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Quantum Leap “No Reason” [Nota: 7/10]

Diogo Ferreira

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Editora: Viskningar och vrål
Data de lançamento: 01 Junho 2018
Género: post-punk / garage rock

Formados apenas em 2015 mas com espírito à antiga – até porque Björn Norberg pegou numa guitarra pela primeira vez em 1977 –, os Quantum Leap convergem rock alternativo e post-punk para lançarem o debutante “No Reason” e estabelecerem um conceito lírico e musical que versa sobre o colapso dos ecossistemas. Ao longo de 12 faixas, o grupo carrega a escuridão do post-punk dos anos 1980 misturado com a crueza do garage rock agora menos em voga. O início do disco é basicamente direccionado ao post-punk mais directo, mas à medida que avança começa-se a perceber os outros caminhos sonoros que pretendem explorar, sejam eles incursões ao punk rock animado de uns Turbonegro, ao metal com malhas mais pesadas e densas – ainda que raro neste disco –, e até ao blues roqueiro da América do Norte. À partida até pode parecer um disco de pedaços e influências musicais que tanto podem formar um álbum partido como pode estar tudo tão envolvido em si que nem se percebem as diferenças, mas não é o caso – as faixas aqui presentes mostram bem aquilo que são e de onde vêm em relação às tais influências mencionadas. Não é um registo básico, mas é in-your-face – especialmente no campo das letras – e com uma produção que tem tanto de crua como de atmosférica, parecendo mesmo que foi gravado numa garagem.

 

 

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Allegaeon “Apoptosis”

João Correia

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Editora: Metal Blade Records
Data de lançamento: 19.04.2019
Género: death metal técnico

“Proponent For Sentience”, de 2016, foi o expoente máximo criativo e técnico dos Allegaeon e, com ele, entraram directamente para a primeira liga do death metal técnico, fincando nela os pés de tal maneira que seria impossível regredirem. Geralmente, uma banda de topo lança um disco destes em toda a sua carreira: “Master of Puppets”, “Reign In Blood” e “Unquestionable Presence” são exemplos de discos assim, que conseguem deixar uma marca temporal muito duradoura e que acabam por servir de ponto de partida para outras bandas. Com “Apoptosis”, os Allegaeon conseguem o improvável, que é como quem diz: crescerem musicalmente, criarem um registo ainda melhor do que o anterior e deixarem-nos novamente na dúvida se conseguirão fazer melhor com o próximo disco.

O segredo que faz de “Apoptosis” um disco mais dinâmico do que “Proponent For Sentience” deve-se à maior naturalidade e aceitação de conceitos que a banda passou a praticar na novidade, que demonstra incontestavelmente uma superioridade criativa que o anterior tentava atingir, mas forçadamente. A intro “Parthenogenesis” poderia ter saído dos Revocation ou dos Obscura, tal é a perfeição e virtuosismo presente em cada instrumento sem perder catchiness (bem pelo contrário), e culmina imediatamente no início de “Interphase Meiosis”, um projéctil ultratécnico que nos faz sorrir de satisfação, coisa rara numa época em que tropeçamos em macaquinhos de imitação a cada esquina que dobramos. Segue-se “Extremophiles”, que uma vez mais apresenta uma estrutura coesa, velocidade, muito peso e mais solos deliciosos. Nesta faixa descobrimos ainda que a saída do baixista Corey Archulleta basicamente não prejudicou a banda, muito pelo contrário, mesmo porque Brandon Michael, o seu substituto, consegue imprimir aos Allegaeon uma palete de cores diversas devido à sua proficiência musical, tanto teórica quanto prática. Depois, a voz de Riley McShane está cada vez mais agressiva, havendo também lugar para imensas partes vocais límpidas. Acrescente-se a tudo isto uma secção de percussão muito mais rápida e perfeccionista do que anteriormente e ficamos bastante impressionados com a evolução significativa da banda.

Com os seus solos impossíveis e brutalidade técnica, “The Secular Age” e “Exothermic Chemical Combustion” aumentam a fasquia da nossa exigência crítica para outro patamar – é impossível apontar erros, de dizer ‘ah, aqui se calhar ficava melhor isto ou aquilo’. Poucas vezes nos deparamos com dois trabalhos cujo único termo que nos ocorre para os denominar é ‘erudito’. “Metaphobia” é um tema perfeito para partir uns quantos ossinhos no pit, ao passo que “Tsunami And Submergence” e “Colors Of The Currents” exploram os momentos mais progressivos da banda, com melodias sublimes que entram à primeira e não mais saem. O sci-fi tech-death regressa na forma de “Stellar Tidal Disruption”, a melhor faixa do álbum e que nos recorda vividamente Vektor, mas muito mais à frente. A final “Apoptosis” junta bits e bytes de cada uma das faixas anteriores e proporciona um final épico digno dos Allegaeon, os novos reis do death metal técnico… Bom, talvez seja exagerado colocar as coisas nestes termos, mas é muito pouco provável que 2019 nos brinde com um disco de death metal melhor do que “Apoptosis”, que não é menos do que um diamante perfeito lapidado pelas mãos dos melhores artesãos. Daqui em diante é sempre a descer para os Allegaeon.

Nota Final

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Fractal Universe “Rhizomes Of Insanity”

Diogo Ferreira

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Editora: Metal Blade Records
Data de lançamento: 19.04.2019
Género: death metal técnico/progressivo

Na filosofia, rizoma é uma estrutura altamente complexa que está em permanente evolução e em que tudo pode ter uma influência circundante sem qualquer tipo de hierarquia. Neste álbum, os Fractal Universe ligam esse modelo filosófico à insanidade de forma intelectual e sónica, questionando a sua origem e os seus limites. Eventualmente, o conceito leva-nos à sociedade moderna e tecem-se noções de que a insanidade é intrínseca e inevitável ao ser humano.

