[Reportagem] Download Festival Madrid 2018 (dia 3 – Ozzy Osbourne, Judas Priest, Carcass, etc.) – Ultraje – Metal & Rock Online
Features

[Reportagem] Download Festival Madrid 2018 (dia 3 – Ozzy Osbourne, Judas Priest, Carcass, etc.)

Judas Priest (Foto: João Correia)

O terceiro dia do festival conseguiu ser mais forte do que os dois dias anteriores em conjunto: Baroness, Volbeat, Ego Kill Tallent, The Hellacopters, Judas Priest, Madball, L7, Ozzy Osbourne, Carcass e Angelus Apatrida no mesmo dia são sinónimos de muito para fazer. Entre as 17h15 e as 18h15 tocaram os Eon, os Meltdown e os Shinedown, que deram vez aos Baroness no palco principal. A banda de John Baizley continua a somar um séquito enorme, fruto da sua mistura atípica de rock sulista, sludge, algum doom e elementos progressivos. “I love you, man!” – ouviu-se desde o público. “Well, I love you too!” – respondeu o vocalista antes de dar início a “March To The Sea”. A recém-chegada Geena Gleason ajudou a solidificar a actuação da banda, que se viu tão bem em temas como “Take My Bones Away” ou “Morningstar”. Soube a pouco, mas saciaram a curiosidade e explicaram o hype à sua volta. Ao mesmo tempo, no palco 4, os Teething  regurgitavam o seu death metal clássico e brutal com uma audiência considerável – o público espanhol é pouco dado ao metal mais extremo; na verdade, a sua maioria valoriza o hard rock, o heavy metal tradicional e o mainstream, o que fez com que as poucas centenas de fãs a assistir ao concerto dos Teething fosse uma surpresa.

Baroness (Foto: João Correia)

Os Ego Kill Talent, banda brasileira de rock/metal, começaram a tocar logo após o concerto de Teething e no palco ao lado. A banda de Jean Dolabella (ex-Sepultura) pratica um som com um pé no passado e outro no futuro, sendo que a única constatação do presente se verifica quando ela actua. Regressados de uma digressão no Brasil em apoio aos Foo Fighters e aos Queens Of The Stone Age, a banda encetou uma nova digressão pela Europa e provou ao público espanhol o resultado de muito trabalho diário.  Atingiram um ponto alto com “Heroes, Kings And Gods”, perante uma audiência muito bem composta e com curiosidade para ver em que consistia o som dos brasileiros. A título de curiosidade, de referir que os integrantes da banda, multi-instrumentistas, vão trocando de funções ao longo do set, uma virtude rara num tempo em que já foi tudo inventado. Os suecos The Hellacopters proporcionaram mais um momento forte do terceiro dia, e tivemos oportunidade de ver Dragen (guitarrista dos Backyard Babies) acumular funções em palco uma vez mais. “Toys and Flavors”, “Carry Me Home” e “Hopeless Case Of A Kid In Denial” foram cantados em voz alta pelo público que os esperava. Entretanto, os japoneses Crossfaith davam um concerto fantástico no palco 4 e comemoravam a sua primeira digressão europeia perante um recinto cheio para os ver; para isso, muito ajuda a sua diversidade e frescura musical constante. Ao seu lado, os catalães Crisix debitavam o seu thrash metal moderno: competente, ligeiramente técnico, agressivo e igual a tanto outro thrash que já se ouve há mais de 35 anos. Longe de serem monótonos em palco, são-no em termos musicais, mas valeram-se do apreço espanhol pelo thrash metal e por jogarem em casa para criarem um dos momentos de maior confusão no público.

The Hellacopters (Foto: Alfredo Arias)

No palco 1 era tempo dos dinamarqueses Volbeat, que conseguem triunfar com uma mistura de rock clássico, heavy metal e rockabilly. Tinham uma legião de milhares de fãs à espera de ouvir temas como “For Evigt”, “Lola Montez” ou “The Devil’s Bleeding Crown”. Fizeram bem o seu trabalho – aqueceram o público para os Judas Priest, que tocaram em seguida no palco 2, mesmo ali ao lado. Na entrevista com Ian Hill, cerca de uma hora antes do concerto, ficou no ar a participação ou não de Glenn Tipton, paciente de Parkinson há mais de 10 anos e cujas capacidades físicas se deterioraram ultimamente. Os eternos ingleses iniciaram hostilidades com “Firepower”, tema do último e muito badalado álbum, passando de seguida para “Grinder”. Rob Halford bem se esforça, mas começam-se a notar bastantes sinais de cansaço, fruto dos quase 67 anos que leva aos ombros. Moveu-se pouco em palco, mas canalizou toda a sua energia para a voz, que se ouviu alto e bom som em “Hellbent For Leather”, “You’ve Got Another Thing Comin’” e, claro, num dos hinos imortais do heavy metal. “Uno mas?” – perguntou Halford, agora com Tipton em palco, dando imediatamente início à entrada de bateria clássica de “Painkiller”, tema cantado pelos milhares presentes em frente ao palco 2. Os In This Moment tocavam no palco 3 e proporcionavam a maior experiência visual dos três dias ao som de temas como “Blood” ou “Whore”. Para quem não conhece, vale mesmo a pena investir uma hora para ver o concerto destes norte-americanos, cujo som moderno agrada com facilidade.

