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Entrevistas

[Entrevista] Disassembled (c/ Samuel Trindade)

Pedro Felix

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De vez em quando, no mundo da música pesada, cai uma “bomba” que nos apanha desprevenidos. Algumas são antecipadas, mas outras são mesmo genuínas surpresas. Disassembled é um caso desses. Uma banda que, no passado, lançou dois EPs bastante interessantes, após um período de dez anos larga sobre nós uma autêntica bomba de neutrões musical. “Portals To Decimation” faz jus ao seu nome. Cada tema que apresenta é um portal para a nossa dizimação, tal é a qualidade que apresenta. Para sabermos mais sobre esta obra-prima do death metal nacional, e sobre a banda por trás dela, falámos com Samuel Trindade, único elemento restante da formação original.

«Vejo este “Portals to Decimation” mais como um passo evolutivo do que propriamente um álbum de uma banda fresquinha que acabou de sair dos fornos do metal.»

Desde o “N.V.N.”. até a este “Portals to Decimation” já se passaram 18 anos; com o EP “2.0” pelo meio já lá vão dez anos. Sonoramente as coisas mudaram enormemente quanto a estes dois lançamentos anteriores. Porquê não optar por uma nova entidade para a banda/projecto? Porquê manter o nome Disassembled quando a mudança foi tão radical?
Antes de mais, obrigado pelo interesse e por me darem a oportunidade de esclarecer algumas questões que, curiosamente, têm sido feitas ao longo dos anos. Esta é uma grande questão… Porque não acabar com isto e começar fresquinho com outro nome? Cheguei a ponderar isso mesmo, até já tinha arranjado nome e logótipo, mas três factores foram decisivos para manter o nome Disassembled. O primeiro foi a conveniência. Mesmo que a banda não tenha tido grande projecção no passado, eu sei que existem muitos fãs que se lembram de nos ter visto ao vivo, ter ouvido os EPs, etc.. Criar uma banda de raiz obrigaria a começar tudo de novo e, inicialmente, teria de me “colar” ao que fiz em Disassembled como forma de promoção e posicionamento – “Novo projecto do guitarrista de Disassembled”. Ou seja, este nome seguir-me-ia, mesmo que o tentasse “enterrar”. Ninguém conhece o Samuel, mas o nome Disassembled provavelmente viria à memória de alguns. O segundo factor: apesar das diferenças nos primeiros EPs serem de facto substanciais, vejo essas mudanças como uma evolução musical. O EP “2.0” está mais próximo deste álbum do que propriamente do EP anterior, e vejo este “Portals to Decimation” mais como um passo evolutivo do que propriamente um álbum de uma banda fresquinha que acabou de sair dos fornos do metal. Temos muitos exemplos de bandas, como Opeth, que mudaram radicalmente o seu som e continuam a ser os Opeth, para não falar da trabalheira que o Mikael teria de ter para conseguir-se desvincular de Opeth e começar do zero. Esta continuação de identidade faz também sentido numa vertente de enriquecimento de repertório. A banda assim não “morre” com dois míseros EPs, mas parte, sim, um dia para o descanso eterno com um legado mais “composto”. Por outro lado, se Disassembled voltasse ao activo como banda a dar concertos por esse país fora teria que voltar atrás no tempo e tocar temas antigos que muita malta iria certamente gostar de recordar e, para mim, só faria sentido fazê-lo mantendo a mesma identidade. Não gosto de ver a “Troops of Doom” ser tocada por várias bandas de ex-elementos dos Sepultura. Mesmo que tenham o direito intelectual para o fazer, acho que não faz grande sentido. O último factor terá certamente uma origem emotiva – este nome já me acompanha desde os meus 18 anos e não me conseguiria desassociar dele facilmente.

A história da banda é bastante atribulada, com todos os restantes membros a abandonar o barco. Podes-nos fazer um resumo do que se passou?
No fundo, o grande momento de viragem surgiu depois do lançamento do EP “N.V.N.”. Sabíamos que tínhamos um bom EP como cartão-de-visita da banda. Entretanto surge um contacto de uma editora internacional que se interessou pelo que ouviu e isso fez-nos “ter medo” do que poderia vir. As discussões sobre o futuro da banda começaram a surgir. O Luís [Candeias, bateria] estava a começar a descobrir o jazz e facilmente percebeu que o futuro dele passava por aí, para além de que o metal que tocávamos começar a ser desmotivador para a sua mente brilhante. O Nuno [Jesus, baixo] estava no limbo a explorar outras sonoridades e estava a ver para onde o barco iria remar. Eu e o Ricardo [Almeida, voz] começámos nos nossos empregos e sabíamos que não poderíamos andar a tocar quando uma editora quisesse, mas estávamos dispostos a fazer esse esforço. Então começou a gerar-se um clima pesado de diferentes opiniões; chegámos a ensaiar algumas vezes sem nos falarmos, quase a picar ponto. Um dia tivemos uma daquelas conversas difíceis que surgem nestas situações e assumimos que não queríamos editoras ou compromissos sérios e a banda começou a morrer aos poucos…Existe uma analogia fácil de explicar este estado – namoras com uma rapariga durante uns anos, ela quer dar um passo em frente, mas tu dizes-lhe que estás bem assim. Num instante estás divorciado ainda sem ter casado – Se os elementos não remam para o mesmo lado, como é óbvio, vai dar merda… E deu. Mantive o contacto com o Ricardo para continuarmos em duo; apenas queria continuar a exprimir-me musicalmente sem grandes pressões e, passado uns anos, compus com ele mais três musicas que vieram a ser o EP “2.0”. Depois deste, já tinha as ideias do álbum praticamente organizadas, mas o Ricardo não tinha tempo para assumir o compromisso e aí fechou-se um ciclo. Depois disso vejo-me sozinho. Na música alguns ficam sozinhos pelo seu mau feitio, mas não foi o caso.

