Belphegor: Filhos do Diabo (entrevista c/ Helmuth) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Belphegor: Filhos do Diabo (entrevista c/ Helmuth)

rsz__dsc0634Foto: Sunvemetal

Há 25 anos a fazerem o black/death metal mais destrutivo que existe, os austríacos Belphegor chegam ao 11º álbum. Deram-lhe o nome de “Totenritual” e será lançado dentro de dias pela respeitada Nuclear Blast. Para completar as nossas interpelações, do outro lado estava Helmuth, o fundador, mentor, guitarrista e vocalista desta máquina explosiva que não conhece a suavidade da calma, nem a submissão das massas. Da agressividade em que se tornaram à música clássica e a Niccolo Paganini fomos ter ao icónico “Pestapokalypse VI” (2006), com a promessa de uma vinda a Portugal em 2018.

«Somos conhecidos pelo nosso conteúdo ofensivo e isso não vai mudar.»

Já notaste que os Belphegor se tornaram mais agressivos com o passar dos anos? Death e black metal têm de ser assim, mas, por exemplo, o vosso novo álbum está brutalmente violento.
Sim. Era esse o plano-mestre quando iniciámos este projecto que dá pelo nome de “Totenritual”. O nosso objectivo principal era criar a oferta mais pesada e brutal que consagrámos até agora. A bateria é totalmente explosiva e muito técnica, com carradas de quebras/preenchimentos e mudanças de tempo. O baixo é como um Panzer a retumbar pelo terreno. As quatro guitarras-ritmo são agressivas e com um tom demoníaco e obscuro, formando uma parede de som coesa, ainda que espessa. Também acho que temos a melhor e mais variada performance vocal até agora. Tenho rosnados, grunhidos, berros, spoken-word, cânticos e até coros de monges. Estou muito orgulhoso deste álbum e mal posso esperar por ser lançado! Tudo quebra os limites para além de qualquer coisa que tenhamos feito antes.

Contudo há alguma melodia na faixa “Spell Of Reflection”. Embora tudo no álbum seja breu e distorcido, continuamos a precisar de alguma luz, certo? As melodias dessa canção transformam-na em algo mais épico.
O Serpenth (baixo) compôs essa faixa. É provavelmente a faixa mais épica e algo melódica no novo monstro. E o título fala por si. Tecemos escuridão oculta nela, mas adicionámos nuances que dão um toque mais dinâmico. As nuances revelam-se depois de repetidas audições.

Acho que o BloodHammer melhorou o som de Belphegor com a sua bateria detalhada. O álbum é muito dinâmico devido ao trabalho dele. Concordas com esta observação?
Foi exactamente com o BloodHammer que conseguimos alcançar novas altitudes, conseguimos desenvolver tudo e erguemo-nos a todo um novo nível extremo. Podíamos adicionar qualquer novo detalhe que ele vem sempre com óptimas ideias no departamento da bateria.
O Serpenth é tatuador quando não está ocupado com Belphegor e é verdade que foi ele quem tatuou o logótipo original na barriga do baterista. Essa manifestação de dedicação tornou claro que queríamos apanhar o monstro-baterista alemão BloodHammer para ser membro permanente. É um metaleiro a 100%, o que é excelente. Tem um estilo muito dinâmico e técnico. Com ele na banda estamos aptos a levar todos os aspectos do nosso som ao próximo nível de extremismo. Tudo soa mais brutal, mais possesso, e atingimos a vibe ritualística que visionámos no início do projecto.

Muitas bandas extremas (sejam de black ou death metal) tentam ser ritualísticas e, por vezes, intelectuais com conceitos líricos esotéricos, mas os Belphegor mantêm isso palpável e niilista. Vocês falam de sexo, aniquilação, pragas e divindades de uma forma muito directa.
Somos conhecidos pelo nosso conteúdo ofensivo e isso não vai mudar. Há décadas que usamos muitos poemas originais de livros antigos. Isso consiste em feitiços, poemas e cânticos, sobretudo na língua original para não desfigurar o significado intencionado. É por isso que o nosso conteúdo lírico vem do inglês, latim e alemão. Latim, que é a língua da igreja, é [em Belphegor] total blasfémia para gozar com eles na sua própria língua. Os versos em alemão soam muitos ásperos na pronunciação e dá ao sentimento geral uma abordagem brutal e atmosférica. Fazemos isto desde 1994, muito antes de ser moda – é a língua perfeita para dar ordens. É tipo uma marca única de Belphegor.

