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Entrevista com Carlos Matos, do festival Entremuralhas

Diogo Ferreira

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É já nos próximos dias 27, 28 e 29 de Agosto que se realiza, em Leiria, a sexta edição do (já) icónico festival Entremuralhas. É, portanto, o melhor pretexto para conversarmos com Carlos Matos, um dos dinamizadores do evento que é levado a cabo pela Fade In – Associação Cultural. Nas seguintes linhas perceber-se-á por que é que o Entremuralhas é tão singular e aqui tão perto.

O Entremuralhas já vai para a sexta edição! Um festival marcante tanto pelo local, no coração do castelo de Leiria, como pelas bandas que nem sempre são fáceis de encontrar por esses palcos fora devido ao seu cariz mais intimista e menos comercial. Como tudo começou afinal?

A primeira edição do Entremuralhas aconteceu em 2010. A Fade In – Associação de Acção Cultural já há muito anos que vinha trazendo à cidade de Leiria alguns dos grandes nomes de culto da cena alternativa internacional, nomeadamente, aos inúmeros episódios do Fadeinfestival – evento que tem decorrido na cidade do Lis, continuamente, desde 2001. O Entremuralhas acaba por ser um desses episódios mas em grande e com enorme impacto, quer pelo local onde se realiza, quer pela projecção mediática nacional e internacional que tem. A Câmara Municipal de Leiria, apercebendo-se do poder de atracção de visitantes que os eventos da Fade In conseguiram ao longo de tantos anos, e percebendo igualmente a linha estética trilhada pela maioria das nossas produções, endereçou um convite à Fade In no sentido de organizar um evento diferenciado no maior e mais nobre monumento da cidade, o Castelo de Leiria. A aposta foi certeira por várias razões. Porque tirou da “sombra” o ex-libris da cidade (o castelo estava praticamente esquecido pela população, sendo “apenas” uma “coisa” imponente lá no alto do morro, mas aonde muitos se “esqueciam” de ir); porque abriu um precedente para a utilização do monumento para outros eventos de várias índoles, tornando-o num espaço dinâmico e elegendo-o como um equipamento cultural natural de excelência; porque deu oportunidade a uma associação local (com provas dadas é certo) para organizar um dos festivais mais singulares e distintos da Europa; e, em última instância e não menos importante, porque respeitou a diferença e soube usá-la a favor de uma cidade que passa para o exterior a imagem de uma certa vanguarda social (e, porque não, estética). Portanto, digamos que até agora tem sido um “casamento feliz”.

Dirias que Laibach é o nome mais sonante e mais importante que até agora vem ao festival? Alguma vez sonharam com esta possibilidade?

Não é a primeira vez que a Fade In traz os Laibach a Portugal. Em 2005 trouxemo-los em exclusivo para a sua estreia no nosso país. Mas na altura não tínhamos em Leiria uma sala com as exigências técnicas da banda e tivemos que os fazer no antigo Hard Club, em Gaia. Tê-los agora de novo entre nós é realmente um privilégio, até porque os Laibach raramente tocam em festivais, pois preferem concertos “em nome próprio”. Mas já passaram por cá outros nomes igualmente importantes e históricos, como por exemplo os Nitzer Ebb, Clan Of Xymox, VNV Nation, Project Pitchfork, Rosa Crux, The Legendary Pink Dots ou Sol Invictus, só para citar alguns no Entremuralhas, e Diamanda Galás, Wovenhand, Xiu Xiu, A Silver Mt Zion, Jarboe, Blixa Bargeld, Michael Gira, Deine Lakaien, Owen Pallett, Die Form e tantos, tantos outros no Fadeinfestival… Mas sim, nunca pensámos que seria possível trazer os Laibach ao Entremuralhas, até porque existe um grande condicionalismo (mas que ao mesmo tempo também é mais uma coisa que torna o festival tão especial) que é o facto de a lotação ser limitada a 737 pessoas por dia, o que, naturalmente, também condiciona a receita e, por consequência, o orçamento do evento.

Laibach pode ser um nome grande, mas os Igorrr ganham a qualquer banda em termos de sonoridade arrojada. Das bandas mais arriscadas a actuar no Entremuralhas, não?

De facto os Igorrr são um projecto com uma sonoridade muito personalizada e arrojada. Aquela mistura entre breakcore, drum’n’bass, folclore, black metal e ópera confere-lhes um território muito próprio. Mas não vemos a nossa aposta como um risco. Temos a certeza que é um tiro certeiro da nossa parte e que quem os “ouver” ao vivo vai ficar estarrecido. Já noutros anos apostámos em bandas que aparentemente não são recrutadas para “festivais góticos”, como os Kap Bambino, Holograms, Iceage ou O. Children, mas isso não nos interessa nada, pois não estamos aqui para fazer alinhamentos clichés. Queremos sempre coisas novas mas que cumpram, obviamente, os parâmetros de qualidade que exigimos. Aliás, é bem possível que em breve tenhamos fado no Entremuralhas. Existe sonoridade mais gótica que o Fado? O povo português é gótico por natureza, só que não tem consciência disso. [risos]

Pessoalmente sinto que o cartaz de 2015 está mais unido em termos dos géneros que as bandas se propõem a mostrar. No entanto, e como fã, não deixo de questionar a falta do neofolk que este ano será representado pelos Art Abscons. Alguma razão particular levou a organização a enveredar por este caminho?

