. Sempre tivemos uma relação com tudo o que fosse de granito.»

Terceiro (talvez quarto) whisky. “Era Matarruana” apresenta nomes de faixas como “Chama Sacrifical”, “Devaneio do Homem Cabra” ou “Invocação da Serpente Colossal”. Se num álbum de black metal isto seria o prato do dia, num de grindcore é coisa mesmo muito rara, se não mesmo única. A própria capa do disco parece pertencer ao universo do black metal primitivo – um daqueles discos que, antes de o metermos a tocar, já sabemos o que vai sair dele. Imaginemos agora um fã de black metal incauto que comprasse o disco pela capa – o resultado seria o previsto, certamente. Quase que parece que os RDB decidiram gozar com a cena do black metal. «Nada, nada, nada. Muito pelo contrário, até porque o Daniel e o João [Rocha, baterista] ouvem black metal frequentemente; eu, nem por isso. Houve até acontecimentos dentro desse movimento que acabaram por ridicularizar o estilo, mas o nosso objectivo não teve nada a ver com isso. Na verdade, até é quase uma homenagem, pois sempre gostámos de música obscura, rápida e pesada. O humor dos RDB continua lá, mas existe uma seriedade à mistura que provém do nosso interesse pelo oculto.»

Pegando no ponto do humor, seria impossível não referir as letras – autênticas odes ao disparate repletas de aliterações, anáforas e onomatopeias. É basicamente impossível de entender as letras de “Era Matarruana” e, assim, ficámos sem saber de que tratam e a que se referem, se é que a alguma coisa. Embora mais sério que discos anteriores, “Era Matarruana” não é propriamente um exercício de conservadorismo. No entanto, ficámos surpreendidos pelo facto de os RDB terem ido até ao princípio da Humanidade e da tradição oral. «Falamos, por exemplo, de divindades; e acabámos por criar algumas. [risos] Em “Devaneio do Homem Cabra” estamos a falar de… de… de um Satanás que tem um devaneio [risos] e o devaneio dele é gritar, aterrorizar  as populações… E a música exprime isso – tem aqueles berros mais… Pá, só ouvindo é que irão perceber. A “Martelos de Larouco” tem a ver com uma divindade. Embora não existam muitos registos dela, trata-se de uma deidade minúscula que tinha um mangalho enorme. A “Sob a Égide do Deus Cornudo” fala por si própria – penso que toda a gente se aperceba do que estamos a falar. E depois há temas como “A Fonte de Onde Brotam as Bestas”, uma invenção nossa que fala simplesmente de uma fonte que, de onde deveria brotar água, brotam bestas. [risos] A “Ressurgimento do Indígena Serrano” está associada às gentes da serra – é quando o serrano se revolta contra os povos invasores. Pensa em Viriato, por exemplo. Em suma, interpretamos algumas lendas à nossa maneira e inventamos outras.»  

Passámos para o esforço da produção, também ele com uma qualidade cinco estrelas. “Era Matarruana” atinge um som moderno mas grave, podre mas bom. Este passo em frente significativo foi confiado a ninguém menos do que Miguel Tereso, que já dispensa apresentações nestas lides. É natural que, ao fim de tantos anos na cena, as pessoas cresçam, amadureçam e procurem um profissionalismo superior a todos os trabalhos anteriores. «Queríamos que as pessoas sentissem a rapidez, mas também o peso da cena com uma boa produção. Actualmente, o Miguel é a pessoa que está a fazer o melhor trabalho de produção em Portugal. Queríamos um som… [pausa] podre, mas o que mais queríamos era que fosse grave. Queríamos um som mais old-school por um lado, focado principalmente nas guitarras. Inicialmente, as faixas não eram tocadas assim, mas, se as tocássemos mais rápido, não se iria perceber. A solução foi dar também destaque ao baixo, que é um factor determinante no “Era Matarruana”. Ao fim e ao cabo, está uma produção muito mais limpa do que aquela a que os RDB estão habituados, mas é natural, pois também evoluímos. Por isso mesmo é que procurámos um gajo como o Miguel. Ficámos muito contentes com a produção final, sem dúvida. Depois, o Miguel é uma pessoa com quem é bastante fácil de trabalhar. Ele tem uma sensibilidade musical brutal, percebe de teoria da musicalidade e, se acha que não está bem, sugere que façamos de outra maneira. Assim, passou a ser mais um elemento da banda neste disco. Como já somos amigos há algum tempo, isso também facilitou a coisa em termos de relacionamento.»

