#ChooseUltraje

Reviews

Melvins “Pinkus Abortion Technician” [Nota: 7.5/10]

João Correia

Publicado há

-

a3788272129_10Editora: Ipecac Recordings
Data de lançamento: 20 Abril 2018
Género: punk/fuzz

Uma vez a cada X anos temos uma sensação de prazer efémera ao sabermos que uma das nossas bandas preferidas vai lançar um novo disco. Nos tempos que correm é um momento de cada vez menor emoção, infelizmente, até porque antes de um novo disco que antecipamos ser lançado para o mercado já existem no YouTube vários teasers desse álbum, por vezes três do mesmo. Em parte, esta tendência relativamente recente ajuda a matar a emoção da descoberta; por outro lado é uma forma de a indústria discográfica atiçar as brasas do seu público-alvo, o que em parte faz com que o mercado não ganhe bolor e continue a avançar.

No meio disto tudo há os Melvins, aquela banda que lança pelo menos um disco por ano e que, ao fazê-lo, destrói por completo a estratégia dos teasers – ao lançarem um disco por ano, esse conceito cai por terra e faz as pessoas quererem ouvir o seu novo disco. Também é conveniente dizer que, para um fã de Melvins, a excitação nunca esvanece – neste momento, a banda faz o que quer sem ter de se preocupar com reacções ou críticas e, assim, nunca sabemos o que esperar de um novo registo. Assim, podemos dizer que a banda é uma das responsáveis pela perseverança da tal emoção. Desta feita, “Pinkus Abortion Technician” volta a oferecer uns Melvins a fazer aquilo que sempre fizeram melhor, que foi seguir o seu caminho muito especial e peculiar, tanto que não é de estranhar que, embora sólido e muito acessível, seja o disco mais a fugir para todos os lados dos últimos 15 anos; de certa forma, pode até ser comparado a discos como “Houdini”. Para quem sabe o valor que “Houdini” teve para as novas gerações de música mais pesada, parece uma afirmação a fugir perigosamente para a hipérbole, mas será?

Antes da dissecação do álbum, alguns factos incontornáveis: o novo trabalho é Melvins clássico, com todos aqueles preciosismos que fazem de Buzz e Dale o duo dinâmico por excelência – convidam Jeff Pinkus (Butthole Surfers) para colaborar no disco, logo, intitulam-no de “Pinkus Abortion Technician” em homenagem a “Locust Abortion Technician”, dos Butthole Surfers; como uma homenagem sabe a pouco, decidem também interpretar duas covers dos Butthole Surfers. Mas trata-se do novo registo dos Melvins ou dos Butthole Surfers? Na verdade, é o novo registo dos Melvins com aquele feeling de Butthole Surfers, aquele cabaret  impossível de imitar, aquele misto de casa-de-passe que tresanda a perfume barato e a doenças venéreas, mas que nos faz sentir que é uma agência de acompanhantes de luxo. Se por esta altura ainda estão a ler isto, espera-vos uma boa surpresa.

São esses preciosismos que encontramos em “Stop Moving To Florida”, logo a abrir o disco – não só não se trata de uma única música, como também não é um original, mas sim de um medley de “Stop”, de James Gang, e de “Moving to Florida”, dos Butthole Surfers. A aliar a uma parte inicial que se cola ao nosso ouvido, há após algo que parece um excerto de um film noir e que de certa forma resulta e não nos faz bocejar. Logo após, “Embrace The Rub”, que poderia bem ser um tema genial de qualquer banda pseudo-punk na linha de Green Day, The Offspring ou NOFX. Em 1:40 minutos, o enclave Buzz/Dale volta a surpreender tanto pela música cativante, como pelo refrão poppy perfeito e que sumariza um hit single apto para uma qualquer estação de rádio comercial. É com “Don’t Forget To Breathe” que o dueto regressa às suas raízes fuzz, essas mesmo que ajudaram a delinear o actual sludge e que, de uma assentada de quase 8 minutos, nos impregnam com uma mistura de rock sulista, arrastado como se quer, pesado e a lembrar o melhor que Nova Orleães ofereceu à música pesada nos últimos 35 anos. A inclusão de um dulcimer é apenas uma enorme cereja no topo desta gorda fatia de bolo.

Dulcimer esse que é substituído por um banjo em “Flamboyant Duck”, um curioso tema de pop/rock bastante indie e que entra facilmente pelos dois ouvidos, tal é a sua aparente simplicidade. “Break Bread” regressa à toada inicial do disco com um feeling de classic/psych/cock rock dos anos 60/70, nunca descurando o ritmo e a qualidade da composição, que é curta mas sólida. Depois, é vez da cover “I Want To Hold Your Hand”, dos The Beatles, e que já é tocada ao vivo pelos Melvins há séculos. Esta tem a particular importância de nos mandar de volta no tempo até 1993, tal é a semelhança deste som com o álbum “Houdini”, puro grunge/fuzz rock a lembrar nitidamente artistas mais cáusticos do movimento como Mudhoney. Como se já não bastasse a original ser um exemplo perfeito de música pop, a reinterpretação dos Melvins dá-lhe uma interessante roupagem nova de flanela e ganga. “Prenup Butter”, o penúltimo esforço, volta a pegar no rock com rédeas soltas, com muita guitarrada psicadélica e à la  Monster Magnet, mas com o fuzz sujo de sempre dos Melvins. Por fim, a última cover e tema do disco, “Graveyard”, dos Butthole Surfers, quase com a mesma cadência, mas mais orientada para o som marca-registada dos Melvins, bem como um sentido de bas fond menos apurado que o dos Butthole Surfers (como se fosse possível superá-lo).

