Grift: o peso da herança (entrevista c/ Erik Gärdefors) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Grift: o peso da herança (entrevista c/ Erik Gärdefors)

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Mais comunicativo do que é habitual, Erik Gärdefors, que actua sob o nome Grift, concedeu-nos um pouco do seu tempo (que usa para criar e questionar o mundo) de modo a conversarmos sobre “Arvet”, o novo álbum que será lançado pela Nordvis Produktion. As linhas que se seguem são mais filosóficas do que simplesmente artísticas, mas sempre foi isso que fez de Grift aquilo que realmente é: um projecto único com o intuito de encontrar respostas sobre a nossa herança social, biológica e religiosa. Sem mais: deixamos-vos com Erik Gärdefors.

«Herança está cheia de angústia, mas também de nostalgia. Interesso-me por esses paradoxos com os quais temos de viver sempre.»

“Arvet” tem mais elementos folk do que os trabalhos anteriores. Viste este momento como uma oportunidade para explorar os teus instrumentos e habilidades folk?
Bem, para além dos instrumentos habituais, usei um psalmodikon – que era comum em pequenas e pobres congregações na Suécia do Séc. XIX –, também usei uma tigela cantante, um e-bow e um instrumento de percussão que eu próprio construí com ossos. Portanto, no álbum, não há instrumentos folk no sentido clássico. Não reflecti sobre se o álbum soa mais folky do que os anteriores.

Como é que o ambiente circundante contribui para as tuas criações musicais? Por exemplo, é sabido que gravas sons da natureza à tua volta.
Isso tem um papel muito grande em mim. Quero transmitir os sentimentos que ganho ao viver onde vivo. Desde os pequenos ambientes locais ao grande mundo global. Percebi que as grandes e difíceis questões na vida nascem onde estiveres. Gravo sons da natureza à volta da minha casa porque é o que ouço o dia todo. Se vivesse em Londres gravaria os sons que ouvisse à janela. Portanto é apenas uma questão de encontrar o sentimento certo.

“Arvet” significa herança. Que tipo de herança? De valores e tradições ou arrependimentos e nostalgia?
Sim, é sobre esse tipo de heranças. A herança social, biológica e religiosa com a qual cada indivíduo tem de batalhar. Nós, no mundo ocidental, vivemos cada vez mais individualmente, onde várias pessoas pensam que são a tabula rasa, que pensam que são únicas. Para mim, herança está cheia de angústia, mas também de nostalgia. Interesso-me por esses paradoxos com os quais temos de viver sempre.

«Quando compus as canções senti solidão duma forma negativa. Estava cheio de dúvidas e angústia.»

Sentes que “Arvet” é a tua criação mais triste até agora?
É difícil responder. Gostaria de dizer que o álbum é melancólico, não directamente triste. É uma diferença importante. Quando compus as canções senti solidão duma forma negativa. Estava cheio de dúvidas e angústia. Mas a questão é que tenho de me sentir sempre assim para escrever o material de Grift, porque esses sentimentos melancólicos são aquilo que quero transmitir com Grift. Noutros contextos consigo transmitir alegria e humor, mas não em Grift. Penso que é importante ter-se um fio condutor naquilo que se faz.

A promoção refere que “Arvet” continua onde “Syner” parou. Que ligação há entre ambos os álbuns?
Já passaram dois anos desde que “Syner” foi lançado. Quando compus esse álbum senti basicamente o mesmo. Atravessei os mesmos campos e as mesmas florestas. Fui influenciado pelos mesmos tipos de expressão. Sonhei com as mesmas coisas. Portanto, é um processo contínuo que lentamente desliza para a frente. Mas penso que há sempre um desenvolvimento lento. Fico cada vez mais claro na minha linguagem e nos meus pensamentos, e escrevo canções melhores. Doutra forma não teria deixado que a Nordvis lançasse [os álbuns].

«Penso que a música e as letras fazem-me sentar um bocado e resumir tudo à minha volta.»

És um homem de perguntas e procura. Usas a tua música para fazer mais perguntas ou tentas encontrar respostas através dela?
É uma questão muito boa. Penso que a música e as letras fazem-me sentar um bocado e resumir tudo à minha volta. Um tipo de terapia que dá respostas, mas como um todo traz novas questões. Às vezes anda tudo em círculo…

Na press-release está escrito que «mais cedo ou mais tarde compreendemos as nossas vulnerabilidades e cedemo-nos àquilo herdámos desde que somos crianças inocentes». Como é que a inocência da infância se liga ao avanço da idade?
Enquanto crianças recepcionamos mais novas experiências. Descobrimos novas coisas que nos fazem genuinamente felizes ou tristes. Quando depois somos envolvidos pela grande sociedade já não é tão ‘puro’. Actuamos estranhamente. Ficamos cheios de ansiedade e dúvida. Tornamo-nos enganadores. Mas um conforto para isso passa por perguntar aos nossos pais como é que foram moldados naquilo que são. Como é que os pais deles eram. Por que é que escolheram fazer o que fizeram na vida. De qualquer forma, preciso mesmo de perceber um pouco como trabalho e por que é que actuo como actuo para ser um ser humano melhor.

O teu pai teve um papel no vídeo de “Den stora tystnaden”. Ele ouve os teus resultados finais?
Somos amigos muito próximos. Conversamos e discutimos sobre a maioria das coisas. Ele é muito aberto a novas impressões e quer tentar compreender. É algo que aprendi muito com ele. Estou extremamente grato por isso. Organizei uma festa de lançamento do álbum, [e] um dos pontos altos pessoais foi tocar um set inteiro de Grift com o meu querido pai sentado numa cadeira mesmo à frente do palco.


A review a “Arvet” pode ser acedida AQUI.

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