Por esta altura parámos de beber e passámos a falar da responsabilidade de cada membro no que toca à continuidade da banda. Por exemplo, o Gamelas não vive na Covilhã. Ainda que os RDB sejam um passatempo, há que fazer a cena funcionar para que lancem um disco de tempos a tempos, pois é nítido que os elementos gostam da cena e que se divertem em palco. No entanto, com cada membro em seu lado, imaginamos que por vezes seja difícil conciliarem a vida pessoal/profissional com as obrigações da banda. «Na altura da composição marcamos ensaios mais intensivos, tipo um fim-de-semana, a cada 15 dias ou mês a mês, dependendo das nossas vidas particulares, e o mesmo acontece com as gravações. No caso dos concertos, normalmente fazemos um ensaio geral e cada um faz o seu trabalho de casa, tudo à distância. Tem de ser assim. Mesmo a nível de composição, por vezes trocamos música e juntamos tudo. Cada um tem a sua vida profissional. Por exemplo, o João está sempre a viajar, principalmente hoje em dia. Eu e o Daniel conseguimos flexibilizar as coisas, mas no caso dele é mais difícil. Isto cria-nos obstáculos – uma coisa é praticares as coisas em casa, outra completamente diferente é estarmos todos juntos a ensaiar. Há alturas em concertos que não vamos tão ensaiados como gostaríamos. Isto só se consegue com vontade e disponibilidade. Até aqui temos conseguido, de forma mais ou menos limitada. Os RDB nunca se intrometeram na nossa vida pessoal, isto é o nosso escape, porque nem sequer podemos pensar na banda como uma profissão. É um grupo de amigos que se junta quando pode para descarregar.»

Voltámos ao whisky e à última questão da entrevista. Depois da já lendária apresentação de “Era Matarruana” no XXI SWR Barroselas Metalfest, onde não faltou um menir de cartão com dois metros de altura em palco, faltava-nos saber qual o futuro próximo dos RDB em relação à promoção de “Era Matarruana”. «Tocámos em Junho no Noise Murder Ensemble Fest. Em Outubro há um acertado no Sublime Torture Fest, em Castelo Branco. Há possibilidade de irmos tocar ao Porto em meados de Setembro e, ainda nesse mês, tocaremos em Palencia, Espanha, num concerto de suporte aos Abbadon Incarnate. Para o Verão já está quase tudo acordado e combinado e as cenas mais pequenas param por causa dos grandes fests; logo, não temos nada programado para essa estação.»

Review AQUI.

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Entrevistas

Entrevista a Gustavo Vidal (Lança-Chamas)

Rui Vieira

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A Ultraje não tem memória curta. Para sermos melhores no futuro, nunca devemos esquecer o passado, as fundações de um determinado movimento. No caso concreto, falamos do underground metálico português, que teve em homens do leme, como o radialista António Sérgio, o seu auge. O nosso entrevistado trabalhou com o Mestre e, para além do Lança-Chamas, dinamizou a cena de forma independente com inúmeros projectos, musicais ou escritos. Uma coisa é certa: todos foram relevantes para o crescimento da cena metálica portuguesa. A Ultraje tem memória, por isso trazemos esta magnífica entrevista até vós. É o Gustavo Vidal.     

