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Aveiroshima2027: um festival de um só dia (entrevista c/ João Peça)

Diogo Ferreira

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31740019_10209930993906221_3763990938850951168_nLucifer’s Ensemble

No dia 19 de Maio, o Espaço GrETUA (Aveiro) recebe a 7ª edição de um evento mutante que insiste em destacar-se tanto pela diferença como pela dinâmica na programação – um festival de um só dia, ou de uma só noite, como quiserem.  É o Aveiroshima2027, o primeiro de 2018. Sem mais delongas, até porque o cerne está nas respostas e não nas perguntas ou nesta introdução, João Peça (um dos membros da organização) concedeu-nos uns momentos para nos/vos ajudar a perceber o que é, afinal, Aveiroshima e todo o seu universo.

«A principal preocupação é oferecer vários ambientes dentro de um único espaço.»

AVEIROSHIMA2027. O nome do festival é composto pelo nome de Aveiro e por uma terminação que nos remete imediatamente para Hiroshima, uma das cidades japonesas vítimas da bomba atómica em 1945. Isto requer uma séria explicação.
Séria ou não, existe uma só explicação. Aveiroshima foi o nome de baptismo atribuído à cidade de Aveiro pelo Filho Do Demo (aka Flávio Moura), um street-artist / ilustrador do Porto que cá residiu uns tempos. Passo a citar: “(…nesta Aveiroshima que tão bem me recebeu.)” É assim que termina a sua nota de agradecimento na sinopse de apresentação da exposição que apresentou no Café, Galeria & Livraria Má Ideia, actualmente mais conhecido por Má Ideia – Craft Beer & Coffee. O nome ficou-me sempre na cabeça e não foi difícil adoptá-lo quando surgiu a necessidade de atribuir um título ao evento. Foi uma questão de fazer um telefonema, perguntar se o poderíamos utilizar e a resposta foi como se esperava, positiva. No início de 2016, a CM de Aveiro anuncia publicamente que se vai candidatar a Capital Europeia da Cultura para o ano de 2027. A notícia era tão séria quanto ridícula. Por um lado, este novo executivo não demonstrava qualquer interesse genuíno em investir na cidade a nível cultural – a deterioração da esperança num futuro mais cultural foi mais do que evidente após a sua entrada, embora o problema já viesse de trás. Por outro lado a candidatura parecia ser o seu único motivo de interesse e contributo nesse sentido. Ora, não nos interessava a candidatura em 2016, queríamos resultados naquele momento. No fundo, o 2027 acaba por ser o lado profético do nome do evento.

31747902_10209931027987073_3694520761961152512_nHHY & The Macumbas

O manifesto deste evento dá pano para mangas. Parece que Aveiroshima em 2027 é um local engarrafado pelo vazio, mas lá no centro há um subúrbio doente e desnutrido que resiste. No entanto voltamos ao presente – a Aveiro de 2016-2018 – e há um exército de entusiastas que teima em não perder para as massas, para o turismo desmesurado, para o capitalismo sem quartel que está por todo o lado. Queres dar-nos a tua visão real e sem metáforas do que se está a passar?
Com esta é que me fodeste. Posso tentar. A principal diferença entre 2016 e 2018 está no número de promotores, no tipo de promotores e no número de locais interessados em acolher os eventos, existem em mais número em regra geral, tem uma especial tendência e à-vontade para a mútua colaboração e isso traz frutos, obviamente. Antes, a programação cultural era prevista em apenas dois ou três espaços, sendo que apenas um mantinha a regularidade em termos quantitativos e qualitativos. No entanto, acabava por ser uma oferta algo limitada, um local por si só não é suficiente para transformar uma cidade inteira, pelo menos nos dias de hoje, e com este tipo de colaboração criam-se laços que tornam possível com que espectadores que procuram apenas um certo tipo de eventos marquem presença em diversos tipos de eventos, quanto mais não seja pela proximidade à casa onde este decorre. Embora dentro desta teia, o AVEIROSHIMA2027 continua a ser um filho bastardo por opção, o que não invalida o facto de poder usufruir (nem deve) desta nova abordagem colaborativa entre espaços. Embora opte por uma programação mais desviante, completamente afastada de qualquer circuito nacional, continua a ser um nome de referência pela diferenciação positiva no que toca a escolhas de cartaz. Para além disso, conceptualmente é um mutante – ainda não houve, nem deverá haver, uma edição similar à anterior e a próxima vem responder bem a isto. Para que não haja dúvidas, são três as edições propostas para este ano no GrETUA e estão todas fechadas.

