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[Reportagem] Moita Metal Fest 2019: Primavera de destroços

João Correia

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À 16.ª edição, o Moita Metal Fest voltou a ser um apontamento na agenda dos fãs da música pesada em Portugal. Foram cerca de 2000 os metaleiros que peregrinaram à Moita para levarem a bênção de alguns dos nomes mundiais mais pesados da sagrada família: Destruction, Enforcer, Dr. Living Dead, Extreme Noise Terror e Decapitated. Também os pesos-pesados nacionais compareceram em massa: Grog, Irae, Holocausto Canibal, Simbiose, Gaerea e The Voynich Code foram apenas alguns dos baluartes que pregaram a novos fiéis e que ainda conseguiram fazer ver a luz aos acólitos mais antigos. Até aos da Ultraje, como será possível perceber mais abaixo.

DIA 1
O primeiro dia costuma ser um exercício de aquecimento para a maratona de sábado. Desta vez, começou um pouco mais tarde do que o habitual, mas em nada demoveu o público que já esperava pelo início do cartaz, protagonizado pelos Revenge of the Fallen. Em cerca de 30 minutos agraciaram os presentes com o seu metal alternativo similar a tanta banda que já ouvimos em tanto sítio. Musicalmente são moderadamente competentes, mas menos que isso em termos de originalidade. Já os Dream Pawn Shop, que se apresentaram de seguida, conseguiram transmitir que a idade é apenas um número. É verdade que a banda já se encontra no activo desde 2013, mas é basicamente composta por miúdos que apostaram em fazer a música deles sem se importarem com modas ou tendências. Resulta. É metal/rock progressivo refrescante, muito por culpa do saxofone de Arnaud António, que confere uma dinâmica bizarra à banda e que, quando não está perdido em solos esquizofrénicos saídos da imaginação de John Zorn, constrói estruturas que fazem com que os restantes elementos o acompanhem, quer eles queiram, quer não. Com “Carry Your Sins” editado pela própria banda em formato digipack em 2019, apresentam um trabalho que é estranho por ser tão bom e ter tão boas ideias, sendo capaz de ombrear com os nomes maiores da nossa praça. Merecem mais e certamente que terão mais se se derem ao trabalho de publicitar melhor os seus passos e se acreditarem neles mesmos. Excelente surpresa.

Irae (Foto: João Correia)

Aos desconhecidos Dream Pawn Shop sucederam os bem conhecidos Irae. É curioso verificar que, com a qualidade de som certa, qualquer disco que estejamos fartos de ouvir revele novos detalhes. A Ultraje louvou e continua a louvar o último registo dos Irae, “Crimes Against Humanity”, pelo simples facto de que se trata de um colosso de black metal tão bom que não há outra coisa a fazer. Nesta edição do Moita ouvimos a sua rendição com uma qualidade sonora anormalmente boa, o que só melhorou o momento. Iniciaram o concerto com “In The Name of Satan”, seguida de “Beyond My Torments”. A reacção do público foi a previsível: estática, esclarecedora da ausência de conhecimento dos Irae. Após “Prime Evil Black Metal”, começou a haver mais movimento entre o público, o que não é de estranhar quando os Irae englobam tão bem aquela sensação de velha-guarda sonora, algo que costuma agradar ao festivaleiro padrão do Moita Metal Fest. No seu todo, deram um concerto ligeiramente abaixo de excelente devido a alguns problemas de som com o baixo nos momentos iniciais. Depois vieram os Grog, que é o mesmo que dizer que era altura de cilindrar o recinto. Assim como com a banda anterior, os Grog dispuseram de uma qualidade de som de alto nível, o que só auxiliou a criar uma maior erupção de brutalidade. A diferença entre um disco e um concerto de Grog reside na qualidade sonora, sendo que só pontualmente ouvimos a banda com um som claro e desemaranhado ao vivo; foi isso que aconteceu no Moita Metal Fest, com temas como “Savagery” ou “Necrogeek” a ganharem uma nova dimensão. Fustigaram bem o público, tal como previmos na antevisão do festival.