Nenhuma razão em particular. Como depreendes na resposta anterior, não estamos estanques nem reféns de nenhum género específico. A ausência este ano de mais bandas neofolk foi apenas uma “coincidência” programática. Noutros anos houve inúmeras bandas desse género no nosso cartaz como os Rome, Spiritual Front, Andrew King, Naevus, Darkwood, Triore, Of The Wand And The Moon ou Ordo Rosarius Equilibrio. Este ano estão cá os Art Abscons e também os 6 Comm. Estes não sendo neofolk puro, são liderados por Patrick Leagas, um dos fundadores dos Death in June que são um dos expoentes desse género. Aliás, o concerto dos 6 Comm vai ser histórico porque está anunciado pelo seu líder como o último deste projecto com 29 anos de carreira!

O segredo é a alma do negócio e vocês coordenam-se muito bem nesse aspecto. Mas será que podem adiantar algumas bandas que gostariam de trazer a Leiria? Lanço já três: Blutengel, Triarii e Ritual Howls.

Há uma premissa que é essencial para que as bandas possam estar em cartaz no Entremuralhas: temos que gostar do som delas. A esmagadora maioria das bandas que trouxemos até hoje (e também ao Fadeinfestival) vieram a Leiria porque somos fãs. Não produzimos bandas cuja sonoridade não apreciamos. Nas três que propões, há pelo menos uma de quem não sou particularmente fã. Logo isso é um grande handicap. [risos]

Para os que não sabem, a Fade In é muito mais do que o Entremuralhas. O que é que a Fade In tem mais, ao longo do ano, para oferecer?

O nosso evento mais conhecido, nacional e internacionalmente é, de facto, o Entremuralhas, que é a extensão de Verão do já referido Fadeinfestival. Esse evento vai tendo episódios ao longo do ano em vários anfiteatros e clubes de Leiria. Decorre praticamente ininterruptamente desde 2001. Toda a direcção da Fade In é constituída, desde sempre, por voluntários não remunerados. A nossa associação não tem fins lucrativos pelo que o nosso trabalho é todo pro-bono. Isso quer dizer que ninguém está a tempo inteiro na associação. Mesmo assim temos outros projectos que, não tendo a regularidade dos anteriormente citados, vão acontecendo intercaladamente de dois em dois anos: o Ensina Fade In (em que desafiamos os professores das escolas do primeiro e segundo ciclos a criarem, com os seus alunos, versões de bandas que já passaram pelo Fadeinfestival para, posteriormente, se apresentarem em competição numa gala no Teatro José Lúcio da Silva) e o Zús! (um projecto que faz prospecção de novos valores musicais nas escolas secundárias do concelho de Leiria e os recruta para uma fase final que determina a banda vencedora – que depois é lançada e/ou promovida pela Ominichord Records, uma editora do Hugo Ferreira, também membro da Fade In. Os já “consagrados” First Breath After Coma e os prematuramente extintos Backwater And The Screaming Fantasy – que entretanto deram origem a dois projectos rapidamente emergentes: Whales e Surma – foram bandas que venceram as duas edições realizadas até agora). Por fim, refira-se o Estilhaços, outra produção que a Fade In leva a cabo mas, neste caso, em parceria com a ecO, outra associação de Leiria. Trata-se de evento multidisciplinar que privilegia as curtas. Sejam elas de dança, performance, pintura, música e, claro, cinema. Se tudo correr como esperamos, este ano vamos ter uma curta musical com cerca de 100 guitarristas no palco do Teatro José Lúcio da Silva. Vai ser (saudavelmente) caótico! [risos]

Como nota final, deixa algumas dicas para os novos visitantes ou para aqueles que ainda não se decidiram. Como podem chegar, onde podem pernoitar e, claro, o que podem encontrar no festival em si para além dos concertos.

Para além dos concertos vamos ter o lançamento de um livro de Miguel Silva, intitulado “Sons Monocromáticos”, que reúne fotografias que o autor foi tirando ao longo das primeiras cinco edições do Entremuralhas. Vamos ter também 3 exposições fotográficas. Do próprio Miguel Silva e ainda de Ricardo Graça e Rui Miguel Pedrosa, todas alusivas a edições anteriores do evento. Temos também programada uma peça de teatro de Pedro Oliveira que decorrerá numa das partes da Torre de Menagem dos castelo e também o lançamento do álbum de estreia de Anáisa. Como sempre, no final de cada dia há as aftershow parties no Beat Club, com as habituais espectaculares selecções músicas dos djs convidados, nacionais e internacionais, e que duram até ao raiar do sol. Leiria tem uma série de recomendáveis hostels, hotéis, pensões, hospedarias e residenciais, todos bastante próximos do castelo. Mas este ano há uma grande novidade. Não há zona de campismo, mas há uma coisa bem melhor: a organização disponibiliza os camarotes do estádio de Leiria a um preço “estupidamente” low cost. Saibam todos os pormenores sobre isto e sobre a programação em www.fadeinfestival.com. Um abraço a todos e um obrigado especial ao Diogo Ferreira e à Ultraje!

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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Entrevistas

[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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