Comeback Kid: estranhos em casa (entrevista c/ Jeremy Hiebert) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Comeback Kid: estranhos em casa (entrevista c/ Jeremy Hiebert)

rsz_comebackkid2017bFoto: Avrinder Dhillon

Comeback Kid é aquela banda de hardcore que apareceu fora de tempo, por volta de 2000, entre o hip-hop e o nu-metal (como se referiu na review), ainda que, por exemplo, em Portugal o género tenha ganho nova força de 2005 em diante. No Canadá não foi muito diferente e na cidade de Winnipeg são fundados os Comeback Kid que chegam a 2017 com o sexto álbum “Outsider” e com uma sonoridade hardcore deveras refrescante. Quem nos fala sobre isso e sobre a ala política do hardcore é nada mais, nada menos do que Jeremy Hiebert, guitarrista e membro-fundador.

«Sempre nos sentimos mais confortáveis debaixo do guarda-chuva do hardcore, mas não queremos limites de forma alguma.»

É sabido que não se querem limitar, portanto com o novo disco temos punk, thrash metal, crossover, metalcore – apenas para nomear alguns géneros. Achas que é isso que realmente define o hardcore? O seres verdadeiro contigo próprio e fazer o que te dá na veneta.
De certa forma acho que é justo colocar-se isso dessa forma. Embora, para algumas pessoas, hardcore é um som específico que pode variar de cena para cena, cidade para cidade, país para país. Sempre nos sentimos mais confortáveis debaixo do guarda-chuva do hardcore, mas não queremos limites de forma alguma. Temos muitas ideias que gostamos de incorporar na nossa música.

Tendo em conta a pergunta anterior, devemos dizer que o título “Outsider” é muito adequado. É como ser-se uma banda hardcore, mas que vem de fora com coisas novas. Pode ser este um dos significados?
Definitivamente encaixa-se no espírito daquilo que sentimos e também no som do disco. Gostamos da ideia de não estarmos completamente presos a um certo som que possa, definitivamente, pôr-nos de fora ou longe do sentido tradicional do hardcore, mas ao mesmo sentimos que podemos trazer algo único a qualquer digressão de hardcore, porque o nosso som não vai ser igual ao das outras bandas no cartaz, mas ao mesmo tempo funciona.

Mesmo que a produção do álbum soe polida, há um sentimento de concerto enquanto se ouve. Achas que conseguiram gerir isso bem para trazer, ao disco, um toque de concerto?
O nosso objectivo passa sempre por conseguirmos compor e gravar a nossa música duma forma que a consigamos tocar ao vivo. Mesmo havendo excepções, fico desapontado quando vejo bandas que dependem fortemente de backing tracks, levando-os consigo para o alinhamento [do concerto], ou bandas que não têm backing tracks mas que falham partes importantes das canções, porque não as conseguem tocar ao vivo. É verdade que tomamos algumas liberdades em estúdio, mas tentamos sempre limitar onde será impossível conseguir a mesma vibe em palco.

«As coisas estão tão feias e mesmo à tua frente que mais pessoas que não lutaram antes vão fazê-lo agora.»

Tanto conseguem ser agressivos num momento como gentis na partes mais limpas. Acho que não têm medo de soar melosos, é isso? É tudo sobre sentir o momento…
Sim, nós gostamos mesmo de ter variações dinâmicas na nossa música sem termos um som instável ou de copiar-colar. Tem sempre de fluir e fazer sentido com o resto da canção. Não vamos ser uma banda que mostra algo estranho ou maluco só porque essa ideia é considerada fixe e que nos força a pô-la na canção onde nem pertence.

Hardcore sempre foi aquele género para o qual os jovens se viram quando querem encarar problemas sociais ou pensar numa mudança positiva para o mundo. Ainda sentem isso dentro do género e, especialmente, na vossa banda?
Penso que isso ainda existe, embora num grau menor do que quando era tudo mais underground e DIY. Acho que as bandas sempre incorporaram isso nas letras, seja numa abordagem política macro ou micro. Dado o actual ambiente político nos EUA e por todo o lado, haverá mais e mais bandas a falar mais alto e mais especificamente. Acho que era mais fácil fechar os olhos ao passado, mas as coisas estão tão feias e mesmo à tua frente que mais pessoas que não lutaram antes vão fazê-lo agora.

Muitos músicos do hardcore do continente norte-americano (EUA e Canadá) referem que a esquerda verdadeiramente organizada estava na cena punk-hardcore. Ainda é um facto ou a indústria musical acabou com isso?
Creio que ainda é um facto, embora não a 100%. Mas sim, acredito que a maioria das pessoas na cena hardcore quer fazer parte de uma mentalidade progressiva e acabar com o racismo institucionalizado; são pró-imigrante, pró-igualdade entre sexos e orientação sexual, pró-vegan, pró-direitos dos animais e são eticamente conscientes. Não há dúvida nenhuma de que há resistência que se opõe a certas ideias, mas estou certo que a música não vai ser totalmente tomada de assalto pelo ódio.

 

 

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