Com uma tese cheia de nós para desatar, a sonoridade deste “Rhizomes Of Insanity” é para ser absorvida com deleite. Ao segundo álbum, estes franceses escalam cada vez mais a montanha sinuosa do death metal técnico e progressivo com faixas estruturalmente detalhadas e com malhas modernas que vão do riff polirrítmico ao lead matemático. Ao técnico e progressivo adiciona-se o experimentalismo com percussão exótica (“Oneiric Realisations”),  harmónicos de guitarra (“Madness’ Arabesques”) e instrumentos de sopro (“Fundamental Dividing Principle”).

Compor música complexa é uma tarefa árdua, mas torná-la fácil de se ouvir será ainda mais porque, muitas vezes, bandas deste tipo estão tão submersas na sua loucura criativa que se esquecem do todo que é o ouvinte, direccionando-se assim apenas a si próprios e a um nicho. Posto isto, os Fractal Universe têm a capacidade de criar paisagens sonoras de difícil execução mas ao mesmo tempo cativantes, envolventes e facilmente sorvidas por todo e qualquer ouvido.

Nota Final

 

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Antiquus Scriptum “Ahbra Khadabra”

Rui Vieira

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Editora: Soundage Productions
Data de lançamento: Janeiro 2019
Género: black metal épico

Antiquus Scriptum é um caso ímpar em Portugal. Tirando Moonspell e Decayed, e mais um ou dois casos, não me ocorre outra banda nacional que já tenha, no seu currículo, seis álbuns de originais! Isto para não falar dos inúmeros splits e compilações lançados ao longo de 21 anos de existência e incansável dedicação. “Ahbra Khadabra” é o sexto filho de originais deste projecto de Sacerdos Magus aka Jorge Magalhães, músico multi-instrumentista, oriundo da icónica cidade de Almada, local que tantos artistas e, principalmente, bandas de peso nos deu ao longo dos anos e, como se prova com Antiquus Scriptum, continua a dar.

Fundado em 1998, desde cedo que Antiquus Scriptum se destacou pela sua abordagem muito particular, diria única, no underground português. Incessante nos lançamentos, árduo trabalhador, Sacerdos Magus chega a 2019 com mais um opus debaixo da sua armadura: “Ahbra Khadabra”. São 50 minutos de metal extremo e orquestrado, electrónica, experimentação e homenagem. Para começar, e após “Epicus Maximus – IX Symphony (Excertos) – Prelúdio”, imaginem uma batalha em campo aberto na Idade Média… “The Mirror’s Magic Sights”, com os seus épicos 11:58 minutos, seria a sua banda-sonora, a sua ordem de ataque, por entre espadas, estandartes depostos, setas, corpos decepados e sangue a manchar os couraçados. Muito sangue! Mas desenganem-se as almas penadas que pensam que este projecto só engloba temáticas medievais ou de magia (negra), olhando, por exemplo, para as suas capas, uma das imagens de marca do projecto que tem o seu logótipo criado por Christophe Szpajdel, o “Lord Of The Logos”. À terceira faixa somos surpreendidos pela agradável passagem techno (que evolui para uma synth-pop e até nos remete para os sons de jogos de arcada) de “Jardim Celeste (TeknoAXE ; Passaggio I)”, com certeza, uma referência do criador aos saudosos anos 80 e à sua riqueza musical e tecnológica.

O álbum alterna entre temas épicos e longos, ou seja, momentos mais bélicos e completamente lancinantes, e interlúdios que baralham (positivamente) a cabeça do ouvinte. Estes pequenos trechos funcionam como uma espécie de último desejo, antes de voltar a ser brutalmente torturado por verdadeiro black/speed metal lusitano em “… Lágrymas & Negra Philosophia, no meu Phantasmagórico Labyrintho Theatral…”, traduzido numa bateria rápida e perfurado pela voz de Sacerdos, um registo que tem tanto de irónico como de temeroso. Entre outras características da sua música, a forma como Magus trabalha a voz em diversas camadas e efeitos é, de facto, admirável. Todas as idiossincrasias do projecto da Margem Sul mostram-se também (e de que maneira) nas grandiosas versões que faz. Nunca comprometendo os originais, neste trabalho somos presenteados com o doom pesadão de “Seven Silver Keys” (Candlemass), com vocalização de Flávio Lino (Deadlyforce), o rock descomprometido em “A Luz Azul” (Rádio Macau) e uma igualmente hipnótica versão de “Russians” (Sting). Isto é algo que não é normal no panorama metálico português. Talvez só Decayed coloque três versões num álbum de originais. Mas a ideia é boa, porque as roupagens que Antiquus Scriptum lhes atribui são, amiúde, magníficas. Esta é também uma forma diferente de fazer um álbum e, no mínimo, curiosa. “Ahbra Khadabra” é uma experiência de sabores musicais, um pote de especiarias onde há de tudo e para todos os gostos.

Lendo esta review, o leitor poderá ficar céptico em relação ao resultado final, mas a verdade é que funciona! Como remate final, diria que aqui não podemos falar desta ou daquela influência mas de um som que definiria como “o som Antiquus Scriptum”. E essa é a melhor crítica que uma banda pode receber, creio. A fechar este disco mágico, e como ‘faixa escondida’, somos convidados a reentrar no universo (paralelo) electrónico com “TeknoAXE”. Techno e dubstep fecham a cápsula que viaja para o espaço e onde ficará a aguardar o próximo capítulo desta verdadeira nave “especial” chamada Antiquus Scriptum!

Nota Final

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