Após o “2.0”, quando ficaste sozinho na banda, como referes, começaste a preparar este “Portals To Decimation”. No entanto levaste 10 anos a lançar o álbum. Porquê?
Porque os portugueses deixam sempre tudo para a última da hora! [risos] Estou a brincar… Mas, pensando bem, admito que existiu aqui muito desleixo da minha parte. Depois de ter o álbum em versão instrumental, pensei em lançar assim mesmo (devia ter batido com a cabeça nalgum sitio para pensar uma coisa dessas). Como estava sozinho, não devia nada a ninguém e divertia-me a melhorar as músicas: mais um solo, mais uns samples, experimentar novos kits de bateria, etc.. Estava sempre a tentar melhorar o trabalho e pensava sinceramente que nunca o iria lançar, ia sendo a minha brincadeira de fim-de-semana e convivia bem com isso… Certa altura achei que devia começar a pensar seriamente em colocar cá fora todas estas ideias, e um dia, em conversa de jola, perguntei ao Roger se ele me escrevia umas letras, seguindo alguns conceitos que me interessavam, e ficou decidido em 2013 que Disassembled iria lançar o seu primeiro álbum. Lembro-me que contactei o Sérgio (eu ainda não estava em Bleeding Display) e desafiei-o: nem precisava de se preocupar com letras ou colocação vocal, a papinha estava quase toda feita. Ele ouviu e alinhou logo. O Alex surge mais tarde por intermédio do Pedro Pedra, e, depois de me ter comprometido que lhe aumentava o baixo uns DBs acima do que um guitarrista normalmente acharia aceitável, ele aceitou. Os três estarolas estavam prontos para trabalhar juntos. Ou seja, vendo bem, o projecto só arrancou a todo o gás talvez nos últimos 3-4 anos. Só uma nota importante: o facto de ter gravado o álbum na minha casa deu-me liberdade para demorar o tempo que quisesse e isso nem sempre é bom. Num estúdio há compromissos e objectivos para cumprir. Em casa é mais para onde sopra o vento.

Como referiste, neste álbum tiveste a teu lado dois nomes grandes do death metal português: o Alexandre Ribeiro (Grog) no baixo e o Sérgio Afonso (Bleeding Display) na voz. No entanto, a forma como eles participam no álbum é algo diferente do que nos habituaram nas suas outras bandas. Como surgiu a possibilidade de trabalhares com eles e como decorreu o processo de gravação para a sonoridade sair assim diferente?
Como eu tinha decidido programar a bateria por efeitos de conveniência, só faltava mesmo gerir as gravações de voz e baixo e explicar o que queria ouvir da parte deles. Com o Alex foi fácil, pois eu queria potenciar o álbum com uma linha mais progressiva com baixo fretless e esse é o instrumento que ele mais usa, por isso estava mais ou menos alinhavado… Com o Sérgio foi mais difícil a adaptação, o gutural bruto de Bleeding Display não faria qualquer sentido neste álbum e ele próprio reconheceu quando ouviu a maquete pela primeira vez. Então, numa fase de pré-produção, fomos moldando o seu registo até identificarmos qual era o ideal. A forte projecção característica da sua voz está lá, mas com um timbre bem diferente do que nos habituou, e, sinceramente, superou o que eu tinha idealizado para a vocalização do álbum.

«Às vezes o primeiro take é o melhor e andamos a perder tempo à procura não sei bem do quê…»

Da tua parte o trabalho de gravação e de criação, principalmente os solos, não foi algo que seguisse a “tradição”, digamos assim. Como chegaste ao resultado final que encontramos no álbum relativamente ao trabalho da guitarra?
A conveniência tecnológica é uma coisa muito bonita, mas pode ser perversa. Num estúdio que utilize sistemas analógicos, como os velhinhos Alesis Adat, tens de gravar tudo de uma vez – até te pode dar uma vontade tremenda de coçar os tomates, mas se o take te está a correr bem tens de mamar com a bucha e gravar a malha toda até ao fim. Hoje em dia já ninguém precisa de passar por esse tormento. Eu sei que tenho solos gravados no álbum que ficaram só depois de umas dezenas de takes. Embora não tenha utilizado “corte e costura”, a verdade é que os solos só ficaram quando eu ouvia a malha no dia seguinte e dava-a como fechada. Se calhar eram pormenores a que ninguém liga, mas para mim bastava ter dado com menos ataque uma palhetada e isso já era o suficiente para voltar ao início. Foi assim também com todos os riffs. No seu todo regravei centenas de vezes só para ficarem como eu achava que estavam bem… Às vezes o primeiro take é o melhor e andamos a perder tempo à procura não sei bem do quê… Pancas.

