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[Reportagem] Mastodon + Kvelertak + Mutoid Man: três foi a conta que o Diabo fez (17.02.2019 – Lisboa)

João Correia

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Mastodon (Foto: Solange Bonifácio)

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Mastodon + Kvelertak + Mutoid Man
17.02.2019 – Lisboa

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Na ronda final da digressão “Emperor of Sand” não seria de esperar outra coisa do que casa cheia para assistir a mais um concerto de Mastodon em Portugal, que, desta vez, trouxeram na bagagem os Mutoid Man e os Kvelertak como bandas de apoio, o que é curioso se pensarmos que ambas têm capacidade para serem cabeças-de-cartaz em concertos em nome próprio, principalmente Kvelertak. Quanto aos Mastodon, noticiámos há cerca de dois anos o início desta digressão noutras paragens, cujo concerto nos deixou visivelmente impressionados e que queríamos ver como decorreria (uma vez mais) em Portugal, muito por causa das recentes declarações de Troy Sanders à Ultraje.

Mutoid Man (Foto: Solange Bonifácio)

O pano subiu ao som dos Mutoid Man, desta feita sem Ben Koller atrás da bateria. Poucos ignorarão que o baterista dos Converge fracturou o cotovelo em Dezembro passado, tendo por isso sido substituído por Chris Maggio, que revelou ser um sticks man muito acima de músico de sessão. Ainda a promoverem “War Moans”, de 2017, os Mutoid Man são um caso sério de competência – banda residente do talk show “Two Minutes To Late Night”. A banda de Brooklyn despeja tudo aquilo que poderíamos esperar de um colectivo desses lados: punk, rock, core, metal e – principalmente – uma atitude rara que nos faz lembrar de colectivos clássicos de NYHC, tudo com doses generosas de progressivo. Stephen Brodsky (vocalista/guitarrista) teima em não ficar quieto e em deixar o público respirar um segundo que seja. Brodsky é possuidor de uma voz rara, potente e agressiva, com uma assinatura natural que não deixa os ouvintes indiferentes, claramente um filho pródigo da cena hardcore nova-iorquina. Não menos irrequieto é Nick Cageao, o baixista de serviço que deveria ter uma marca registada do seu headbanging furioso e pose ameaçadora em palco. À terceira música, Brodsky anuncia que era chegado o momento de uma «canção de amor». «Agarrem a vossa companheira… PELO PESCOÇO!» O som em geral esteve como se quer: uma mistura de lixa de vidro, volume q.b. e nitidez em geral. O trio soube a pouco, assim exigiu o cronograma, mas deixou na Sala Tejo um aroma a gordura, suor, urina e Coney Island que será difícil de remover.

Kvelertak (Foto: Solange Bonifácio)

Logo após, chegou a banda da noite… quero dizer, os noruegueses Kvelertak. Sim, toda a gente se deslocou à Sala Tejo para ver Mastodon, mas os Kvelertak simplesmente ofuscaram o brilho dos norte-americanos nesta noite. É fácil de entender o convite dos Metallica aos noruegueses após ver um concerto destes ao vivo. Durante cerca de 45 minutos, o sexteto deliciou os presentes, dos desconhecedores aos fãs de longa data, devido ao rebuliço constante em palco, bem como fora dele. Se existe actualmente uma banda que é a fiel representante do espírito do rock, é impossível que essa não seja Kvelertak. Após a recente partida de Erlend Hjelvik (vocalista), os escandinavos recorreram aos serviços de Ivar Nikolaisen, um animal que nasceu para reinar num ecossistema muito particular – o palco. E reina, ó se reina! Ao passo que Erlend detinha uma actuação (e até compleição física) musculada e potente, Ivar é o seu antípoda: escanzelado, aparentando ter saído de uma clínica de reabilitação, mas muito, MUITO energético e furioso. Foi a banhos de multidão cinco vezes e, quando não estava a nadar em público, nadava em álcool em cima do palco. Os restantes elementos fizeram-lhe frente de forma magistral, sempre em movimento, sempre a tentar trazer o palco abaixo. A qualidade sonora não foi perfeita, mas também não esteve abaixo de boa. O som de marca da banda ajuda à festa, fazendo lembrar uma mistura entre The Hives e The Hellacopters, com cock rock à moda antiga de Led Zeppelin e com inteligentíssimas pinceladas de black metal e devidos blast-beats. Dizer que os Kvelertak são um oásis no meio de um longo deserto é um eufemismo. A sensação geral depois do concerto foi de um evento especial proporcionado por uma banda que, a continuar assim, conseguirá que os Mastodon abram para ela.

