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Process Of Guilt: Os Filhos da Terra (entrevista c/ Hugo Santos – parte 2)

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PoG-Pedro_AlmeidaFoto: Pedro Almeida

«Tocar [no VOA] de frente para o sol às cinco da tarde foi algo que nos custou muito… Não por ser àquela hora, até porque já tocámos noutros festivais àquela hora. Mas porque fisicamente foi das coisas mais duras que já fizemos até hoje.»

Um bar de Laser Tag  algures em Alfragide é dos últimos sítios em que se imagina encontrar um dos ícones do post-metal/sludge nacional e um dos mais emergentes nomes da cena europeia. E no entanto, num final de tarde de Dezembro, é por lá que a nossa conversa com Hugo Santos se desenrola, ora calma e pacífica apenas com o som da música ambiente como fundo, ora mais vociferada quando grupos de miúdos saem da arena de Laser Tag com a adrenalina no máximo, aos gritos e a roçar o descontrolado. No fundo, e de uma maneira poética, um pouco como a música dos Process Of Guilt. Foi, no entanto, um longo caminho desde o doom/death metal do álbum de estreia “Renounce” até à espécie de filhos bastardos do sludge/post-metal e de Bolt Thrower que editou “Black Earth”. «As nossas influências não mudaram assim tanto e não ouvimos assim tanta coisa diferente daquilo que ouvíamos quando começámos a banda. Se calhar as bandas que nós ouvíamos quando começámos o projecto é que mudaram num sentido que não nos agrada nada», diz o músico quando lhe perguntamos se as influências musicais se mantiveram sempre as mesmas ao longo da carreira do grupo. «Dentro do doom e dessas sonoridades mais melódicas há bandas que considerávamos mais certinhas – do género ‘esta banda faz sempre um bom disco’ – e que começaram a editar discos que lhes perdi a conta. Porque a partir de 2006 ou 2007 perdi o interesse nessas bandas. Continuamos sempre a ouvir grupos novos e músicas novas, mas há duas ou três influências que já existiam até na altura do [primeiro álbum] “Renounce” e que fomos explorando. E o que é um facto é que o “Black Earth” acaba por ter as mesmas referências do “Fæmin” e até do “Erosion”. Trazíamos era outro conjunto de referências do “Renounce”, que foi um álbum que resultou de um conjunto de músicas que tínhamos, ao contrário de todos os outros daí para a frente, que foram conjuntos de músicas que construímos para serem um álbum. São coisas diferentes.» Quando lhe perguntamos se o trabalho de composição dos Process Of Guilt é, por estes dias, uma obra mais de inspiração ou de transpiração, Hugo Santos não precisa de pensar muito antes de responder. E começa por dizer: «É as duas coisas.» Depois prossegue: «Tem de haver inspiração, tem de haver alguma coisa que nos agarre e que seja diferente do que já fizemos… Que possa ser parecida em espírito, mas que seja diferente e que nos faça ter ali um momento ‘Ahah!’. Há um riff, um ritmo ou qualquer outra coisa que nos faz ter um encadeamento de ideias, mas se não for aquela inspiração inicial – que pode ser em casa agarrado à guitarra ou pode acontecer em 30 segundos num ensaio –, não acontecem as tais cinco horas de transpiração. E às vezes vai tudo embora. Foi o que nos aconteceu antes do “Black Earth”… Literalmente, mandámos tudo embora.»

