Process Of Guilt: Os Filhos da Terra (entrevista c/ Hugo Santos – parte 2) – Ultraje – Metal & Rock Online
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Process Of Guilt: Os Filhos da Terra (entrevista c/ Hugo Santos – parte 2)

 

PoG-Pedro_AlmeidaFoto: Pedro Almeida

«Tocar [no VOA] de frente para o sol às cinco da tarde foi algo que nos custou muito… Não por ser àquela hora, até porque já tocámos noutros festivais àquela hora. Mas porque fisicamente foi das coisas mais duras que já fizemos até hoje.»

Um bar de Laser Tag  algures em Alfragide é dos últimos sítios em que se imagina encontrar um dos ícones do post-metal/sludge nacional e um dos mais emergentes nomes da cena europeia. E no entanto, num final de tarde de Dezembro, é por lá que a nossa conversa com Hugo Santos se desenrola, ora calma e pacífica apenas com o som da música ambiente como fundo, ora mais vociferada quando grupos de miúdos saem da arena de Laser Tag com a adrenalina no máximo, aos gritos e a roçar o descontrolado. No fundo, e de uma maneira poética, um pouco como a música dos Process Of Guilt. Foi, no entanto, um longo caminho desde o doom/death metal do álbum de estreia “Renounce” até à espécie de filhos bastardos do sludge/post-metal e de Bolt Thrower que editou “Black Earth”. «As nossas influências não mudaram assim tanto e não ouvimos assim tanta coisa diferente daquilo que ouvíamos quando começámos a banda. Se calhar as bandas que nós ouvíamos quando começámos o projecto é que mudaram num sentido que não nos agrada nada», diz o músico quando lhe perguntamos se as influências musicais se mantiveram sempre as mesmas ao longo da carreira do grupo. «Dentro do doom e dessas sonoridades mais melódicas há bandas que considerávamos mais certinhas – do género ‘esta banda faz sempre um bom disco’ – e que começaram a editar discos que lhes perdi a conta. Porque a partir de 2006 ou 2007 perdi o interesse nessas bandas. Continuamos sempre a ouvir grupos novos e músicas novas, mas há duas ou três influências que já existiam até na altura do [primeiro álbum] “Renounce” e que fomos explorando. E o que é um facto é que o “Black Earth” acaba por ter as mesmas referências do “Fæmin” e até do “Erosion”. Trazíamos era outro conjunto de referências do “Renounce”, que foi um álbum que resultou de um conjunto de músicas que tínhamos, ao contrário de todos os outros daí para a frente, que foram conjuntos de músicas que construímos para serem um álbum. São coisas diferentes.» Quando lhe perguntamos se o trabalho de composição dos Process Of Guilt é, por estes dias, uma obra mais de inspiração ou de transpiração, Hugo Santos não precisa de pensar muito antes de responder. E começa por dizer: «É as duas coisas.» Depois prossegue: «Tem de haver inspiração, tem de haver alguma coisa que nos agarre e que seja diferente do que já fizemos… Que possa ser parecida em espírito, mas que seja diferente e que nos faça ter ali um momento ‘Ahah!’. Há um riff, um ritmo ou qualquer outra coisa que nos faz ter um encadeamento de ideias, mas se não for aquela inspiração inicial – que pode ser em casa agarrado à guitarra ou pode acontecer em 30 segundos num ensaio –, não acontecem as tais cinco horas de transpiração. E às vezes vai tudo embora. Foi o que nos aconteceu antes do “Black Earth”… Literalmente, mandámos tudo embora.»

