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Inquisition: horrores cósmicos e infinidades insondáveis (entrevista c/ Dagon)

João Correia

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rsz_2017-04-28-235440_swr_xx_dia_1_inquisitionInquisition @ XX Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

«Sou inspirado pelos contos antigos de vida extraterrestre e interpreto o que compreendo.»

«Os Melvins são da minha cidade!», diz-me Incubus (bateria) com um sorriso enorme ao olhar para a minha t-shirt. «Já tiveste oportunidade de os ver ao vivo? Tens mesmo que ver, são excelentes!» Assim começou o meu contacto cara a cara com os Inquisition. Actualmente, e se quisermos quantificar a excelência no círculo do black metal, não será descabido apontar os Inquisition como uns dos principais porta-vozes de um género que atravessa tempos bastante interessantes devido a colectivos como The Ruins of Beverast, Cobalt e Oranssi Pazuzu, que desbravaram mato para revelar novos caminhos. Alheios a muita experimentação, os Inquisition continuam a primar pelo seu black metal clássico, mas sempre exclusivo. Prova disso é o facto de, com apenas dois membros, terem conseguido lançar a proeza que é “Bloodshed Across the Empyrean Altar Beyond the Celestial Zenith”, um álbum que arremessou a banda em direcção ao infinito. As críticas não poupam louvores ao novo registo, o que muito tem satisfeito a banda durante os últimos 10 meses.

«As críticas têm sido excelentes», começa por dizer Dagon, vocalista e guitarrista. «Em termos de vendas, não há dúvida de que está a correr muito bem, embora isso não seja o que nos interessa mais. Como temos andado em digressão a promover o álbum, tenho sempre oportunidade de falar amiúde com os fãs, e depois vamos a fóruns online, a websites… Somos uma banda muito orgânica – não temos afiliações a grandes publicações, por isso gostamos de acreditar que as críticas são honestas e transparentes, pois têm sido fantásticas, mas, para mim, a grande razão das críticas deve-se ao facto de ser o álbum mais bem conseguido e negro, tanto na sua essência como musicalmente, o mais obscuro e agressivo, onde tentamos baixar um pouco mais as vocalizações e enegrecer ainda mais a música, e as críticas provam-no.»

O negrume presente em “Bloodshed Across the Empyrean Altar Beyond the Celestial Zenith” é indiscutível e uma novidade para os próprios Inquisition. Para além de terem elevado o som da guitarra a novos planos, as próprias letras parecem fazer parte de uma escuridão que se arrasta, algo que toma uma forma palpável e que, geralmente, muito deve a H. P. Lovecraft e aos seus contos malditos, que fundem divindades mais antigas do que o tempo, loucura inenarrável e uma sensação de niilismo e de indiferença cósmica perante a Humanidade. À primeira vista, tudo parece apontar para o autor e seus Mythos, mas trata-se de algo menos fictício.

«Na verdade, a inspiração não vem de Lovecraft, é apenas uma coincidência, mas entendo onde queres chegar. Comecei a ter esse tipo de opiniões em 2011, quando lançámos o “Ominous Doctrines of the Perpetual Mystical Macrocosm”. Acredites ou não, nunca li Lovecraft – sei quem foi e sei que está em todo o lado, principalmente no black metal, mas nunca me debrucei sobre Lovecraft. Então, as pessoas começaram a perguntar-me se eu me inspirava em Lovecraft, mas acho que não, nem sequer subconscientemente. Talvez a nossa fonte de inspiração seja a mesma [cosmologia suméria]. Não estou com isto a dizer que ele se tenha inspirado em Zecharia Sitchin, até porque o Sitchin começou a escrever nos anos 70, mas diria que a minha maior inspiração foi o Zecharia. Basicamente, sou inspirado pelos contos antigos de vida extraterrestre e interpreto o que compreendo. Na escola, achava que era uma seca, mas depois de crescer fiquei fascinado com o tema. É curioso porque dá para traçar um paralelo entre ambas as divindades antigas [Lovecraft e Suméria].»