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Antes de mais, como está esse bichinho da rádio? A saudade do éter bate forte ou é apenas um (bom) passado?
Obrigado pelo convite para a entrevista, que me fez reviver alguns dos melhores momentos de um período da minha vida que hoje me parece ter sido há dois séculos. Sinceramente nunca deixei de ter o bichinho da rádio. Nos tempos em que estive rádio-activo fiz inúmeros programas. Para além do Lança-Chamas na Rádio Comercial e na Rádio Energia (NRJ), fiz o Metal Radical também na Rádio Energia (NRJ), a Boca do Inferno da Rádio Marginal (em substituição do Zica), o Siderurgia na Rádio Universidade Tejo (R.U.T) com o Paulo Fernandes e o Nuno Saldanha, o 107 Decibéis na Rádio Cidade, e colaborei com o Luís Filipe Barros no Rock Em Stock, e provavelmente mais algumas coisas que agora não me lembro. Adorei esses tempos. Sentia-me como peixe na água e fazia as coisas com um entusiasmo e dedicação totais. Apesar de na altura não haver tantos recursos como agora, quer de informação quer tecnológicos, sempre fui tendo acesso ao que de mais moderno havia, e fui construindo uma sólida base de contactos que me faziam a informação chegar com muita regularidade e em primeira mão. Esse conjunto de factores proporcionaram fazer um trabalho bastante competente e inovador para a época. Fiz o melhor que consegui e sinto-me bastante realizado com o que alcancei. Continuo a ter o bichinho da rádio e muita vontade de fazer coisas, mas já não estou tão envolvido como na altura. Já não conheço metade das bandas e deixei de acompanhar as novidades. Curiosamente, retomei recentemente algum contacto, graças ao meu filho Hugo (que tem agora 21 anos) e que me vai mostrando algumas coisas boas que vão surgindo. Mantenho contacto com alguns bons amigos que volta e meia lá me desafiam para ir a uns concertos.

Gustavo Vidal com Vanessa Warwick (MTV Headbangers Ball)

E sobre a escrita e dinamização da cena metálica? Ainda te dá aquela vontade de começar a escrever alguma coisa nova (tipo blog ou site) ou achas que o (teu) tempo já foi e as novas gerações que o façam? Agora é mais família, presumo…
Sinceramente não. Sinto que já não tenho muito a dizer em relação à cena metálica. Como disse, estou um bocado desactualizado em relação ao que foi feito nos últimos anos e não me sinto com competências para o fazer. Pontualmente sou desafiado a dar uns testemunhos sobre os anos em que estive activo (como é este o caso) e faço-o com todo o gosto, mas mais do que isto já é entrar em caminhos onde não me sinto confortável e sem competências para o fazer. Mantenho muito mais aceso o bichinho da rádio que o da escrita. Depois de me ter afastado dessas lides, recusei inclusivamente alguns convites para escrever para algumas publicações, precisamente por não me sentir com competência para fazer um trabalho decente. Também deixei de ter disponibilidade para me dedicar à música. Para além da família e dos amigos, descobri o gosto pela caminhada e pelos desportos-aventura, e é a isso que me tenho dedicado mais nos últimos anos. Mas guardo, contudo, óptimas recordações dos tempos em que escrevi para a Rock Power, Supersom e mesmo para o Renascimento do Metal. Guardo sobretudo óptimas recordações das pessoas e das bandas que conheci pelo caminho e com quem tive oportunidade de privar e de viver a vida nos bastidores.

Gustavo Vidal com Phil Anselmo (Pantera)

