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Disassembled “Portals To Decimation” [Nota: 10/10]

Pedro Felix

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Editora: independente
Data de lançamento: 20 Abril 2018
Género: technical death metal

Quem de nós nunca usou a expressão “é tão bom que nem parece português”? Não creio conhecer ninguém que, numa ou noutra ocasião, não tenha recorrido a esta expressão ou a outra similar. Esta noção de que o que é português é, por definição, inferior ao que é feito além-fronteiras será talvez uma herança do passado, mas convenhamos que a sua origem já perdeu toda a relevância, sendo apenas motivo do nosso foco o porquê de ainda existir. Por que é que continuamos a insistir que o que é nosso não é tão bom ou melhor do que o que se faz fora das nossas portas? Felizmente, dentro do contexto do metal esta noção começa a ter os seus “detractores” com bandas a mostrar que têm não só potencial como já trabalho feito, que se mostra capaz de competir ao mais alto nível. Entrando directamente para o topo deste selecto grupo de músicos/bandas que detêm o nível de excelência que nos orgulha e que combate de forma implacável esta retrograda noção de que não temos capacidade de ombrear com o que nos chega do exterior, temos os Disassembled. Esta banda, oriunda de Lisboa, tem tido uma carreira algo inconstante e semeada de contratempos. Quando refiro inconstante não o faço em termos de qualidade musical, mas de um pára-arranca motivado pela vontade do seu guitarrista, Samuel Trindade, em a levar para a frente e o abandonar do barco pelos outros membros, o que colide directamente com a vontade daquele que é, actualmente, o único membro fundador a fazer parte do seu alinhamento. Após dois excelentes, e relativamente diferentes, EPs, chegou a vez de sair o primeiro álbum. Para isso, Samuel Trindade trabalhou durante dez anos com apenas um objectivo: criar algo de memorável que fosse contra a mentalidade de inferioridade que ainda grassa no nosso país.

“Portals To Decimation” é, assim, um trabalho pensado para provar que, com esforço, trabalho, dedicação e perseverança é possível criar algo que se destaque. O resultado final não só cumpre com esse objectivo como se torna em mais um daqueles marcos que sobem a fasquia para os que cá andam e para os que estão para chegar. A qualidade do death metal técnico apresentado é soberba. Estruturados em riffs sólidos, os temas são enriquecidos por solos demolidores seguindo a herança dos grandes Death juntamente com bandas da actualidade, como os Beyond Creation. Mas não só o incrível trabalho de guitarra justifica o soberbo trabalho que é “Portals To Decimation” – o baixo de Alexandre Ribeiro dá uma consistência única às composições, tomando mesmo a dianteira várias vezes ao longo do trabalho. Outro contributo surpreende é o de Sérgio Afonso, com um desempenho vocal de excelência.

Em poucas palavras, “Portal To Decimation” é aquele álbum de death metal técnico que há muito se aguardava que aparecesse com o selo “made in Portugal”, é aquele novo patamar que atingimos, é a nova referência no género no nosso país e é a esperança de que inspire outros a fazer ainda melhor.

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Obliteration “Cenotaph Obscure”

Rui Vieira

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Editora: Indie Recordings
Data de lançamento: 23 Novembro 2018
Género: thrash/death metal

“Cenotaph Obscure” é a quarta investida em formato longo-ataque destes noruegueses oriundos de Kolbotn, local onde se formaram os míticos Darkthrone em 1986 (ainda como Black Death). O quarteto é relativamente ‘recente’ (2004) mas sobressai pela sua produção regular até este último álbum. A Noruega é mais conhecida pelo bacalhau e pelo black metal mas alguns nomes ligados ao death metal – Zyklon, Blood Red Throne, Myrkskog ou Cadaver – têm trilhado o seu ‘árduo’ caminho nos últimos anos e a esses juntam-se os Obliteration na sua batalha pelo reconhecimento, pois há mais vida para além do black metal na Noruega. Digamos que a receita é pouco ortodoxa: death clássico + pitada de black + doom q.b. e voilá! Um som que tem tanto de (semi) original como de difícil digestão. Quarenta minutos desta receita não é para qualquer um, pois não é death metal in your face, aquilo que o comum fã procura nesta sonoridade. As suas divagações por outros géneros musicais poderão dispersar a atenção e, de facto, é isso que acontece. Para além desse factor menos positivo e, pese embora as várias influências referidas, acresce falta de variedade ao longo destas sete faixas. Não transparece ao início com o tema-título mas com o avançar do álbum já não nos lembramos das faixas anteriores e esse é o indicador-mor se estamos perante algo memorável ou apenas passageiro. Gravado nos estúdios Cobra (Estocolmo) com Martin “Konie” Ehrencrona, a produção está óptima e orgânica, ouvindo-se todos os instrumentos na perfeição, e mesmo a bateria, ainda que meio necro, está em bom plano e adequada à sonoridade final. Mas mesmo todas as qualidades técnicas e resultado final não são suficientes para retirar este álbum da mediania.

