Nihil Eyes: experiências mentais (entrevista c/ Casey Jones) – Ultraje – Metal & Rock Online
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Nihil Eyes: experiências mentais (entrevista c/ Casey Jones)

Nihil Eyes e o seu álbum de estreia “Black Path” são a aposta mais recente da Ultraje enquanto editora. Lançado digitalmente na segunda metade de 2017, o disco debutante dos britânicos vê-se agora renovado com uma edição física lançada e distribuída pela Ultraje. Em três perguntas directas, que se tornaram em respostas detalhadas, Casey Jones (voz/guitarra) fala de “Black Path”, lírica e sonoramente, como mais ninguém o poderia fazer e ainda deixar no ar aquilo que a banda trará num futuro não muito distante. (“Black Path” pode ser adquirido AQUI)

«“Black Path” é verdadeiramente a nossa visão de como gostaríamos que o death metal tivesse evoluído se as editoras não tivessem fodido tudo nos anos 1990.»

É sabido que “Black Path” é uma série de experiências de pensamento psicológico que exploram a condição humana. Com que tipo de pensamentos e posturas estamos a lidar?
Todas as músicas olham para um aspecto diferente da psique humana, principalmente em relação aos aspectos que se associam a alguma forma de doença mental. Em cada uma das músicas há uma pequena história, e nessa história estará contida uma experiência de pensamento. Dentro disso tento colocar-me em vários pontos de vista e reflectir sobre as motivações e o processo de pensamento dos personagens. Acho que é algo que descobri ser uma ferramenta útil para a auto-exploração.
Por exemplo, na faixa “Nihil Eyes” tentei entrar no espaço mental de alguém que vê o mundo de um ponto de vista niilista e os perigos que isso acarreta – uma coisa é dizer que nada significa nada, mas a maioria das pessoas não acredita nisso. Então, quando começas realmente a pensar nisso, pensas em todas as consequências que isso pode trazer e em como te tornas autodestrutivo e do que podes ser capaz em tais circunstâncias. Bem, isto torna-se num conceito muito mais aterrorizante, e podes acabar a implorar para não ver ou não pensar nessas coisas, que obviamente não podem ser feitas. Na música, o protagonista volta-se para deus porque deseja remover esses pensamentos da cabeça dele, o que também não ajuda muito à situação, portanto fica sem esperança e sem reparo.
Todas as faixas adoptam uma experiência de pensamento, uma história e um estilo lírico semelhantes, mas cada uma examina diferentes aspectos. Existem algumas canções que olham para o pesar e algumas para o egoísmo e o narcisismo no abandono. Tento ter pontos de vista diferentes em cada música para tornar tudo mais interessantes. Ao mesmo tempo, não acho que toda a gente queira pensar sobre coisas tão profundas – às vezes só queres ouvir uma música e curtir, por isso temos muito cuidado para que o álbum também funcione como um conjunto de músicas de metal.

“Black Path” soa muito old-school e é adequado para fãs de Carcass e Bolt Thrower, mas há um toque de modernidade nele. Foi um dos principais objectivos?
A resposta honesta é que, quando começámos a escrever, não tínhamos nenhum objectivo em relação a como seria o som. Falámos sobre as nossas principais influências e das demos que trocámos entre nós para percebermos onde iríamos sonicamente. Mas não acabou por soar como qualquer um de nós tinha planeado. Muitas pessoas falam sobre as coisas acontecerem organicamente, mas não tenho a certeza se isso acontece muitas vezes. Mas realmente acho que concordámos o suficiente em relação aos nossos gostos musicais e também concordámos para onde tudo deveria seguir. Isso acontece quase sempre e conseguimos sentir quando as coisas precisam de mudar.
“Black Path” é verdadeiramente a nossa visão de como gostaríamos que o death metal tivesse evoluído se as editoras não tivessem fodido tudo nos anos 1990. Obviamente, desde aquele período apareceram diferentes técnicas e estilos de tocar ou tornaram-se mais populares. Alguns desses aspectos modernos aparecem e, de certa forma, há mais opções agora; por exemplo, blastbeats são muito mais populares e sweep picking é uma cena grande. Acho que estávamos conscientes que o que queríamos fazer era escrever músicas que fossem basicamente o tipo de música com que crescemos e pelas razões que amamos – a sensação, o peso e os ganchos, e tudo o resto deverá existir apenas para melhorar esses aspectos. É muito fácil deixarmo-nos levar e acabarmos a exibir-nos por cinco minutos e estragar tudo que fez uma música ser óptima – portanto tentamos ficar de olho nisso.
Obviamente, os discos já não são feitos como costumavam ser, ao ponto de alguns aspectos modernos aparecerem no som durante os processos de produção e mistura. Podemos gravar muito mais faixas agora do que poderíamos num estúdio analógico e a qualidade do som é mais limpa, mas tem uma sensação diferente. Todavia, tentamos usar os truques de estúdio ao mínimo e estávamos a apontar para algo que tivesse os melhores aspectos da velha e da nova escola. O Dan Swanö [produtor] teve um enorme impacto nisso. Pedimos-lhe algo que fosse semelhante ao som do “Heartwork” [Carcass] e ele voltou com algo que realmente excedeu as nossas expectativas e tinha todos os aspectos da produção moderna e retro que amamos sem nenhuma das porcarias. E apesar de estarmos a ser tendenciosos, também somos duros críticos de nós mesmos, e achamos que [o disco] soa bem como o caralho.

Foi revelado que já estão a trabalhar no próximo álbum. Como está a soar nesta altura?
Acabámos de concluir algumas músicas nesta fase, mas temos a estrutura de um álbum com as músicas no lugar delas. É sempre difícil dizer, já que as coisas podem mudar drasticamente num curto espaço de tempo, mas desta vez acho que há um pouco mais de thrash nos riffs e há algo um pouco mais sinistro na sensação. De momento, para mim, parece um cruzamento entre o “The IVth Crusade” [Bolt Thrower] e o “Divine Intervention” [Slayer], mas ainda há tempo para desenvolvimento, pois isso vamos ver.
Neste momento estamos a escolher se preferimos gravar um EP no final do ano ou se aguardamos por um álbum para o início do próximo ano. Estivemos bastante ocupados nisso e encontrámos um óptimo segundo guitarrista chamado Tomek, das lendas polacas Tuff Enuff e Szymon. [O Tomek] tem um EP com a sua outra banda, os Asterian, a sair, no qual estou a tratar da mistura e a participar como vocalista convidado, portanto em Nihil Eyes tem sido tudo mais lento do que o ano passado, mas isso pode ser uma bênção. Também estou agradavelmente surpreso com o quanto todos nós melhorámos e acho que a confiança, particularmente na minha voz, permitir-nos-á ser um pouco mais ambiciosos na próxima vez.

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