Tudo aquilo que esta nossa conversa com Hugo vai trazendo à baila – inspiração, transpiração, oportunidades perdidas e agarradas, estar no momento certo à hora certa – acaba por desaguar na pergunta-chave que se faz sempre a uma banda portuguesa com mais de uma década de carreira: será que a qualidade da música, por si só, conta para o sucesso de um projecto? Desta vez a resposta chega sem que o olhar fuja para longe – «Não.» «Quando tivemos de recomeçar a compor para este disco, fizemos um reset entre nós próprios e pensámos ‘isto é uma coisa que fazemos e só faz sentido se fizer sentido para nós’. Eu nunca tinha posto em questão a banda e pela minha cabeça na altura passaram perguntas como ‘será que faz sentido?’. Foi a primeira vez que me lembro de falarmos, quando estávamos em fase catastrófica de incerteza, e de dizermos: ‘Isto se não for para nós fazermos alguma coisa que achamos que vale a pena, que a música ainda é relevante para nós e nos dá prazer tocar, não vale a pena.’ E não vamos fazer isto para sempre… Já estamos cá há 15 anos, foi a primeira vez que pensámos nisso e somos os mesmos desde sempre.» E, de repente, estamos a conversar sobre o que leva os Process Of Guilt a continuarem a tocar e a motivarem-se, mesmo quando sabem, no seu íntimo, que seja qual for a qualidade da sua música, o resultado a nível de popularidade não mudará muito. «As bandas – em Portugal, ou até as bandas que serviram de alguma forma de âncora ao doom – a certa altura acharam que tinham de começar a cantar, que tinham de ter temas para mostrar lá em casa à família e dizerem: ‘Olhem, afinal também sou um artista. Também consigo fazer músicas, passamos na televisão e tenho aqui um video-clip. De repente agora canto, faço solos e isto é tudo muito bonito e melódico’. É legítimo, e há bandas dessas de que continuo a gostar, mas não foi isso que me atraiu para elas em primeira instância. Foi porque faziam som extremo e eram diferentes de outras coisas que havia na altura. Porque sons mais acessíveis sempre houve – e bons, e ainda bem. E essas bandas, algumas fizeram discos bons e outras fizeram discos miseráveis e fazem-nos ainda hoje. Quando as pessoas perceberam que estamos a tocar algumas músicas novas… Foi a “Servant” primeiro, depois houve um concerto onde tocámos a “Hoax” e a “Feral Ground”, e aquilo foi do camandro, ninguém percebeu o que estávamos a fazer mas as pessoas disseram que foi muito intenso. E fiquei a pensar ‘epá, espera aí…’. E até pelas reacções nos finais dos concertos. Tivemos uma experiência diferente no VOA, porque tocar de frente para o sol às cinco da tarde foi algo que nos custou muito… Não por ser àquela hora, até porque já tocámos noutros festivais, noutras alturas da banda, àquela hora. Mas porque fisicamente foi das coisas mais duras que já fizemos até hoje. Mas estava lá gente à frente. Acho que das últimas vezes que me lembro de falar no microfone foi para agradecer àqueles 50, 70 ou 80 que lá estavam à frente a apanhar um sol horrível, sob condições horríveis. E no final do concerto encontrei gente que tinha vindo de fora do país para nos vir ver e que a seguir se ia embora. E isso, se no início não nos dizia muito, agora deixa-me contente, porque enquanto fã de música também já fiz isso por outras bandas e nós nunca tínhamos tido ainda esse nível de reacção à nossa música, de as pessoas nos quererem cumprimentar no final dos concertos. Não estamos habituados a isso, não somos essa banda. Somos quatro gajos – cinco com o Fernando [Mendes, técnico de som] que foram ali fazer aquilo que têm a fazer. Mas pela primeira vez desde o “Renounce” e dos primeiros concertos, temos este nível de reconhecimento que, sinceramente, nunca tínhamos dado por ele de uma forma tão vincada.»

«As pessoas querem cumprimentar-nos no final dos concertos. Não estamos habituados a isso, não somos essa banda.»

O que nos leva a outra pergunta que toda a gente já se colocou sobre os Process Of Guilt: como raio uma banda dura 15 anos sem uma única mudança de formação? Para Hugo Santos a palavra-chave é comprometimento, mas também existe uma explicação etária para o facto: «Formei o projecto mais tarde, não fiz uma banda de miúdos adolescentes. Aliás, todos eles tinham experiência de ter bandas na adolescência, mas Process Of Guilt surgiu há 15 anos, quando eu já tinha uns 25. Nessa fase da vida, quando pensamos em fazer um grupo, o grau de comprometimento já é diferente. As pessoas já são mais velhas, já têm outras responsabilidades… Algumas já trabalham. As nossas idades também não são todas as mesmas. Mas a dedicação que houve desde o início, a forma como os ensaios são regulares e o facto de em algum momento a dedicação de um ou de outro não ser a mais indicada – porque a vida é feita de outras coisas também – e os outros não baixarem a bitola e continuarmos sempre com o mesmo registo, faz com que isso seja uma coisa sobre a qual nós não falamos, ponto. Nunca falámos sobre porque somos nós e não são outros quaisquer. Já tivemos obviamente momentos menos positivos no passado, mas hoje em dia as coisas são assim porque para nós isto só faz sentido porque precisamos mesmo de fazer isto. Chegámos a um ponto em que concluímos que, para a nossa gestão mundana, isto é efectivamente o nosso escape.»