Enforcer (Foto: João Correia)

O ímpeto desenfreado dos Grog foi aplacado pelos Enforcer, que subiram ao palco pouco após as 22:45. Disseminadores do heavy/speed metal  que encabeçou a cadeia alimentar nos meados dos anos 1980, já tinham à sua espera centenas de fãs que repetiram refrãos, pediram temas, fizeram crowd surfing e vibraram com uma actuação de mais de uma hora na qual sobressaíram temas como “Zenith Of The Black Sun”. Também os suecos foram presenteados com uma qualidade sonora ímpar, o que só realçou a sua actuação. Prestação forte e enérgica com aquele cheirinho clássico a anos 80 no ar. Mas quem queria sentir de perto a magia dos anos 80 esperava e desesperava pelos Destruction. Muito há a dizer sobre uma das bandas que ajudou a moldar vários movimentos extremos desde o lançamento de “Infernal Overkill” em 1985, mas a melhor forma de entender o peso dessa herança é presenciá-la ao vivo. Sem paninhos quentes, Schmier & Cia. deram início ao massacre e com “Nailed To The Cross” já se ouvia um pavilhão a rebentar pelas costuras a gritar o clássico refrão “NAILED TO THE FUCKING CROSS!”. Qualquer tema de Destruction até 2002 (inclusive) é um clássico: “Mad Butcher”, “Life Without Sense”, “Total Desaster”, “Antichrist”… Os mais velhos vibraram, os mais novos ficaram impressionados. Uma das exigências dos Destruction foi um pit entre o palco e o público, e só podemos concluir que foi uma medida acertada a julgar pela quantidade de corpos voadores que aterraram no fosso, alguns de cabeça no betão. Não há nada mais metal do que isto. Para terminar em beleza, “The Butcher Strikes Back”, “Thrash ‘Till Death” e “Bestial Invasion”. Não nos fartamos de repetir que Moita é o ecossistema por excelência do thrash, mas como é que poderia ser outra coisa com cabeças-de-cartaz como os Destruction? Inesquecível para muita gente, com certeza.

Destruction (Foto: João Correia)

Para finalizar o primeiro dia de concertos, nada como celebrar com os Gwydion de caneca na mão. Recentemente nomeados para melhor álbum de folk metal do ano pela Metal Storm com “Thirteen”, de 2018, depressa percebemos por que é que os berserkers nacionais continuam a dar cartas dentro do seu género. Aliadas à estética nórdica, as composições dos Gwydion são de primeira categoria, interessantes e melódicas sem caírem em clichés. Depois, puxam pelo público de forma intensa, o que resulta sempre numa comunhão entre as duas partes. Com ou sem o caneco da Metal Storm, levantaremos sempre uma caneca em honra dos Gwydion. O encerramento geral do dia foi abrilhantado por uma after-party da responsabilidade do DJ JORGEFAC, que debitou clássicos de várias décadas do heavy metal.

DIA 2
Quando iniciámos a descrição do dia 1 referimos que o dia 2 era uma maratona e não estávamos a exagerar: seguiam-se 13 bandas dos mais diversos espectros, do metal ao punk, passando pelo rock e pelo hardcore. A tarefa foi iniciada pelos portuenses Moonshade, ainda a promoverem o recente “Sun Dethroned”. Nas palavras de Ricardo Pereira (voz), foi «um bom concerto», o que nos revelou alguma insatisfação pessoal. Nunca é tarefa fácil abrir um certame às 14:30 quando ainda existe muita gente a dormir, a ressacar ou ambos. Após vieram os Mindtaker, um colectivo noviço de thrash metal que gosta do que faz, mas que ainda tem muito caminho pela frente. Perderam quase cinco minutos (sim, contámo-los) a comunicar com o público, o que é demasiado. Exemplificaram o som típico de uma banda thrash norte-americana, sem nada a acrescentar. Se andam nisto exclusivamente pela diversão, não precisam de mais nada. A banda seguinte, Infraktor, também praticou o seu thrash, mas a diferença para a anterior mediu-se em eras. Os Infraktor ainda estão à procura de identidade, mas nota-se esforço, empenho, preocupação. O que os levou a falar pouco, mas a tocar muito. Também na ronda de promoção ao seu primeiro disco, “Exhaust”, aproveitaram cada segundo para mostrarem o que valem e não decepcionaram, com o destaque da prestação a ir para a faixa-título do seu disco.

Infraktor (Foto: João Correia)

Os The Voynich Code pisaram o palco pelas 16:45 e, tendo em conta todo o bom som que o festival proporcionou até essa altura, estávamos curiosos para ver como se sairiam. O resultado não nos espantou: pesado, milimetricamente coeso e de um profissionalismo ímpar, acrescido da mesma qualidade sonora límpida das bandas anteriores. Praticantes de deathcore técnico com teclados inteligentes, brilharam em temas como “Amunet, The Decider” e “I, The Weak”. Se tocarem perto da vossa zona, não hesitem em comparecer. O thrash regressou após pela mão dos Diabolical Mental State. Ficámos divididos com a actuação da banda: não apresentam novidades, mas são tecnicamente robustos, com bons solos de guitarra, um sentido apurado de groove e conhecedores do seu ofício; no entanto, e regressando ao princípio, não apresentaram uma música que nos deixasse adivinhar grandeza. Não se trata de desprezo pelos DMS, longe disso, pois sabemos que não há nada mais difícil para uma banda do que apresentar um som original, mas é isso mesmo que se quer numa época em que o movimento está saturado de milhares de grupos a tocar ao ritmo da mesma caixa. Passavam 15 minutos das 18h quando os Artigo 21 começaram a tocar, e às 18:25 sentia-se uma estranheza geral, talvez devido ao tipo de som praticado pela banda, na linha de Millencolin, Censurados, NOFX, etc., etc., etc., claramente deslocado do Moita Metal Fest. Embora saibam tocar (e mesmo que o género praticado seja instrumentalmente básico por natureza), não aqueceram nem arrefeceram, exceptuando para algum público para o qual o grupo aponta.