O álbum termina com o instrumental “Revelations”. Pelo que sei teve a participação de um convidado e tem uma história própria. Podes-nos clarificar essa história de como surge este curto mas incrível instrumental?
Depois de fazer o último riff da “Traveller of Deceit”, deixei-me ir no mesmo embalo e continuei a improvisar… A “Traveller” estava fechada, mas eu achei que faria sentido usar aquilo que estava a sair no improviso. Fiquei a pensar naquilo durante uns dias e achei que o álbum acabaria com chave de ouro se conseguisse um diálogo entre guitarra solo e baixo. Como me senti limitado no vocabulário para o fazer, falei novamente com o João Paulo para me safar mais esta. Como ele gosta destes desafios, começou logo a trabalhar nas frases. O Alex também curtiu a ideia e começou a explorar frases como respostas às perguntas do João Paulo. Quando fechei a mistura deste instrumental percebi que estava diante de um grande trabalho de dois génios. Se a tecnologia nalguns casos pode ser perversa, posso partilhar contigo que os elementos que participaram neste álbum nunca se cruzaram na gravação do mesmo. Aqui até deu jeito, já que o João Paulo estava no Funchal e o Alex em Lisboa.

Agora que o álbum finalmente está cá fora, o que se segue? Qual o rumo a tomar pelos Disassembled?
Como tenho partilhado com todos os que me fazem essa pergunta, o meu objectivo principal foi cumprido – gravar um álbum que fique no repertório da banda e que, de alguma forma, deixe a sua marca no metal nacional. Não tenho muito tempo para me dedicar ao formato banda, quanto mais tocar ao vivo. A acontecer teria de ser com elementos que mostrassem uma grande capacidade técnica e que isto fosse para eles “um passeio no parque”, e sabemos que desses não há muitos por aí. No futuro logo se vê, mas para já quero que este álbum chegue o mais longe possível, pois acho que merece ser ouvido.

Olhando para cena nacional, como a vês? Qual o impacto que esperas que este trabalho venha a ter? Modéstia à parte, obviamente.
A cena nacional tem-se demarcado dos velhos tempos em que “soar a português” era algo depreciativo. Cada vez mais vejo bandas a mostrar que isso é coisa do passado. Isso é bastante positivo, embora, por outro lado, acho que ainda faltam de facto bons músicos executantes; e quando digo bons, não são os catalogados como “bons” por amigos só para não fazer a desfeita quando o próprio sabe que nem numa pentatónica atina. O problema geral passa um pouco por aqui, vê-se demasiados pseudo-bons e poucos efectivamente bons e depois isso reflecte-se no panorama geral. Um guitarrista de renome (já não me lembro do nome) uma vez disse numa entrevista: “Não é a comprar boas guitarras ou bons amplificadores que acordamos um dia Steve Vaianos.” Acho que, de um modo geral, falta algum empenho em praticar com qualidade que nem loucos até fazer bolhas nos dedos – eu fiz isso nos meus tempos de jovem folgado e ainda os tenho. [risos] Se houvesse este empenho no instrumento, iríamos assistir certamente a uma melhoria na qualidade do metal nacional… E apenas para não parecer presunçoso, uma pequena análise: a bateria que programei para este álbum não é muito complexa, mas tem alguns elementos de difícil execução real. De todos os bateristas de bandas nacionais que já vi ao vivo (também não conheço muitas), se colocar numa mão cinco nomes de bateristas que a tocassem, se calhar já me estava a esticar. Posso dizer o mesmo do baixo… Muito poucos conseguem atingir o nível técnico do Alex, e ele é só pele e osso… [risos] Mas ressalvo que refiro-me “aos que vi ao vivo”. Certamente haverá muitos, mas eu não os vi ao vivo e os álbuns não são grandes referências, visto que se consegue atingir elevados níveis de “areia para os olhos” em estúdio. Respondendo à segunda parte da pergunta, esta falta de empenho individual de que falo não faz parte do vocabulário dos músicos que trabalharam comigo. Analisando bem, eu sou até musicalmente o mais fraco. Essas características fizeram toda a diferença no produto final – o impacto só o tempo dirá, mas tem tudo para se assumir como um grande álbum para ficar na prateleira ao lado de alguns ilustres! Até os haters estão convidados a ouvir e a opinar.

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 2 de Maio no Hard Club do Porto e o segundo a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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