Contas feitas, e voltando ao princípio, “Pinkus Abortion Technician” é uma mistura de bons temas originais e de covers interpretadas de forma original que serve como maquilhagem para disfarçar as nódoas negras e as rugas de uma puta e a transformar numa acompanhante de luxo. É semântica barra pleonasmo, de facto, mas não deixa de ser verdade. Não se trata do melhor disco dos Melvins em sabe-se lá quantos anos e nem vale a pena pegar nele por esse ângulo, claro, mas é um trabalho acima de interessante que parece roçar a declaração, algo na linha de ‘sim, somos os Melvins, mas, mesmo fazendo aquilo que queremos, fazemo-lo sempre com grande qualidade’. Logo, nunca será um trabalho marcante, mas será sempre um bom disco. Bom para ouvir entre amigos como som de fundo a meio-volume. Se a ideia for abanar a cabeça a sério, considerar “Houdini” ou “Gluey Porch Treatments”.

 

Reviews

Venom “Storm the Gates”

João Correia

Publicado há

-

Editora: Spinefarm Records
Data de lançamento: 14 Dezembro 2018
Género: black/thrash metal

É redutor (e até massacrante) referir a importância dos Venom no universo do metal extremo com tudo o que isso aparca: o início selvagem, as alterações de som, a saída dos membros fundadores, o drama envolvido nas disputas entre Venom e Venom Inc., etc.. Afinal, o que importa é sempre a música. Felizmente, estes Venom conseguem trazer-nos um disco de heavy metal da velha-guarda que ultrapassa todos os feudos possíveis, mesmo que de forma limitada.

“Storm The Gates” é o 15.º álbum de estúdio do nome Venom, e quando brilha (o pouco que brilha) é por culpa de Rage e Danté. Se estes dois integrantes pouco ou nada tinham para apresentar devido a passagens anteriores em bandas perfeitamente desconhecidas, é a eles que se deve a vitalidade que encontramos no novo disco, principalmente a Rage. A faixa de abertura “Bring Out Your Dead” revela-nos o que os Venom sempre tiveram como garantido – uma produção bastante agressiva, um som afiado que nem facas e uma secção de percussão simples, mas eficaz. Quanto à voz, mantém-se igual a tantos outros discos de Venom dos velhos tempos, mas quando percebemos as letras, quase que dá para chorar, se não vejamos esta infelicidade extraída de “Dark Night Of The Soul” e saída da pena de Cronos:

“Hey, you motherfucker
What you lookin’ at?
What a fucking loser
Acting like a twat!”

Felizmente, Rage apresenta-nos riffs e estruturas memoráveis, daquelas que entram e não saem e que rapidamente nos fazem esquecer a apatia e ausência de espírito de Cronos – quer no riff inicial de “Bring Out Your Dead”, quer na estrutura viciante de “Notorious”, é fácil de perceber que o pilar principal é o guitarrista. O trabalho de baixo é relativamente inexistente, como se o vocalista/baixista estivesse a cumprir calendário porque a isso é obrigado. O trabalho de bateria é competente, mas muito distante de fantástico. Outra vez – obrigado por salvares o disco, Rage.

As faixas vão-se sucedendo a um ritmo agradável e não causam aborrecimento a qualquer género de fã de metal, até porque se trata de um trabalho tradicional. O motivo para ‘espanto’ surge quando Rage debita um delicioso solo Maidenesco em “100 Miles To Hell”, uma das faixas em que Cronos mais se destaca, mesmo que sem brilhar. “Destroyer” evidencia um pouco mais Danté ao comando das baquetas, mas sem grande emoção. Entretanto, Rage congemina novamente um bom solo caótico, voltando a salvar o dia. “The Mighty Have Fallen” apresenta a passagem mais violenta/rápida de todo o disco, convencendo com a sua cadência e… (drum roll) não um, não dois, mas três majestosos solos de Rage a lembrarem Slayer antigo – vale a pena repetir a faixa apenas para os ouvir de novo. Na seguinte e também bastante rápida “Over My Dead Body” ocorre a simbiose entre Rage e Danté, criando um novo organismo que começa a parecer-se com uma banda clássica. Cronos balbucia qualquer coisa irrelevante e repete a palavra “Propaganda” demasiadas vezes, fazendo lembrar um animal encurralado que, por força das circunstâncias, tem de atacar em vez de se defender, mesmo que de forma atabalhoada e que por isso lhe poderá custar a vida, um tudo-ou-nada por assim dizer. Mesmo nas faixas finais “Suffering Dictates”, “We The Loud”, “Immortal” e a derradeira “Storm The Gate” vingam graças ao homem das seis cordas, que devia receber mais royalties deste disco do que qualquer outro dos seus músicos.