Gaerea (Foto: João Correia)

Para quebrar o enguiço, nada melhor do que os Gaerea, a nova coqueluche do black metal. Se dúvidas houvesse que são a banda nacional actual mais interessante de ser ver em palco (juntamente com Sinistro ou The Ominous Circle), a prestação do colectivo nortenho desfê-las em pouco mais de 35 minutos incessantes. Cada novo tema é um abismo que nos arrasta para dentro de outro abismo, cada minuto é um passo em direcção a uma queda no meio do escuro, sem que tenhamos noção de largura, comprimento ou profundidade. Esdrúxulos na sua síntese, cativaram as largas centenas que se deslocaram ao festival para os ver e a quem brindaram com uma qualidade sonora impressionante. Distintos e refrescantes, deram a vez aos Simbiose, que uma vez mais executaram a sua dose fatídica de crust-punk sem falhas ou complicações. Se da última vez que os vimos a sua prestação ficou ensombrada por uma qualidade de som abaixo de aceitável, desta vez conseguimos apreciar a banda como deve ser. Ficámos principalmente satisfeitos com “Acabou a Crise, Começou A Miséria!”, talvez o tema mais incisivo de “Trapped”. Quase colado às grades estava Dean Jones, vocalista dos Extreme Noise Terror, que se deslocou à frente do palco para abanar o capacete. Melhor elogio que este é difícil; bom concerto.

Dr. Living Dead (Foto: João Correia)

Para digerir o jantar, o digestivo servido foi Holocausto Canibal. Com bom som! Se existe uma palavra que define os HC, terá de ser profissionalismo: é chegar, tocar, comunicar o estritamente necessário com o público e sair de cena de cabeça erguida, conscientes de mais um concerto sem falhas. Ao nosso lado em cima do palco encontrava-se um Mikael Danielsson (guitarrista dos No Fun At All) muito entusiasmado com o concerto da máquina portuense. Apresentaram uma mão-cheia de novos temas a figurarem no próximo disco da banda, bem recebidos e que acabaram por ser um teaser monumental para o trabalho que se segue. Às 21:15 coube a vez a uma das bandas mais esperadas do certame, os Dr. Living Dead. Os suecos são uma mistura clássica entre Suicidal Tendencies e Anthrax; ou seja, revivalistas e pouco dados a progresso, mas ao vivo, meus amigos, que coisa mais pujante! Não faltaram clássicos como “Gremlins Night” ou “TEAMxDEADx” mas, acima de tudo, pairava no ar uma euforia comum transmitida pela energia que originava em palco, principalmente a que vinha de Mania (voz) e Rad (baixo). Também eles puderam contar com um som pristino, tudo cortesia da dedicada equipa de som do festival. Após tocaram os No Fun At All, mais uma banda sueca com um estatuto lendário em todo o mundo. Já tinham a casa bem cheia à sua espera e já não é novidade que o Moita Metal Fest diversifica a ementa todos os anos com uma ou duas bandas de hardcore para agradar a todos. Amigáveis como sempre, detonaram cerca de 70 minutos de punk/hardcore para uma plateia rendida às evidências e onde pontuaram hinos como “Should Have Known”.

Extreme Noise Terror (Foto: João Correia)