Para uma banda que deu os primeiros passos em Évora, ter apenas um quarto dos seus elementos naquela cidade, enquanto outros dois vivem em Lisboa e um outro em Mafra, pode representar uma mudança de paradigma. Ou, pelo menos, a perda daquele ruralismo duro, negro e frio das noites de Inverno eborenses passadas a tocar num barracão. Para Hugo Santos, no entanto, a questão não se coloca em termos de os Process Of Guilt serem uma banda diferente: «O que sentimos é que somos uma banda muito melhor do que a que estava em Évora», diz entre risos. «Este ano [2017], após algo que estávamos à espera que se concretizasse e não se concretizou, fiquei ali cinco minutos abatido mas depois lembrei-me: ‘Não, espera lá. O copo está meio cheio ou meio vazio dependendo das coisas.’ Nós continuamos a ser aquilo que éramos… Uma banda que começou a gravar uma maqueta num computador e de repente estamos literalmente num barracão a cair, em que chovia dentro, aí sim mesmo rural, que nem sequer era bem em Évora – era num bairro mais ou menos periférico – em condições péssimas, com instrumentos que não eram os melhores. Ainda hoje somos, mas na altura éramos mesmo muito amadores e com uma carga de inocência relativamente ao meio e à forma como se fazia música que hoje não temos. Mas quando faço essa ponte, de como isto começou e onde nós estamos, epá, somos uma banda infinitamente melhor do que naquela altura. Não temos as dúvidas que tínhamos na altura… Temos outras, como certamente outras bandas têm sempre, porque já percebi que as dificuldades são as mesmas e só muda a escala.»

Parte 1 da entrevista AQUI.

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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RDB: corridos à pedrada (entrevista c/ Micael Olímpio)

João Correia

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«Não julgues que te vais embora a falar mal da Covilhã», diz Micael Olímpio, baixista dos Raw Decimating Brutality (RDB), enquanto mete dois copos na mesa e abre uma garrafa de Grant’s Signature. O Micael convidou a Ultraje Magazine para dois dedos de conversa em sua casa para falarmos um pouco sobre “Era Matarruana”, o último trabalho do colectivo das antigas e profanas montanhas da Beira Interior. Ainda a entrevista não ia a meio e Micael já abria uma segunda garrafa, desta vez uma Logan de 12 anos. Tentámos recusar firmemente e educadamente a oferta, mas ele tanto insistiu que seria má educação passar. Copos puxam conversa e, entre outras coisas, falámos de Coimbra, do DJ A Boy Named Sue, de The Legendary Tigerman, do Barracuda Clube… Enfim, com uma conversa com o Micael percebemos que o país é bem mais pequeno do que se julga.

Primeiro whisky. “Era Matarruana”, sucessor de “Obra Ó Diabo!” em que os RDB passaram a pente fino a nobre arte da construção civil, é um disco que se encontra a universos de distância do seu predecessor no que toca a produção e instrumentalismo, mas é no conceito lírico que ele mais se distingue ao explorar a Proto-História portuguesa: os celtas, o paganismo, a importância da pedra no desenvolvimento da civilização, as montanhas por associação. Embora o género musical se mantivesse (grindcore), a primeira questão teria de incidir forçosamente no porquê de uma mudança lírica e conceitual tão radical e a prestar vassalagem ao misticismo dos pedregulhos. «Desde o princípio que os RDB abordam temáticas diferentes: o “Sperm To Grind Your Ears” está relacionado com esperma, o split está relacionado com estrume [risos]… Todos os temas têm uma relação pessoal connosco, ou com pelo menos um dos membros da banda, e quando debatemos essas ideias elas passam a ser transversais. No caso do “Obra Ó Diabo!”, centrámo-nos nas nossas experiências de putos nos anos 80, quando houve o boom da construção civil – íamos brincar para prédios em construção, fazer merda, e focámo-nos nesses tempos. Em relação ao “Era Matarruana”, o Daniel Gamelas [vocalista] tem uma grande proximidade com tudo o que tenha a ver com misticismo e deuses dentro da arte. Foi uma temática que ele quis explorar. No fundo, ele acabou por fazer investigação sobre esses tempos proto-históricos, achámos piada e acabámos por seguir esse conceito. O Daniel é que fez a maior parte da investigação, embora os nomes das músicas tivessem surgido nos ensaios – sempre foi assim com os RDB, desde a construção musical aos nomes dos temas, sempre em conluio uns com os outros.»