Os Inquisition sempre primaram pela falta de comprometimento. Ainda que se encontre nos píncaros da popularidade devido à sua abordagem única ao black metal, a banda descobriu o Santo Graal do metal mais extremo e obscuro: agradar simultaneamente aos fãs mais antigos e underground e à legião de novos fãs que o último trabalho lhes rendeu. Muitas bandas conseguem agradar a uma das fações; às duas, é raro. O segredo é simples: os Inquisition mantiveram-se fieis à sua identidade.

«Inquisition é metal – apenas tem um véu de black metal a cobrir a banda.»

«Absolutamente. Superficialmente, a nossa música é muito rítmica, é fácil de agradar. Adoro riffs e tocar guitarra. A minha maior inspiração desde pequeno, desde os doze, treze anos, foi AC/DC, cresci com aqueles riffs. Não me estou a colocar num patamar de deus da guitarra ou algo do género [risos], mas acho que estou a dar às pessoas exactamente o que elas querem, que é a minha forma de metal: riff após riff após riff. Mentalmente, espiritualmente e emocionalmente… [pausa] existe uma acentuação enorme no movimento, é música que te toca, que te agita, seja fisicamente ou não. É muito pessoal, mas também muito rítmica, catchy, e quando digo catchy quero dizer [que] não é música pop. [risos] A percepção das pessoas sobre o black metal é que não existe muito ritmo e tão pouco catchiness, que é exclusivamente sobre atmosfera e poucas mudanças na música. Antes de mais, Inquisition é metal – apenas tem um véu de black metal a cobrir a banda.»

Há véus de black metal mais espessos e negros do que outros. Que o diga Dagon, que, há três anos, viu os Inquisition serem associados ao movimento do black metal nacional-socialista (NSBM) através de uma fabricação na Internet, a mãe de todos os mexericos. A celeuma causada foi tão grande que a Google interveio e exigiu que outros sítios legítimos apagassem conteúdos das suas páginas por alegadamente serem fascistas. Numa era em que a informação é omnisciente, não é preciso muito para prejudicar a imagem de uma banda através de rumores, mentiras e falsidades. Dagon recorda-se bem do incidente e não tem qualquer pudor em falar dele.

«Felizmente não prejudicou a banda de forma alguma. Quanto muito trouxe-nos mais atenção indesejada. Parece-me que a maioria das pessoas mentem a elas próprias, existe muita hipocrisia, no sentido em que essa gente quer entrar no black metal porque gosta, mas não pensam um pouco mais por que é que certas bandas se envolvem ou se sentem encantadas por uma orientação nacional socialista ou ouros extremos políticos. Antes que as pessoas me entendam mal, quero que fique claro que, quando muitas bandas se envolvem nisso, não quer dizer que os seus fãs sigam essas tendências ou que acreditem ou não acreditem nisso. Acho que muitas das bandas que são julgadas hoje em dia mentirão, esconderão coisas ou não serão transparentes o suficiente com receio de serem julgadas. Muitas pessoas não perceberão as verdadeiras razões de por que é que muitas bandas continuam a envolver-se com esses temas.»

rsz_2017-04-28-235639_swr_xx_dia_1_inquisitionInquisition @ XX Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

Em vez de se sentir incomodado, Dagon toma uma abordagem racional em relação ao assunto. Na continuação da pergunta, revivem-se outros assuntos: os anos 90, editoras como a No Colours Records e o facto de, hoje em dia, muitos falarem sobre a cena do black metal como se soubessem do que falam quando, no início dos anos 90, ainda nem sequer eram nascidos. É apenas uma das muitas incongruências da actualidade, também esta incrementada pela Internet.