O grande balde de água fria da noite deu-se com os Extreme Noise Terror, que começaram o holocausto às 23:30. Não, a banda não deu um mau concerto. Aliás, a banda deu um concerto do outro mundo e a determinada altura não sabíamos se estávamos a ver uma actuação ou a ouvir um best-of, tantos foram os clássicos disparados de seguida em todas as direcções: “No One Is Innocent”, “Raping The Earth”, “Human Error”, “Bullshit Propaganda”… Mas, no público, a ausência de sinais de vida era comparável a uma casa mortuária fria e inóspita. Nada disto impediu que os naturais do Suffolk dessem provavelmente o melhor concerto deles de que nos lembramos (e já vimos uns poucos). Som perfeito, atitude perfeita, escolha de temas perfeita e talvez o melhor prato para variar o sabor da carne e do peixe que nos foram servidos ao longo dos dois dias. E foi a faltar 25 minutos para a uma da manhã que os colossos polacos Decapitated tentaram demolir a vila da Moita com uma setlist baseada em practicamente todos os discos da banda. Notámos uma ausência considerável de público, que foi diminuindo à medida que a banda ia avançando com o seu repertório. Não é de estranhar se conjugarmos todos os factores: tempo miserável, um dia que já ia bastante longo para todos e o cansaço generalizado que já se fazia sentir. Houve alguma comunicação com o público da parte de Rafał Piotrowski (voz), o que ajudou a aquecer um ambiente já por si volátil. Para o final, e assim como previmos na antevisão do Moita Metal Fest, terminaram com a execução das seminais “Spheres” e “Winds of Creation” de forma perfeita. O público agradeceu com crowd surfing e slam constantes até ao final. A demora na vinda do quarteto polaco demorou, mas valeu cada segundo de espera. Para encerrar as actividades do segundp dia, decorreu outra after-party no recinto, desta vez pela mão do DJ JORGEFDPDOCRL, que revelou estar uns furos acima do DJ da noite anterior. Assim, os mais resistentes puderam ainda dar um passo doble no recinto ao som de clássicos mais extremos, como “Over The Wall” (Testament), “Where The Slime Lives” (Morbid Angel) e “Voltei, Voltei” (Dino Meira). Poucos foram os que não repetiram “vale mais um mês aqui do que um ano inteiro lá”.

Decapitated (Foto: João Correia)

Para não variar, o Moita Metal Fest XVI voltou a seguir e a somar, principalmente no que tocou à contratação de bandas nacionais que não desiludiram na sua quase totalidade. A juntar a isto, tivemos as benesses do costume: comida e bebida muito mais barata do que em qualquer outro festival nacional, um ambiente amigável e de nicho que só o  MMF consegue proporcionar e algumas das maiores atracções internacionais no topo do cartaz. Tudo isto através de um bilhete de dois dias mais barato do que muitas noites de copos. Já não se fazem festivais assim. Temos a certeza de que o melhor cartaz de sempre do Moita Metal Fest será o de 2020. E que o melhor depois desse será o de 2021.

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Texto e fotos: João Correia

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Nuno Bettencourt, Tom Morello e Scott Ian tocam tema de Game Of Thrones

Diogo Ferreira

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Consagrada como uma das séries mais populares de sempre, Game Of Thrones, que terminou na última madrugada, teve a capacidade de exultar nos seus fiéis seguidores todas as emoções desde o seu início com o genérico criado por Ramin Djawadi.

No clip abaixo, Djawadi é acompanhado por Dan Weiss (criador da série), Tom Morello (Rage Against The Machine), Scott Ian (Anthrax), Nuno Bettencourt (Extreme) e Brad Paisley numa jam session com as novas guitarras Fender em que tocam precisamente o tema principal de Game Of Thrones com muito free-style solista pelo meio.

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Sabaton History Channel, ep. 15: o Barão Vermelho

Diogo Ferreira

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No novo episódio do Sabaton History Channel, Joakim Brodén e Indy Neidell escolhem falar do tema “The Red Baron” que pertence ao próximo álbum “The Great War”, a ser lançado a 19 de Julho pela Nuclear Blast.

O Barão Vermelho é um do ícones heróicos da I Guerra Mundial que, simultaneamente, engloba a mecanização e a romantização da guerra moderna com as suas habilidades e heroísmo. Manfred von Richthofen é o nome verdadeiro do piloto que é, então, recordado em mais um episódio do Sabaton History Channel.

Mais episódios AQUI.

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Jinjer ao vivo no Resurrection 2018 (c/ vídeo)

Diogo Ferreira

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Foto: Veronika Gusieva

Abaixo podes assistir à prestação dos Jinjer no Resurrection de 2018. Recentemente disponibilizado pelo próprio festival, este vídeo servirá para aguçar a vontade que os fãs desta banda têm para os ver no Vagos Metal Fest deste ano. Nos quase 40 minutos de concerto, os Jinjer executaram temas como “Words Of Wisdom”, “I Speak Astronomy”, “Pisces” ou “Captain Clock”.

O EP “Micro”, lançado em Janeiro de 2019 pela Napalm Records, é o registo mais recente dos ucranianos que, como referido, actuarão no Vagos Metal Fest, evento que se realiza entre 8 e 11 de Agosto. Stratovarius, Six Feet Under, Satyricon, Candlemass, Death Angel, Watain e Alestorm são alguns dos nomes do cartaz.

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