31886594_10209931034427234_735867213658980352_nJorge Barco

Há ainda um outro texto que se vira para a falta de civismo e para a cegueira religiosa. Há nisso algum ponto de partida para um conceito específico em relação a este Aveiroshima 2027?
Penso que terão sido apenas metáforas e figuras de estilo escolhidas pelo autor do texto de apresentação desta edição que, por sua vez, é também autor do manifesto inicial. Não existe um conceito específico neste evento, até porque sou a favor de voltar a explorar ideias que ficaram perdidas no tempo ou que ficaram por terra por muitas curtas tentativas que possam ter tido. O old-school tem tanto ou mais peso nos nossos critérios do que por exemplo o avant-garde ou o experimental. Não nos podemos esquecer da panóplia de bandas e projectos conjuntos ou a solo que marcaram os anos transactos, tanto nacional como internacionalmente. De resto não existem segredos, acho que a mais-valia a par das escolhas de cartaz é mesmo o próprio local que nos permite basicamente brincar com o espaço, concertos no palco, fora do palco, junto ao bar, na bancada, etc.. A principal preocupação é oferecer vários ambientes dentro de um único espaço, e o espaço do GrETUA agrupa todas essas possibilidades. Não há nada de inovador neste conceito, só nos resta que o público sinta algum interesse e simpatia pela dinâmica geral e que isso o faça voltar de edição para edição.

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Todavia, acabam por olhar para a palavra ritual como algo que pode ser positivo – algo que pode mesmo ser transcendental para toda a gente que visitar o evento. O que é que o Aveiroshima 2027 tem para oferecer a nível artístico e de comunidade?
Em Aveiro não existe um evento que seja pensado da forma como este é. Apesar de inicialmente termos apostado na dicotomia Concerto – Festa/DJs, o futuro dita que nos afastemos cada vez mais desse modelo e apostemos mais em vertentes ligadas à performance, à instalação, ao video e ao live-act sem colocar de lado o dancefloor, é importante que no meio de tanta informação e absorção haja espaço para a descompressão e o entretenimento – existem é várias formas de o fazer e o DJ não é a única opção com capacidade de produzir esse efeito. Para a próxima edição apostámos em espectáculos muito específicos e de rotulagem difícil, muito fortes a nível coreográfico e no mínimo intrigantes se vistos da abordagem musical e que, por obra do acaso ou não, partilham características subjacentes à temática que inicialmente nos levou a pensar este evento em particular. Para ser sincero, nunca esperei ver juntos na mesma noite e no mesmo local o colectivo Lucifer’s Ensemble e HHY & The Macumbas no espaço de três horas. Vai ser necessário algum fôlego da parte de todos e estaria a mentir se não dissesse que existe um certo receio e curiosidade em relação à reacção final do público. Aqui estamos certamente a falar de uma experiência –  e no fundo é tudo o queremos que as pessoas levem para casa: a sensação de que viram algo diferente do habitual mesmo numa altura em que praticamente já se viu de tudo. A estes dois nomes juntamos mais dois momentos improváveis, um concerto de noise com uma componente exploratória forte a partir de instrumentos construídos e desenvolvidos pelo próprio músico/artista, neste caso o colombiano Jorge Barco que penso que poderá ser visto em três momentos e com trabalhos distintos em Aveiro durante um certo período de tempo. Para finalizar a noite estreia em Aveiro, uma dupla que já se estreou em Águeda na festa de encerramento de um festival de Butô no ano passado: a dupla é composta pelo Hugo Branco (aka Fulano47) e pelo Israelita (Guvibosh) que deram corpo, alma e mãos a Antippode, um live-act carregado de hardware definitivamente dedicado à música electrónica que vai fechar o evento em grande classe. O programa aqui já vai bastante denso, posso apenas adiantar que, para descomprimir, na zona do bar vai estar um DJ da RUC responsável pelo programa Suburbano, dedicado ao hip-hop e às novas tendências dentro do género. Espera-se portanto, para além do hip-hop, a visita a subgéneros como o horror core, o hardcore hip-hop, o hip-hop experimental, entre outros.