Segundo whisky. A pesquisa de que Micael fala é por demais profunda – por exemplo, “Reve Marandicui” é o nome de uma das principais deidades galaico-lusitanas do tempo dos celtas. Assim como esta faixa, os RDB falam amiúde sobre pedregulhos em temas como “Calhau no Quintal”, “Falos em Pedra” e “As Forças Ocultas dos Cromeleques”. Tudo isto indica um fétiche por pedras mas, embora o Daniel tivesse sido o criador do conceito, não ficou muito clara a forma como o vocalista surgiu com ele. «O Gamelas “trabalha a pedra”. [risos] Bom, não trabalha pedra, mas trabalha outros materiais. Eu não sou a pessoa mais indicada para falar de arte, mas ele é artista plástico. Parece-me que a escultura em pedra é uma das muitas facetas da escultura, pois os materiais com que geralmente trabalha não têm nada a ver com pedras. Pesquisámos sobre cromeleques e menires, que são coisas distintas, e escolhemos abordar esse temas porque ainda hoje não há uma conclusão generalizada sobre o propósito dessas esculturas, não sabemos para que serviam. Ritos funerários, fecundidade… Existem várias hipóteses, mas nenhuma é conclusiva. Derivado ao contacto que o Gamelas teve com a História da Arte, ele desenvolveu essa parte da História e, por outro lado, foi-nos explicando os períodos temporais. Ele situa o trabalho na Idade do Ferro. A cena dos cromeleques estava associada ao conceito e estivemos para ir gravar a Viseu, mas acabámos por gravar no Cromeleque dos Almendres. Sempre tivemos uma relação com tudo o que fosse de granito.»

Terceiro (talvez quarto) whisky. “Era Matarruana” apresenta nomes de faixas como “Chama Sacrifical”, “Devaneio do Homem Cabra” ou “Invocação da Serpente Colossal”. Se num álbum de black metal isto seria o prato do dia, num de grindcore é coisa mesmo muito rara, se não mesmo única. A própria capa do disco parece pertencer ao universo do black metal primitivo – um daqueles discos que, antes de o metermos a tocar, já sabemos o que vai sair dele. Imaginemos agora um fã de black metal incauto que comprasse o disco pela capa – o resultado seria o previsto, certamente. Quase que parece que os RDB decidiram gozar com a cena do black metal. «Nada, nada, nada. Muito pelo contrário, até porque o Daniel e o João [Rocha, baterista] ouvem black metal frequentemente; eu, nem por isso. Houve até acontecimentos dentro desse movimento que acabaram por ridicularizar o estilo, mas o nosso objectivo não teve nada a ver com isso. Na verdade, até é quase uma homenagem, pois sempre gostámos de música obscura, rápida e pesada. O humor dos RDB continua lá, mas existe uma seriedade à mistura que provém do nosso interesse pelo oculto.»

Pegando no ponto do humor, seria impossível não referir as letras – autênticas odes ao disparate repletas de aliterações, anáforas e onomatopeias. É basicamente impossível de entender as letras de “Era Matarruana” e, assim, ficámos sem saber de que tratam e a que se referem, se é que a alguma coisa. Embora mais sério que discos anteriores, “Era Matarruana” não é propriamente um exercício de conservadorismo. No entanto, ficámos surpreendidos pelo facto de os RDB terem ido até ao princípio da Humanidade e da tradição oral. «Falamos, por exemplo, de divindades; e acabámos por criar algumas. [risos] Em “Devaneio do Homem Cabra” estamos a falar de… de… de um Satanás que tem um devaneio [risos] e o devaneio dele é gritar, aterrorizar  as populações… E a música exprime isso – tem aqueles berros mais… Pá, só ouvindo é que irão perceber. A “Martelos de Larouco” tem a ver com uma divindade. Embora não existam muitos registos dela, trata-se de uma deidade minúscula que tinha um mangalho enorme. A “Sob a Égide do Deus Cornudo” fala por si própria – penso que toda a gente se aperceba do que estamos a falar. E depois há temas como “A Fonte de Onde Brotam as Bestas”, uma invenção nossa que fala simplesmente de uma fonte que, de onde deveria brotar água, brotam bestas. [risos] A “Ressurgimento do Indígena Serrano” está associada às gentes da serra – é quando o serrano se revolta contra os povos invasores. Pensa em Viriato, por exemplo. Em suma, interpretamos algumas lendas à nossa maneira e inventamos outras.»  