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Kishi “Depois da Meia Noite”

Diogo Ferreira

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Editora: independente
Data de lançamento: 10 Dezembro 2018
Género: stoner rock

Lá para os lados do Japão há um Ichi the Killer, em Angola há um Kishi que é mestre da dor, um demónio animal, um filho daquela terra. Fundados em Outubro de 2017, o quarteto que toca stoner lançará brevemente o primeiro álbum “Depois da Meia Noite”, trabalho que tem uma abordagem muito directa ao género musical. Sim, é stoner como tantas outras bandas, mas com uma aptidão de espontaneidade interessante. Isto é, a maioria das faixas (são oito ao todo) nem chegam aos três minutos de duração – como uma atitude punk – e são assim comprimidas em malhas distorcidas bastante orelhudas que fornecem um groove que faz o corpo gingar. Soando mais a estrada do que a deserto, há ainda um baixo gordo que se vai ouvindo bem e uma bateria coesa que sabe onde estar neste estilo. Por fim, mas igualmente importante, até porque é dos primeiros elementos que saltam ao ouvido, a voz rouca está muito bem aplicada e pensada.

Apesar de toda a straightness, os Kishi acabam por deixar que outros pozinhos de perlimpimpim extra-stoner se intrometam neste empreendimento – a saber: a faixa “Som da Birra” incute-nos paisagens psicadélicas e a última “Kianda” encarrega-se de nos relembrar de Black Sabbath. Nota mais ainda para a utilização de língua portuguesa no tema homónimo, algo que aparenta assentar de forma sincera, mais do que o inglês, na sonoridade desta banda sediada em África. Não são obviamente a única banda rock/metal vinda de Angola (há, por exemplo, Horde Of Silence e Dor Fantasma) mas, e com este “Depois da Meia Noite”, os Kishi podem muito bem ser a catapulta que falta a esse país para invadirem, pelo menos, o underground português – a língua é a mesma, é de aproveitar!

Nota Final

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Ichor “Hadal Ascending”

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Editora: Unholy Conspiracy Deathwork
Data de lançamento: 07 Dezembro 2018
Género: death metal

Este grupo alemão já ofereceu grandiosas tempestades de death metal, especialmente no álbum anterior “Depths”. Agora voltamos a descer às profundezas submarinas do mundo lovecraftiano onde residem os Ichor; no entanto, estas podem não ser as mesmas que a banda já antes apresentou.

A bruta velocidade que os Ichor praticavam e que aproximava a sua sonoridade à de uns Aversions Crown ou Whitechapel abrandou um pouco, que é como quem diz muito, com uma predominância de temas tocados em mid-tempo e com muito menos camadas do que as que se ouviam em “Depths”, sendo que a banda está deliberadamente a anunciar uma mudança. E o que se quer saber é se é boa ou má.

A quebra de velocidade permitiu aos Ichor incorporar mais melodias através de teclados e de uns poucos riffs que por vezes espreitam por entre os seus irmãos mais rudes e arrastados. Por norma, o pôr de lado o comboio de brutalidade também abriria as portas para explorar mais dinâmicas na composição, e a banda até o faz em “Conquering The Stars” com as vocalizações ‘cibernéticas’ à Cynic e Obscura, e com a atmosfera espacial mas é apenas aí; as restantes são todas muito homogéneas, apesar de não serem necessariamente repetitivas e até existirem temas que irão certamente merecer umas quantas ouvidelas, como “Black Dragons” e “Tales From The Depths”. “Hadal Ascending” soa todo muito igual e a precisar de uma pitada de variedade pelo meio.

Quanto à questão da mudança, a resposta é que depende mesmo do gosto de cada um. Apesar do que foi escrito no parágrafo anterior, este disco não é de todo mau. Os temas que o compõem podem fazer da peça final um bloco de basalto no fundo do mar que não chama assim tanto à atenção, mas, individualmente, são composições muito decentes de death metal com muitas pontas por onde os Ichor podem pegar para que o sucessor deste álbum possa tapar os buracos do mesmo e fazer a banda voar para um patamar mais alto.

Nota Final

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