Para quem só agora tem conhecimento da tua pessoa, nomeadamente os mais jovens (até aos 30), podes elaborar uma breve descrição – com os momentos-chave – do teu percurso na rádio  e sobre os teus outros órgãos metálicos oficiais (como o fanclub Heavy Metal Zombies Paranoid e a fanzine Renascimento do Metal) que tanto marcaram uma época de 85-92?
O meu gosto pelo heavy metal surgiu no final dos anos 70, incutido pelo meu irmão, pelos meus primos e por um grupo de grandes amigos de infância e adolescência. Em 1984, eu (na altura com 14 anos) e o meu irmão (com 16), criámos o fã-clube Heavy Metal Zombies Paranoid. Basicamente a ideia era um endereço postal (que era a casa dos meus pais) para trocar correspondência com pessoal de outras zonas do país com os mesmos gostos. Aos poucos a coisa foi tomando alguma notoriedade e a malta de Lisboa começou a bater à porta, pensando que se tratava de uma associação com uma sede social, para se reunir. Determinado dia surgiu a ideia de fazer uma fanzine e juntou-se o pessoal todo para traduzir uns artigos de umas revistas, recortar umas fotos, colar numas folhas A4 dactilografadas e fotocopiar em A3, em formato jornal para se distribuir por correio. Desde o primeiro dia achámos que deveríamos ir mais longe, e para além de traduzir/piratear os artigos, teríamos que ter produção própria, criar os nossos próprios artigos e entrevistar as bandas, sobretudo as portuguesas que não tinham nenhuma outra forma de se dar a conhecer. Assim, em 1985, lá conseguimos arranjar, através dos amigos de uns amigos, o contacto dos Sepulcro e lá fui eu com o meu leitor de cassetes entrevistar a banda para a primeira edição. Para além de muita produção própria, tivemos o mérito de em todas as edições conseguirmos incluir uma entrevista com uma banda portuguesa. Isto à época era algo de inovador e nunca antes feito. Em todas as edições havia uma enorme curiosidade de saber quem era a banda portuguesa entrevistada. Muitas se deram a conhecer aí mesmo. Outras coisas que elevaram a fanzine ao nível de publicação de culto eram as fantásticas e criativas capas do Miguel Alvarez, influenciadas pelas ilustrações do Derek Riggs que fazia as capas dos discos dos Iron Maiden. Quando surgiu a Mark II do Lança-Chamas (em 1985), o António Sérgio lançou o apelo no programa a todos os fã-clubes para que enviassem material para divulgação e para intercâmbio de informações e de música que na altura era muito inacessível. Enviámos a fanzine com o contacto telefónico (que era o número de telefone da casa dos meus pais) e a Ana Cristina Ferrão (esposa do Sérgio) contactou-nos a dizer que gostou muito da fanzine e que queria falar connosco, e combinámos um encontro na Rádio Comercial na hora do Lança-Chamas. Aparecemos lá muito envergonhados e fomos extremamente bem-recebidos pelo Sérgio e pela Ana. Houve logo ali uma faísca qualquer que marcou o início de uma enorme amizade que durou para sempre. Tornámo-nos assíduos do Lança-Chamas. Levávamos muitos discos, que comprávamos em viagens ao estrangeiro ou que os nossos amigos iam arranjando e que de outra forma nunca tocariam no programa. Começámos a escrever algumas notícias e programas especiais sobre determinadas bandas, até que certo dia o Sérgio desafiou-nos para dar voz a algumas das coisas que íamos escrevendo para o programa. Comecei a fazer uma rubrica com notícias sobre as bandas portuguesas, que sempre foi a minha aposta e o factor diferenciador de tudo o que se tinha feito até então. Não era muito fácil arranjar todas as semanas três ou quatro notícias sobre uma cena que praticamente não existia, com um número muito reduzido de bandas e a maior parte delas com uma actividade praticamente nula, mas creio que foi essa necessidade de criar notícias que estimulou muitas bandas a gravarem demo-tapes e a improvisarem espectáculos ao vivo, uma vez que estava criado um aliciante e privilegiado canal de divulgação. Foi ali que demos a conhecer ao mundo inúmeras bandas portuguesas de renome que ainda hoje existem, como é o caso dos Moonspell, Alkateya, Ibéria ou Heavenwood.

Gustavo Vidal com Paulo ‘Scorp’ Fernandes

Podes descrever uma emissão típica do Lança-Chamas? Como era o processo no estúdio, nomeadamente com as ferramentas antigas?
Era uma coisa verdadeiramente épica. Muito mais do que se ouvia no ar. Aquilo era tão fervilhante que a determinada altura o António Sérgio nos disse: “Nós temos que passar a fazer a emissão com o microfone sempre ligado!” Havia sempre muita conversa com o microfone desligado. Acho que vivíamos todos fases muito inebriantes das nossas vidas, com muita criatividade e muito sentido de humor. Em cada emissão surgiam sempre muitas ideias novas que precisaríamos de viver várias vidas para as colocar todas em prática. O António Sérgio e a Ana Cristina eram dois génios criativos, com uma vivência extraordinária, extremamente cultos e interessados, não só musicalmente mas culturalmente também. Devoravam livros, liam revistas, contactavam muito com músicos estrangeiros, sobretudo ligados à música alternativa, fruto do Som da Frente que faziam também na Rádio Comercial. Eles eram um poço de cultura e transmitiam-nos isso com muita paixão e muito carinho. Partilhavam muitas histórias e muita informação. Cresci muito e evoluí muito com estas vivências. Havia muita necessidade de darmos o melhor de nós próprios para conseguir estar a um nível que não destoasse muito do nível deles. Foi uma escola de vida ímpar que me trouxe coisas absolutamente fantásticas. Muito gratificante. Foram fundamentais na minha formação. O António Sérgio era muito perfeccionista (herança dos seus pais que também vinham da escola da rádio). Todos os indicativos eram feitos em directo a cada emissão. Agulha do gira-discos no vinil e a voz a sobrepor-se, emissão após emissão, tudo em directo sem pré-gravações, sempre com o mesmo rigor, perfeccionismo e a mesma solenidade como se fosse a primeira vez ou uma gravação para um anúncio. A voz do Sérgio era muito grave e muito solene e havia muita autodisciplina de todos. Poderia estar a maior galhofa do mundo e a maior algazarra no estúdio, mas assim que a música acabava e o Sérgio abria o microfone, fazia-se um silêncio sepulcral imediato e natural. Apesar de estarmos sempre a vaguear por todos os assuntos com o microfone fechado, tínhamos bastante poder de concentração e sobretudo de improvisação. Foi uma escola absolutamente notável. Tanto eu como o Paulo Fernandes, e como o António Freitas, fomos uns enormes privilegiados por termos podido viver esta experiência e esta aprendizagem que pudemos transportar para as nossas vidas, não só profissionalmente mas sobretudo pessoalmente. Saímos todos muito mais enriquecidos e valorizados, bem preparados para outros desafios que se depararam nas nossas vidas. Foi um bilhete premiado da lotaria termos podido ser os aprendizes do Mestre.