Mastodon (Foto: Solange Bonifácio)

Pouco depois das 22h20, os Mastodon subiram ao palco perante uma sala repleta de fãs e de pares. Clássico atrás de clássico, sem medo de esgotarem todos os seus trunfos. Com uma prestação logicamente baseada em “Emperor Of Sand”, o público soube corresponder aos acordes iniciais de temas como “Precious Stones”, todos recebidos com a devida efusividade e algum crowd surfing e slam. A banda conseguiu atingir um ponto épico em “Emperor Of Sand”, um disco que imprime à banda todos os ingredientes necessários para o sucesso: raiva, drama e criatividade desmedida. Assim, a celebração do último concerto de uma digressão de dois anos teria de ser especial e foi-o à sua maneira. Pelo meio, houve tempo para passar revista a discos como “Once More ‘Round The Sun”, “Crack The Skye” e “The Hunter”, conseguindo agradar às diversas gerações de fãs que ouviram o chamado do mastodonte. Uma vez mais, o som não foi cristalino, mas, ainda assim, foi nítido e desembaraçado. Para o final, a esperada “Blood and Thunder” recebeu de volta um pavilhão lotado a entoar talvez o refrão mais emblemático do álbum mais emblemático dos Mastodon, “Leaviathan”. Findo o concerto, a banda disse «vemo-nos no próximo ano já com o disco novo» e, mesmo a finalizar, Bran Dailor (baterista) aproveitou para agradecer ao público e bandas de apoio, bem como ao staff envolvido na digressão mundial, explicando o significado de Kvelertak em inglês e do porquê de os Mutoid Man serem «não um homem, não um mutante, mas algo esquisito entre ambos», misturando brevemente agradecimentos com stand up comedy. Concerto muito acima da média mas um pouco abaixo da experiência de ver Mastodon num estádio, convenceu os presentes à velha maneira de César: Veni, Vidi, Vici. Perdeu quem não foi.

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Texto: João Correia
Fotos: Solange Bonifácio

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[Reportagem] Septicflesh + Krisiun + Diabolical + Xaon (15.03.2019 – Porto)

Diogo Ferreira

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Septicflesh (Foto: Vânia Matos)

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Septicflesh + Krisiun + Diabolical + Xaon
15.03.2019 – Porto

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Antes das previstas 19h30 já os Xaon estavam em palco. Oriundo da Suíça, o jovem grupo tem em “Solipsis” o novo álbum, que será lançado em Maio próximo, e esta digressão já serve para o promover. Com a ingrata posição de abrir a noite a uma hora tão peculiar para o público português, a sala pequena do Hard Club estava a meio gás para receber o sangue-novo do metal helvético. Praticantes de death metal melódico com uma forte componente sinfónica, os Xaon não se fizeram rogar pela hora a que estavam a tocar ou pela (ainda) escassa audiência e deram um portento concerto como se se tratasse de um festival com milhares de pessoas. Nota muito positiva para a prestação de Rob que, muito mais do que um frontman de uma banda metal, é, de facto, um cantor.

Com os seguintes Diabolical, a sala encontrava-se praticamente cheia e os suecos vieram a Portugal promover o novíssimo trabalho intitulado “Eclipse”. Num concerto com uma componente cénica e visual, os nórdicos focaram-se, como seria de esperar, no novo disco que será, porventura para alguns, mais prazeroso de se ouvir em casa do que ao vivo. Tudo funcionou, é certo, mas muitos detalhes audíveis em “Eclipse” parecem ter sido abafados pela conjuntura sonora de um concerto. Ainda assim, certinhos naquilo que fazem, ninguém ficou indiferente à voz limpa de Carl Stjärnlöv, a fazer lembrar Enslaved, que cria a ala melódica de um death/black metal contemporâneo. Um das particularidades deste concerto, que uniu som e imagem, acontece na última “We Are Diabolical” em que se critica fortemente a industrialização capitalista da actualidade.

Do outro lado do Atlântico Sul, chegava a vez de uma das bandas mais esperadas da noite: Krisiun. Entusiasmados desde o início por estarem a tocar em Portugal, o público retribuiu com os primeiros (e únicos) momentos de moshpit na zona frontal ao palco. A união pela língua e pela colonização (expressão usada por Alex Camargo para unir e não para achincalhar) foi uma constante ao longo de um concerto veloz (Max Kolesne na bateria é uma fera autêntica!), frenético (os solos de Moyses Kolesne são apenas insanos!), agressivo e com muito groove. Com “Scourge of the Enthroned” (2018) na bagagem, os brasileiros tocaram, por exemplo, o tema-título desse álbum, assim como revisitações a outros tempos da carreira com temas como “Blood of the Lions” ou “Slaying Steel”. O trio aproveitou ainda para homenagear um ídolo de todos nós, que dá pelo nome de Lemmy (1945-2015), ao interpretar a muito batida, mas sempre bem-recebida, “Ace Of Spades”.