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 “Engendrado pela Má Ideia, acolhido pelo GrETUA, coproduzido pela Zigur Artists, tecnicamente possível graças à Musa e apadrinhado pelo empenho e pela boa vontade dos artistas convidados (…).” Esta é uma das frases que apresenta o evento ao mundo. Lutar contra tudo e todos mas com a intenção de encontrar sinergias que nos levem a bom-porto é a cruz de todas as entidades independentes. Por mais desigual que possa ser ir contra multinacionais e enormes infra-estruturas, também é com ânimo que se realizam coisas como o Aveiroshima, certo?
Sim e não. Primeiro sim, dá um tesão enorme conjecturar uma noite assim, e desde já saliento os dois cartazes que mais tesão deram “engendrar”, como refere o texto. O actual cartaz proposto para o próximo dia 19 de Maio de 2018 e o cartaz da 4ª edição que aconteceu há mais ou menos um ano atrás. Curiosamente foi o que nos deu mais prejuízo, porque esteve muito menos gente presente. Até hoje acredito que a razão para tal deveu-se ao facto de os holofotes da passadeira de peões mais próxima do evento estarem apagados devido à falta de eficiência dos serviços municipalizados da cidade de Aveiro. As pessoas ficam mais facilmente marcadas por datas de acontecimentos traumáticos e talvez por essa razão, e pelo facto de ter uma puta de um cartaz como este mais ou menos na mesma altura passado um ano, eu tenha tendência de ter o pé atrás. Espero mesmo estar errado, e felizmente o Hugo Branco (VIC // Aveiro Arts House) contrabalança com eficácia esta tendência menos positiva no seio da organização – é tipo Yin-Yang, acho eu. Ir contra as multinacionais é sempre discutível, já não se vai contra as multinacionais, mas sim rogamos aos céus que a nossa voz seja ouvida neste meio; aqui quem faz a diferença são as pessoas caso decidam valorizar o nosso trabalho – os pequenos e médios promotores estão condenados ao insucesso já há muito tempo. Se por um lado não queres trabalhar com patrocínios só o retorno de uma boa bilheteira é que te safa as costas, se as bilheteiras são fracas não podes apostar em bons cartazes. Por outro, se optas por recorrer a patrocínios estás a entrar no jogo das multinacionais e a vestir uma camisola que não queres vestir. Este ano, por exemplo, renunciámos ao único patrocinador que tínhamos que dava uma folga mínima para trabalharmos, porque no ano passado achámos que não conseguimos devolver resultados satisfatórios ao patrocinador – custa-nos pedir dinheiro a alguém só para nos safar as costas sem devolver nada em troca quando é da responsabilidade do público assegurar que o evento tem continuidade. De que é que vale ter um patrocinador que te dá, por exemplo, 1000 euros hipoteticamente para montar um evento para 250 pessoas se aparecem 100? O evento fica pago, mas quem é que paga a desilusão pessoal e individual da organização que tanto fez para que isto acontecesse? Portanto, nem tudo são rosas. Não queremos enchentes histéricas e desmesuradas, apenas queremos atingir o conforto mínimo a vários níveis e que as pessoas que venham ao evento fiquem com essa mesma sensação, a de que correu tudo bem para todos.

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 2 de Maio no Hard Club do Porto e o segundo a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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