Gustavo Vidal com António Sérgio (de barba)

Falar em Lança-Chamas é falar em António Sérgio, obviamente. Como o descreverias, pessoal e profissionalmente? Como foi trabalhar com ele?
O António Sérgio era uma pessoa extraordinária, muito culta e muito interessante, um poço de sabedoria em termos musicais e tudo o que tocava transformava-se em ouro. Ele tinha uma capacidade extraordinária de ouvir a coisa mais inovadora e diferente do mundo pela primeira vez e ao fim de 30 segundos pressentir que aquilo se iria transformar no maior sucesso à escala planetária. Aconteceu quando pusemos a tocar pela primeira vez os Guns n’ Roses ou os Nirvana. Ainda nós estávamos a ver a coisa a preto e branco e ele já estava a ver a cores com uma nitidez impressionante. Creio que isso não é uma coisa que se trabalhe ou que se aperfeiçoe, é um dom natural que ele tinha e que nunca voltei a ver em mais ninguém. Para além disso ele não tinha preconceitos nem castrações estéticas. Se aquilo era bom, ele tocava no Lança-Chamas, não interessa se era o Bon Jovi, os Cult ou Napalm Death. Ele tinha uma mente muito criativa e tinha uma necessidade contínua de inovar e de se desafiar. Lembro-me que chegámos a fazer um teatro radiofónico com uma história que envolvia umas bandas espaciais e eu fazia a voz de um robot que a determinada altura encravou e nos escangalhámos todos a rir em directo. Foi um desastre total. Não conseguimos continuar. Cada vez que ele abria o microfone para tentarmos recomeçar, havia uma catarse de riso geral e não conseguimos continuar. Mas isso fazia parte do programa e não nos impedia de experimentar outras coisas diferentes. O facto de ser um programa de autor e não estar sujeito a um formato específico pré-definido também nos deu muita liberdade para colocar em prática todas as ideias que queríamos. Volto a sublinhar, foi um privilégio gigante ter podido fazer parte disto!

Gustavo Vidal com Steve Harris (Iron Maiden)

Existe um pouco a ideia que o António Sérgio era o metálico de serviço mas, realmente, a verdadeira mola impulsionadora do Lança-Chamas não serias tu? “Estou certo ou estou errado”?
Não, isso é uma ideia totalmente errada. O Lança-Chamas era o somatório de todas as partes. Cada um de nós trazia as suas influências e as suas bandas descobertas para o programa. O António Sérgio tinha a mente muito aberta e era muito ecléctico. Acho que não haveria nenhum outro programa no mundo a conseguir conciliar os Canibal Corpse com os 38 Special, os Judas Priest, o Danzig, os Motörhead e a Diamanda Galás. Acho que esse atrevimento era a marca do António Sérgio e da Ana Cristina. A minha bandeira era mais a música nacional e acho que consegui transportar essa mentalidade para o Lança-Chamas, divulgando com o mesmo entusiasmo as propostas dos Grog, Sacred Sin, Ramp, do Francis, da Adelaide Ferreira ou dos Samurai. Sempre mantivemos a porta aberta a toda gente. Fomos tudo menos elitistas.