Continuamente a viverem dos louros angariados com “Codex Omega” (2017), os Septicflesh regressaram ao nosso país menos de um ano depois. À medida que os gregos iam entrando em cena, os aplausos iam-se intensificando e explodiu-se em êxtase quando o primeiro tema da setlist fora logo “Portrait of a Headless Man”. O mais recente registo de originais seria promovido mais à frente com execuções de faixas como “Martyr”, “Dante’s Inferno”, “Enemy Of Truth” ou a última “Dark Art” que encerrou o concerto e o encore em que também se ouviu “Anubis” com a sua melodia a ser entoada pelo público. Por entre interpretações de músicas como “Communion” ou “Prometheus”, o baixista/vocalista Spiros Antoniou exultou a energia sentida e a que desejava sentir, incentivando aquele aglomerado de fãs intensos a mostrarem os seus devil horns, sem esquecer o chavão final de que por estas regiões sulistas da Europa, portugueses, espanhóis, italianos e gregos são todos os mesmo – união foi o que não faltou durante toda a noite. Coesos até ao tutano, os atenienses mostraram aquilo de que são feitos: profissionais, artisticamente dotados e sonicamente imperiais. Nada, mas mesmo nada, há a apontar de negativo àqueles minutos fervorosos que passaram rápido demais…

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Texto: Diogo Ferreira
Fotos: Vânia Matos
Agradecimentos: Rocha Produções

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Sabaton History Channel: sexto episódio dedicado ao tema “Talvisota” e à defesa finlandesa face à URSS

Diogo Ferreira

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No sexto episódio do Sabaton History Channel, Indy Neidell e Joakim Brodén trazem-nos o tema “Talvisota”, do álbum “Art Of War” (2008), que versa sobre uma espécie de David contra Golias numa guerra moderna.

Conhecida como Guerra de Inverno, este conflito durou desde Novembro de 1939 até Março de 1940, mesmo nos primórdios daquela que ficaria para a História como a II Grande Guerra Mundial. Contra todas a probabilidades, os defensores finlandeses sustiveram as investidas dos invasores soviéticos.

Mais episódios AQUI.

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Death metal em todo o seu esplendor (Septicflesh, Krisiun, Diabolical, Xaon)

Diogo Ferreira

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Foto: Stella Mouzi

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Da Suíça já vimos surgir bandas como Hellhammer, Celtic Frost, Samael e Eluveitie, mas o sangue novo não parou de jorrar e a nova jóia helvética dá pelo nome de Xaon. Com uma carreira ainda curta, iniciada em 2014, os Xaon têm em “Solipsis” o segundo álbum que será lançado em Abril próximo pela Mighty Music. Ao oferecer um death metal contemporâneo com uma forte componente orquestral, esta banda será decididamente uma excelente abertura para uma noite de inigualável death metal.

 

Mais acima, vindos da Suécia, os Diabolical já cá andam há pouco mais de duas décadas e sempre foram capazes de lançar discos sólidos. Há seis anos que não lançavam um longa-duração, mas o início de 2019 mostrou-se importante para o regresso dos nórdicos com o muito bem-conseguido “Eclipse” (Indie Recordings). Num disco conceptual que reflecte o lado negro da humanidade e que força quem ouve a explorar as suas facetas diabólicas, o quarteto tanto oferece refrãos com vozes limpas e melódicas a fazer lembrar uns Enslaved como incorre por robustas e negras paredes sonoras na onda de uns Behemoth.

 

Uma das bandas de metal extremo mais bem-sucedidas da América do Sul chama-se Krisiun e é oriunda do expectável Brasil. Com quase 30 anos de existência, os brasileiros têm 11 coesos álbuns na sua discografia, sendo “Scourge of the Enthroned”, lançado em Setembro de 2018 pela Century Media Records, o mais recente. A evolução da indústria não afectou a faceta orgânica da banda e neste disco temos precisamente isso, por exemplo, através da bateria seca de Max Kolesne. Rapidez e caos são também elementos a ter em conta nos Krisiun, o que pode ser testemunhado no single “A Thousand Graves”. É um regresso ao nosso país que não deixará ninguém indiferente.

 

De volta à Europa, e neste caso representando também um regresso a Portugal, os Septicflesh são um dos expoentes máximos no que concerne a death metal sinfónico. Igualmente veteranos como a banda introduzida atrás, ainda que com um hiato entre 2003 e 2007, estes gregos têm em “Codex Omega” (2017, Season Of Mist) o mais recente álbum, mas também um dos seus melhores trabalhos até à data, o que valeu ao grupo a montra de Álbum do Mês em muitas publicações mundiais, incluindo a Ultraje. Do Inferno de Dante aos mares de Cthulhu, passando pela mente genial de Hypatia, os helénicos foram capazes de criar andamentos cinematográficos interligados com guitarradas que rasgam e uma bateria nuclear que explode a cada batucada. As palavras até podem sair da boca de Spiros Antoniou, mas, e sem inferiorizar os restantes membros da banda, é Christos Antoniou o culpado disto tudo – é dele que nasce uma amálgama sinfónica/orquestral de dinâmicas e cores sonoras interpretada pela FILMharmonic Orchestra of Prague.

 

As quatro bandas juntam-se no Hard Club (Porto), no próximo dia 15 de Março, para uma noite que facilmente será uma das melhores de 2019 no que a death metal de excelência diz respeito. As informações necessárias podem ser acedidas AQUI.

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