«Deixa-me ser bastante claro: houve uma altura em que a coisa mais importante no black metal era seres considerado satânico. Falo por mim, e ninguém o poderá contradizer exactamente por isso. Um satânico tinha uma mente absolutamente aberta em relação a tudo. Não existia noção de bem e de mal, e não me refiro à corrente satânica de LaVey, pois essa é apenas uma extensão de algo que existiu desde sempre. Num mundo dominado pela lógica e pela razão, as únicas coisas que te podem incomodar pertencem ao campo das emoções, coisas que te afectam e ofendem os teus sentimentos. Nos anos 90, não existiam assuntos que, quando trazidos à luz do black metal, fossem uma ameaça. À época, o nacional-socialismo não era uma ameaça para o black metal. Caso tivesse sido, talvez não existisse o black metal como o conhecemos hoje em dia.»

É compreensível: afinal trata-se de um assunto que polariza opiniões e que perturba o bom funcionamento de um tipo de música cuja filosofia de vida se encontra alicerçada na honestidade. Contudo, desengane-se quem pensa que o black metal é o braço direito do diabo e a personificação do mal na Terra – a verdade não poderia ser mais distinta, com a política a ocupar esse lugar com uma clara vantagem.

«O nacional-socialismo na sua vertente alemã ou italiana, e vejas por que ângulo vires, foi algo que representou o mal através da mão humana, bem como o desejo de supremacia sobre os outros; em suma, algo que representou uma coisa maior do que o próprio Homem. Assim, podemos dizer que as bandas que, nos anos 90, começaram a envolver-se na onda do nacional-socialismo, e cujos membros eram, quanto muito, miúdos de 18-19 anos, brincavam com a situação como se se tratasse dos seus ídolos, como se fosse o Lemmy ou o Jeff Hanneman e, então, acharam que era divertido. Não há dúvida de que existe um fétiche com isto. Se pensares bem, o niilismo do black metal e o genocídio cometido na Alemanha estão interligados, pois é tudo destruição – existe uma ligação errada.»

«Não há lugar para o NSBM em lado nenhum.»

Se é verdade que o NSBM originou da mente de adolescentes que procuravam, essencialmente, novas formas de chocar, o género evoluiu consideravelmente e, o que antes era apenas uma minoria extremamente marginal de bandas, tornou-se num movimento global que tem representantes em pontos tão díspares do globo como Argentina e Austrália e que, até, já conta com obras impressas. Assim como o género, também os tempos e as mentalidades mudaram.

«Sim – na minha opinião, muita coisa mudou desde essa altura. Crescemos enquanto pessoas, o mundo tornou-se muito mais sensível a estes tópicos, há um seguimento muito maior do black metal e as pessoas começaram a aperceber-se de que o black metal não é apenas o que elas pensam que ele é. Na verdade, cada banda que começou a lidar como nacional-socialismo teve a sua razão para o fazer. Talvez tivessem pensado que era o que o satanismo significava, mas de forma histórica, verosímil. Actualmente, não há lugar para o NSBM em lado nenhum; quero dizer, principalmente agora que o black metal se abriu às massas, não há meios termos quanto a isto, não há áreas cinzentas.»

“Ominous Doctrines of the Perpetual Mystical Macrocosm” permitiu à banda uma agenda muito mais cheia nos principais palcos mundiais: os festivais Party.San e Bloodstock receberão as últimas datas da banda no Velho Continente. Certamente que, depois da digressão europeia e de alguns dias de descanso, as engrenagens da máquina continuarão a girar, desta vez como cabeças-de-cartaz e com convidados de peso que falam… português. «Sim, seremos cabeças-de-cartaz na digressão americana entre Setembro e Outubro e teremos os Mystifier, do Brasil, como banda de apoio. Depois teremos uma semana de descanso, e no começo de Outubro iniciaremos a nossa digressão Sul-Americana, onde voltaremos a estar com os Mystifier no espectáculo no Brasil. Terá lugar na América Central e na América do Sul.»

Se, para alguns, o céu é o limite, para os Inquisition o macrocosmo é apenas o princípio.

Links: Facebook, Season Of Mist, Shop.
Os Inquisition já tinham sido anteriormente entrevistados pela Ultraje aquando do #6. Recorda um preview dessa edição AQUI.

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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Entrevistas

[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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