Assim é “Storm The Gates”: um trabalho acima de previsível, mas abaixo de cativante, e no qual o guitarrista de serviço faz a festa, lança os foguetes e apanha as canas, evidenciando-se e destacando-se do marasmo ou desinteresse de Cronos e da falta de culpa de Danté, o que evita que uma banda lendária se torne vítima de si própria. É fácil repetir a audição do disco; não se trata de um colossal tiro no pé, mas está muito aquém das expectativas que um disco de Venom costuma trazer. Outra vez: sem Rage ao comando, os Venom que ouvimos em “Storm The Gates” seria uma embarcação errática, desnorteada e pouco importada em chegar a terra firme.

Nota Final

Continuar a ler

Reviews

Obliteration “Cenotaph Obscure”

Rui Vieira

Publicado há

-

Editora: Indie Recordings
Data de lançamento: 23 Novembro 2018
Género: thrash/death metal

“Cenotaph Obscure” é a quarta investida em formato longo-ataque destes noruegueses oriundos de Kolbotn, local onde se formaram os míticos Darkthrone em 1986 (ainda como Black Death). O quarteto é relativamente ‘recente’ (2004) mas sobressai pela sua produção regular até este último álbum. A Noruega é mais conhecida pelo bacalhau e pelo black metal mas alguns nomes ligados ao death metal – Zyklon, Blood Red Throne, Myrkskog ou Cadaver – têm trilhado o seu ‘árduo’ caminho nos últimos anos e a esses juntam-se os Obliteration na sua batalha pelo reconhecimento, pois há mais vida para além do black metal na Noruega. Digamos que a receita é pouco ortodoxa: death clássico + pitada de black + doom q.b. e voilá! Um som que tem tanto de (semi) original como de difícil digestão. Quarenta minutos desta receita não é para qualquer um, pois não é death metal in your face, aquilo que o comum fã procura nesta sonoridade. As suas divagações por outros géneros musicais poderão dispersar a atenção e, de facto, é isso que acontece. Para além desse factor menos positivo e, pese embora as várias influências referidas, acresce falta de variedade ao longo destas sete faixas. Não transparece ao início com o tema-título mas com o avançar do álbum já não nos lembramos das faixas anteriores e esse é o indicador-mor se estamos perante algo memorável ou apenas passageiro. Gravado nos estúdios Cobra (Estocolmo) com Martin “Konie” Ehrencrona, a produção está óptima e orgânica, ouvindo-se todos os instrumentos na perfeição, e mesmo a bateria, ainda que meio necro, está em bom plano e adequada à sonoridade final. Mas mesmo todas as qualidades técnicas e resultado final não são suficientes para retirar este álbum da mediania.

Nota Final

Continuar a ler

Reviews

Kishi “Depois da Meia Noite”

Diogo Ferreira

Publicado há

-

Editora: independente
Data de lançamento: 10 Dezembro 2018
Género: stoner rock

Lá para os lados do Japão há um Ichi the Killer, em Angola há um Kishi que é mestre da dor, um demónio animal, um filho daquela terra. Fundados em Outubro de 2017, o quarteto que toca stoner lançará brevemente o primeiro álbum “Depois da Meia Noite”, trabalho que tem uma abordagem muito directa ao género musical. Sim, é stoner como tantas outras bandas, mas com uma aptidão de espontaneidade interessante. Isto é, a maioria das faixas (são oito ao todo) nem chegam aos três minutos de duração – como uma atitude punk – e são assim comprimidas em malhas distorcidas bastante orelhudas que fornecem um groove que faz o corpo gingar. Soando mais a estrada do que a deserto, há ainda um baixo gordo que se vai ouvindo bem e uma bateria coesa que sabe onde estar neste estilo. Por fim, mas igualmente importante, até porque é dos primeiros elementos que saltam ao ouvido, a voz rouca está muito bem aplicada e pensada.

Apesar de toda a straightness, os Kishi acabam por deixar que outros pozinhos de perlimpimpim extra-stoner se intrometam neste empreendimento – a saber: a faixa “Som da Birra” incute-nos paisagens psicadélicas e a última “Kianda” encarrega-se de nos relembrar de Black Sabbath. Nota mais ainda para a utilização de língua portuguesa no tema homónimo, algo que aparenta assentar de forma sincera, mais do que o inglês, na sonoridade desta banda sediada em África. Não são obviamente a única banda rock/metal vinda de Angola (há, por exemplo, Horde Of Silence e Dor Fantasma) mas, e com este “Depois da Meia Noite”, os Kishi podem muito bem ser a catapulta que falta a esse país para invadirem, pelo menos, o underground português – a língua é a mesma, é de aproveitar!

Nota Final

Continuar a ler

Facebook

#UltrajeRadar

Ultraje #19