Gustavo Vidal com Tom Araya (Slayer)

Como foi o término do Lança-Chamas na Rádio Comercial e a sua transição para a Rádio Energia
Acho que nós tínhamos a perfeita consciência que o Lança-Chamas estaria a prazo na Rádio Comercial. Sempre que mudava a direcção da rádio (algo que acontecia com muita frequência), questionávamo-nos se o programa continuaria ou se seria cancelado. Acho que se o programa esteve tantos anos no ar, nem foi pelos elevados níveis de audiência, mas sim pelo enorme respeito que havia pelo António Sérgio. É claro que as ameaças de bomba que a rádio recebeu quando o programa foi cancelado pela primeira vez também devem ter ajudado. Acho que foi com naturalidade que aceitámos a extinção do Lança-Chamas na Rádio Comercial. Depois disso, o Sérgio Noronha convidou-me para fazer o Metal Radical diariamente na Rádio Energia e algum tempo depois o António Sérgio foi para a XFM, que era uma rádio-irmã da Rádio Energia e que funcionava no mesmo piso, paredes-meias. Ressuscitar o Lança-Chamas na Rádio Energia, acho que foi quase tão natural como existir. Os autores estavam ali no mesmo espaço físico, era só arranjar-lhes tempo de antena e deixar a magia acontecer.

Gustavo Vidal com Robb Flynn (Machine Head)

Sentes que, de alguma forma, os programas de rádio que integraste, mas também o fanclub Heavy Metal Zombies Paranoid e a fanzine Renascimento do Metal, ajudaram a moldar, cimentar e a construir uma cena metálica nacional mais forte e que (ainda) se reflecte nos dias de hoje?
Sinceramente não sei quais as influências remanescentes que subsistem nos dias de hoje porque não acompanho muito do que se passa hoje em dia, mas acho que na altura ateámos o rastilho de uma cena que não existia ou existia de forma muito pulverizada e sem qualquer repercussão. Demos visibilidade a uma série de bandas, de salas de espectáculos, de imprensa, divulgámos outros programas de rádio e criámos condições para que os seus projectos pudessem prosperar e chegar a um grande número de pessoas. Gostaria de ter feito mais e de ter feito melhor, mas acho que não desperdiçámos a oportunidade que nos foi dada e fizemos um trabalho com muito empenhamento e com muito carinho. Espero que tenha ajudado a melhorar a vida das pessoas envolvidas.

Fanzine Renascimento do Metal

Como vês a rádio de autor, hoje em dia? Ainda há espaço? Segues algum em particular?
Acho que haverá sempre espaço para programas de autor. Acho que se desperdiça demasiado tempo de antena com as mesmas músicas, que passam repetidamente até à exaustão em todas as estações. Acho que a rádio acaba por ser redundante. O único programa de autor que acompanho sempre que posso é o Hotel Califórnia, na Rádio Renascença, com o Paulino Coelho e o Júlio Isidro. Uma verdadeira delícia. Embora não me identifique muito com a música, as histórias que contam são absolutamente deliciosas. Sinto falta de uma rádio mais falada em que não sejam apenas uns tipos a mandarem umas bojardas sem jeito nenhum e a rirem-se a bandeiras despregadas, embora ache que também deva haver espaço para isso. O último programa que ouvi com alguma militância foi o do Zé Pedro (dos Xutos) na Antena 3, mas creio que já lá vão umas décadas.

Gustavo Vidal 2018

Uma pergunta final e inevitável: qual a mensagem que deixarias para rádios, bandas e restantes intervenientes na cena metálica portuguesa?
Não tenho nenhuma mensagem relevante para deixar. Vivemos tempos estranhos em que aparece no YouTube um vídeo viral de uma loura oxigenada com uma voz desafinada e obtém um sucesso planetário num fósforo, e há bandas com anos e anos de trabalho, com um talento que chega daqui até à lua e com uma qualidade que não cabe neste planeta, a lutar pela sobrevivência. As coisas são assim mesmo, são efémeras e desaparecem à mesma velocidade com que aparecem. A única coisa que posso recomendar é muito trabalho e muito espírito de resiliência. Manterem-se fiéis às suas convicções e tentar retirar algum prazer daquilo que fazem, independentemente, ou não, do sucesso que possam vir a alcançar.

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