Tudo aquilo que esta nossa conversa com Hugo vai trazendo à baila – inspiração, transpiração, oportunidades perdidas e agarradas, estar no momento certo à hora certa – acaba por desaguar na pergunta-chave que se faz sempre a uma banda portuguesa com mais de uma década de carreira: será que a qualidade da música, por si só, conta para o sucesso de um projecto? Desta vez a resposta chega sem que o olhar fuja para longe – «Não.» «Quando tivemos de recomeçar a compor para este disco, fizemos um reset entre nós próprios e pensámos ‘isto é uma coisa que fazemos e só faz sentido se fizer sentido para nós’. Eu nunca tinha posto em questão a banda e pela minha cabeça na altura passaram perguntas como ‘será que faz sentido?’. Foi a primeira vez que me lembro de falarmos, quando estávamos em fase catastrófica de incerteza, e de dizermos: ‘Isto se não for para nós fazermos alguma coisa que achamos que vale a pena, que a música ainda é relevante para nós e nos dá prazer tocar, não vale a pena.’ E não vamos fazer isto para sempre… Já estamos cá há 15 anos, foi a primeira vez que pensámos nisso e somos os mesmos desde sempre.» E, de repente, estamos a conversar sobre o que leva os Process Of Guilt a continuarem a tocar e a motivarem-se, mesmo quando sabem, no seu íntimo, que seja qual for a qualidade da sua música, o resultado a nível de popularidade não mudará muito. «As bandas – em Portugal, ou até as bandas que serviram de alguma forma de âncora ao doom – a certa altura acharam que tinham de começar a cantar, que tinham de ter temas para mostrar lá em casa à família e dizerem: ‘Olhem, afinal também sou um artista. Também consigo fazer músicas, passamos na televisão e tenho aqui um video-clip. De repente agora canto, faço solos e isto é tudo muito bonito e melódico’. É legítimo, e há bandas dessas de que continuo a gostar, mas não foi isso que me atraiu para elas em primeira instância. Foi porque faziam som extremo e eram diferentes de outras coisas que havia na altura. Porque sons mais acessíveis sempre houve – e bons, e ainda bem. E essas bandas, algumas fizeram discos bons e outras fizeram discos miseráveis e fazem-nos ainda hoje. Quando as pessoas perceberam que estamos a tocar algumas músicas novas… Foi a “Servant” primeiro, depois houve um concerto onde tocámos a “Hoax” e a “Feral Ground”, e aquilo foi do camandro, ninguém percebeu o que estávamos a fazer mas as pessoas disseram que foi muito intenso. E fiquei a pensar ‘epá, espera aí…’. E até pelas reacções nos finais dos concertos. Tivemos uma experiência diferente no VOA, porque tocar de frente para o sol às cinco da tarde foi algo que nos custou muito… Não por ser àquela hora, até porque já tocámos noutros festivais, noutras alturas da banda, àquela hora. Mas porque fisicamente foi das coisas mais duras que já fizemos até hoje. Mas estava lá gente à frente. Acho que das últimas vezes que me lembro de falar no microfone foi para agradecer àqueles 50, 70 ou 80 que lá estavam à frente a apanhar um sol horrível, sob condições horríveis. E no final do concerto encontrei gente que tinha vindo de fora do país para nos vir ver e que a seguir se ia embora. E isso, se no início não nos dizia muito, agora deixa-me contente, porque enquanto fã de música também já fiz isso por outras bandas e nós nunca tínhamos tido ainda esse nível de reacção à nossa música, de as pessoas nos quererem cumprimentar no final dos concertos. Não estamos habituados a isso, não somos essa banda. Somos quatro gajos – cinco com o Fernando [Mendes, técnico de som] que foram ali fazer aquilo que têm a fazer. Mas pela primeira vez desde o “Renounce” e dos primeiros concertos, temos este nível de reconhecimento que, sinceramente, nunca tínhamos dado por ele de uma forma tão vincada.»

«As pessoas querem cumprimentar-nos no final dos concertos. Não estamos habituados a isso, não somos essa banda.»

O que nos leva a outra pergunta que toda a gente já se colocou sobre os Process Of Guilt: como raio uma banda dura 15 anos sem uma única mudança de formação? Para Hugo Santos a palavra-chave é comprometimento, mas também existe uma explicação etária para o facto: «Formei o projecto mais tarde, não fiz uma banda de miúdos adolescentes. Aliás, todos eles tinham experiência de ter bandas na adolescência, mas Process Of Guilt surgiu há 15 anos, quando eu já tinha uns 25. Nessa fase da vida, quando pensamos em fazer um grupo, o grau de comprometimento já é diferente. As pessoas já são mais velhas, já têm outras responsabilidades… Algumas já trabalham. As nossas idades também não são todas as mesmas. Mas a dedicação que houve desde o início, a forma como os ensaios são regulares e o facto de em algum momento a dedicação de um ou de outro não ser a mais indicada – porque a vida é feita de outras coisas também – e os outros não baixarem a bitola e continuarmos sempre com o mesmo registo, faz com que isso seja uma coisa sobre a qual nós não falamos, ponto. Nunca falámos sobre porque somos nós e não são outros quaisquer. Já tivemos obviamente momentos menos positivos no passado, mas hoje em dia as coisas são assim porque para nós isto só faz sentido porque precisamos mesmo de fazer isto. Chegámos a um ponto em que concluímos que, para a nossa gestão mundana, isto é efectivamente o nosso escape.»

Para uma banda que deu os primeiros passos em Évora, ter apenas um quarto dos seus elementos naquela cidade, enquanto outros dois vivem em Lisboa e um outro em Mafra, pode representar uma mudança de paradigma. Ou, pelo menos, a perda daquele ruralismo duro, negro e frio das noites de Inverno eborenses passadas a tocar num barracão. Para Hugo Santos, no entanto, a questão não se coloca em termos de os Process Of Guilt serem uma banda diferente: «O que sentimos é que somos uma banda muito melhor do que a que estava em Évora», diz entre risos. «Este ano [2017], após algo que estávamos à espera que se concretizasse e não se concretizou, fiquei ali cinco minutos abatido mas depois lembrei-me: ‘Não, espera lá. O copo está meio cheio ou meio vazio dependendo das coisas.’ Nós continuamos a ser aquilo que éramos… Uma banda que começou a gravar uma maqueta num computador e de repente estamos literalmente num barracão a cair, em que chovia dentro, aí sim mesmo rural, que nem sequer era bem em Évora – era num bairro mais ou menos periférico – em condições péssimas, com instrumentos que não eram os melhores. Ainda hoje somos, mas na altura éramos mesmo muito amadores e com uma carga de inocência relativamente ao meio e à forma como se fazia música que hoje não temos. Mas quando faço essa ponte, de como isto começou e onde nós estamos, epá, somos uma banda infinitamente melhor do que naquela altura. Não temos as dúvidas que tínhamos na altura… Temos outras, como certamente outras bandas têm sempre, porque já percebi que as dificuldades são as mesmas e só muda a escala.»

Parte 1 da entrevista AQUI.

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