Volbeat (Foto: Alfredo Arias)

No palco 1, o senhor heavy metal abria a sua actuação às 22h40 com “Bark At The Moon”, o primeiro de 15 clássicos – porque tudo em Ozzy é clássico, dê por onde der. Cada novo acorde inicial resultava no delírio das mais de quarenta mil almas presentes, que entoavam cada tema como se fosse de cada um deles e que, de certa forma, é. Ozzy ainda percorre o palco e corre como pode; já falar é um problema, ou pelo menos entender alguma coisa do que o homem diz, mas puxou pelo público como se tivesse 15 anos, pediu palmas, agradeceu, sorriu, brincou e, pelo caminho, atirou-nos pérolas como “Fairies Wear Boots”, “No More Tears” e “Crazy Train”, regressando no encore para desfiar “Mama I’m Coming Home” e “Paranoid”. Foi tudo aquilo que se esperava e mais, muito graças às prestações explosivas de Zakk Wylde e Tommy Clufetos na guitarra e bateria, respectivamente. No palco 3, uns miúdos de rua de Nova Iorque incendiavam o Download Festival com o seu NYHC aguçado e directo – os Madball apresentavam-se para promover o menos bem-conseguido “For The Cause”, um álbum analisado na Ultraje Magazine #16. Felizmente, Freddy Cricien e restante banda lembraram aos presentes por que é que continuam a ser os reis incontestados do hardcore nova-iorquino ao passar em revista clássicos como “Can’t Stop, Won’t Stop”, “Hold It Down” e “Set It Off”. Cricien não parou um instante em palco, salvo seja para comunicar com o público. “Ozzy, how are you?” – perguntou Cricien virado para o palco principal. “But right now this is a New York Hardcore stage!” – retomou, para aplauso dos fãs. Comunicou quase sempre com o público com um espanhol fluente, o que ajudou a criar maior empatia. Embora possa ultrapassar altos e baixos com certos discos, ao vivo são uma força da natureza imperdível, quer se goste ou se deteste o hardcore.

Madball (Foto: João Correia)

Antes e depois dos Madball tocaram os Adrift e os ’77, mas foram as L7 que mais expectativas criaram em termos de novidade em todo o festival. As rainhas do grunge estão de regresso e seria impensável que não tocassem no mais importante festival espanhol de heavy metal. Quem se lembrava do caótico concerto de abertura da banda para Nirvana no Reading de 1992 sabia bem ao que ia no antepenúltimo concerto do Download Festival Madrid. Começaram com “Andres”, onde experimentaram alguns problemas de som em palco, rapidamente resolvidos e que depressa as fez passar para clássicos: “Everglade”, “Monster” e “Fuel My Fire” antecederam os novos temas “I Came Back To Bitch” e “Dispatch From Mar-a-Lago”, terminando em apoteose com eternos “Pretend We’re Dead” (em que Dee Plakas, a baterista clássica das L7, ajudou a cantar por ter um braço partido, tendo assim sido substituída na bateria) e “Shitlist”. Foram certamente os 60 minutos mais curtos de todo o festival. Para terminar, os Carcass e os Angelus Apatrida tocaram em simultâneo. A banda de Jeff Walker parece não ter perdido 1% de interesse desde que surgiu nos anos 80, e este concerto foi a prova cabal dessa ideia: “Buried Dreams”, “Incarnated Solvent Abuse”, “Captive Bolt Pistol”, “This Mortal Coil/Death Certificate”, a old-school “Exhume To Consume”, “Keep On Rotting In The Free World”, “Corporeal Jigsore Quandary” e (ufa!) um medley de “Heartwork”/”Carneous Cacoffiny” foram apenas alguns dos hits tocados pela banda em mais 60 minutos que se eclipsaram. Entre faixas, Jeff Walker gozou com o público, apaticamente especado. “Vamos todos dormir, vamos?” – perguntou Jeff à plateia, fazendo o sinal de dormir com as mãos e fechando os olhos enquanto se ria a bom rir. Saiu do palco da mesma forma: a rir bastante devido às trocas de palavras com alguns fanáticos do público.

L7 (Foto: João Correia)

Os Holy Cuervo DJ’s encerraram de vez as festividades, que se saldaram extremamente positivas. Para trás ficam muitas histórias, 105.500 bilhetes vendidos e um festival com uma organização incansável e sempre disposta a auxiliar bandas, fãs e imprensa.

-/-

Texto: João Correia
Fotos: Alfredo Arias, João Correia
Agradecimentos: Erik Magermans, Sara Moreno

Topo