Passámos para o esforço da produção, também ele com uma qualidade cinco estrelas. “Era Matarruana” atinge um som moderno mas grave, podre mas bom. Este passo em frente significativo foi confiado a ninguém menos do que Miguel Tereso, que já dispensa apresentações nestas lides. É natural que, ao fim de tantos anos na cena, as pessoas cresçam, amadureçam e procurem um profissionalismo superior a todos os trabalhos anteriores. «Queríamos que as pessoas sentissem a rapidez, mas também o peso da cena com uma boa produção. Actualmente, o Miguel é a pessoa que está a fazer o melhor trabalho de produção em Portugal. Queríamos um som… [pausa] podre, mas o que mais queríamos era que fosse grave. Queríamos um som mais old-school por um lado, focado principalmente nas guitarras. Inicialmente, as faixas não eram tocadas assim, mas, se as tocássemos mais rápido, não se iria perceber. A solução foi dar também destaque ao baixo, que é um factor determinante no “Era Matarruana”. Ao fim e ao cabo, está uma produção muito mais limpa do que aquela a que os RDB estão habituados, mas é natural, pois também evoluímos. Por isso mesmo é que procurámos um gajo como o Miguel. Ficámos muito contentes com a produção final, sem dúvida. Depois, o Miguel é uma pessoa com quem é bastante fácil de trabalhar. Ele tem uma sensibilidade musical brutal, percebe de teoria da musicalidade e, se acha que não está bem, sugere que façamos de outra maneira. Assim, passou a ser mais um elemento da banda neste disco. Como já somos amigos há algum tempo, isso também facilitou a coisa em termos de relacionamento.»

Por esta altura parámos de beber e passámos a falar da responsabilidade de cada membro no que toca à continuidade da banda. Por exemplo, o Gamelas não vive na Covilhã. Ainda que os RDB sejam um passatempo, há que fazer a cena funcionar para que lancem um disco de tempos a tempos, pois é nítido que os elementos gostam da cena e que se divertem em palco. No entanto, com cada membro em seu lado, imaginamos que por vezes seja difícil conciliarem a vida pessoal/profissional com as obrigações da banda. «Na altura da composição marcamos ensaios mais intensivos, tipo um fim-de-semana, a cada 15 dias ou mês a mês, dependendo das nossas vidas particulares, e o mesmo acontece com as gravações. No caso dos concertos, normalmente fazemos um ensaio geral e cada um faz o seu trabalho de casa, tudo à distância. Tem de ser assim. Mesmo a nível de composição, por vezes trocamos música e juntamos tudo. Cada um tem a sua vida profissional. Por exemplo, o João está sempre a viajar, principalmente hoje em dia. Eu e o Daniel conseguimos flexibilizar as coisas, mas no caso dele é mais difícil. Isto cria-nos obstáculos – uma coisa é praticares as coisas em casa, outra completamente diferente é estarmos todos juntos a ensaiar. Há alturas em concertos que não vamos tão ensaiados como gostaríamos. Isto só se consegue com vontade e disponibilidade. Até aqui temos conseguido, de forma mais ou menos limitada. Os RDB nunca se intrometeram na nossa vida pessoal, isto é o nosso escape, porque nem sequer podemos pensar na banda como uma profissão. É um grupo de amigos que se junta quando pode para descarregar.»

Voltámos ao whisky e à última questão da entrevista. Depois da já lendária apresentação de “Era Matarruana” no XXI SWR Barroselas Metalfest, onde não faltou um menir de cartão com dois metros de altura em palco, faltava-nos saber qual o futuro próximo dos RDB em relação à promoção de “Era Matarruana”. «Tocámos em Junho no Noise Murder Ensemble Fest. Em Outubro há um acertado no Sublime Torture Fest, em Castelo Branco. Há possibilidade de irmos tocar ao Porto em meados de Setembro e, ainda nesse mês, tocaremos em Palencia, Espanha, num concerto de suporte aos Abbadon Incarnate. Para o Verão já está quase tudo acordado e combinado e as cenas mais pequenas param por causa dos grandes fests; logo, não temos nada programado para essa estação.»

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