«Somos inimigos da cruz sagrada, não pregamos, não rastejamos nem ajoelhamos perante nenhum deus!»

Pegando no assunto da pergunta anterior: dirias que Belphegor é principalmente sobre niilismo religioso e humano?
Oferecemos bem mais do que esses temas. Adoro todo o tipo de livros do oculto, coisas estranhas, necromancia, canibalismo, assassinos em série… E também de tópicos de horror em livros e filmes. Tudo o que for negro, anti e inconformista agarra a minha atenção. Na minha vida já tive várias hipóteses de aprender e saber que a vida real é mais estranha do que a ficção.
Magia sexual e autocriação continuam a ser temas no conteúdo lírico de Belphegor na nova oferta, e isso não mudará. Talvez agora seja mais subtil, não tão estrondoso e in-your-face. Não podes dividir sexo e maldade, isso não funciona. A “Diablo Virtus In Lumbar Est”, do álbum “Lucifer Incestus” (2003), resume isso tudo; é um antigo e arcaico poema em latim. Traduzido é algo como: o poder do demónio está nas suas ancas.
Sempre utilizei a filosofia sobre Satanás/Lúcifer no nosso conteúdo lírico como uma figura orgulhosa, exaltada e majestosa que resiste a todas as influências. Alguém que toma as suas próprias decisões, que faz o seu caminho como um rebelde, um escarnecedor das massas. Descrevo-me como um ateísta com tendências para o niilismo. Quero dizer, há muita obscuridade e possessão em Belphegor – há e sempre houve. Sabes, inspiro-me em tudo o que vejo e experiencio enquanto viajo pelo mundo. E há muitas coisas perigosas a acontecer neste planeta, o que é sempre uma boa inspiração para versos, para a arte em geral. Somos inimigos da cruz sagrada, não pregamos, não rastejamos nem ajoelhamos perante nenhum deus!

Sempre me pareceu que música clássica é uma grande influência para Belphegor – não tanto em “Totenritual”, mas mais em discos anteriores. Por exemplo, quando ouço o “Pestapokalypse VI” (2006) tendo a criar orquestras na minha mente a partir das malhas de guitarra. Por isso, quanta música clássica há na tua vida e como é que transportas isso para a banda?
Para além das malhas de guitarra viciosas, gosto de flamenco, que me soa tão orgulhoso e exaltado, e, claro, de compositores clássicos, como Brahms, Mussorgski, Vivaldi, Mozart, Bach. Penso que as letras para [a faixa] “The Devil’s Son” fizeram uma questão particularmente interessante. História está repleta de artistas que obtiveram o seu dom ao vender a alma ao Diabo, pois ser-se mais do que mediano é uma coisa negra e medonha na perspectiva cristã. “The Devil’s Son” é sobre a história de vida de Niccolo Paganini (1783-1840) escrita no seu ponto de vista. Ele tinha uma pele muito pálida e vestia-se sempre de preto. A sua virtuosa performance em violino, a sua (demoníaca) técnica de precisão, a sua aparência com longos membros, dedos e articulações ágeis levaram as pessoas à ideia de que ele tinha de estar possuído e que tinha um pacto com o Diabo. Muito interessante, de facto. A canção é explosiva, com guitarras que esgalham a alta-velocidade e com arranjos influenciados pelo Clássico. Não quero revelar mais; as pessoas terão que esperar e ouvir este hino explosivo e intenso. Mais: se tiverem curiosidade em saber qual a origem do título “The Devil’s Son”, então essa era uma das alcunhas que lhe deram na altura.

É claro que os álbuns de Belphegor são maioritariamente bem-recebidos com boas críticas, mas as pessoas ainda perguntam por algo que soe ao “Pestapokalypse VI”? Talvez esteja a ser parcial porque é o meu álbum favorito de Belphegor.
Sim, o “Pestapokalypse VI” é um álbum muito importante para Belphegor e foi um projecto interessante – ainda temos a “Hell’s Ambassador” nos nossos alinhamentos, que é influenciada pela escala oriental. Foi a primeira vez que decidimos usar duas guitarras com afinações diferentes – o que também fizemos agora com o “Totenritual” –, mas desta vez fomos ainda mais ao fundo para sacar um tom de guitarra mais malévolo e obscuro. Muito trabalho extra quanto a cordas mais espessas, afinações e configurações… Mas valeu tudo a pena. Ficas com uma atmosfera mais retorcida com afinações diferentes. De qualquer forma, espero poder regressar a Portugal em 2018 com o novo álbum e partilhar um festival com a vossa comunidade metal.

 

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