Scúru Fitchádu: bruxaria selvagem e caos urbano (entrevista c/ Sette Sujidade) – Ultraje – Metal & Rock Online
Entrevistas

Scúru Fitchádu: bruxaria selvagem e caos urbano (entrevista c/ Sette Sujidade)

Foto: Ana Viotti

-/-

«Scúru Fitchádu representa outra África, eu sou outra África.»

Foi depois de um concerto intenso no GrETUA, em Aveiro, durante a passagem do circuito Supernova pela cidade, que fui ao backstage procurar por Marcus Veiga aka Sette Sujidade, dos Scúru Fitchádu, para levar a cabo a entrevista combinada durante a semana. À porta estava o rapper Chullage, que anda na estrada com a banda para controlar a ala electrónica e parte da percussão, que indicou que podia entrar para ir procurar pelo Marcus. «Então, já descansaste tudo?», perguntei. «Gostaste?», retorquiu um Marcus sorridente e ao mesmo tempo atarefado enquanto arrumava algumas coisas e procurava por roupa lavada. «Vou só aqui trocar de roupa e já te encontro lá fora», pediu. E assim foi. Depois de me ter ido abastecer com mais uma cerveja para não estar sozinho à espera, Sette Sujidade aparece para nos irmos sentar a um canto do largo do GrETUA e conversar enquanto centenas de pessoas se mostravam animadas por terem acabado de ver Sunflowers e Scúru Fitchádu e por ainda poderem assistir ao concerto de Stone Dead.

O que é afinal Scúru Fitchádu? Para a Ultraje é uma mistura de bruxaria selvagem e caos urbano, tudo interligado através de sonoridades funaná, punk, metal e noise. Nem mesmo Marcus sabe muito bem definir o seu projecto, respondendo inicialmente com gargalhadas afáveis quando se fala em bruxaria selvagem e caos urbano. «Há tanta forma de descrever e até hoje ainda não consegui. Quando me perguntam o que é que faço, epá, não sei. Desde o punk, dance mais dançante ou com mais groove talvez, funaná mais má onda.» Funaná má onda? Mas que grande rótulo! «Funaná má onda é uma definição que o Pedro Coquenão, de Batida, uma vez disse numa conversa. Como isto não foi premeditado, o caminho está-se a fazer; isto basicamente é fruto das minhas influências todas – a música tradicional de Cabo Verde, que é o funaná, punkalhada, metal e o hip-hop também, por causa da construção frásica. Não podia ser doutra maneira que não esta, uma cena que não é nada, não soa a nada… É isto. Como já disse antes: mijei no meu canto, os outros que façam a guerra deles, eu mijo no meu canto e o meu quadradinho é muito pequeno. O pessoal tem aderido cada vez mais à cena. Às vezes até fico um bocado surpreso, porque não é propriamente uma música fácil. Às vezes estou a falar com a malta sobre isto e chegamos à mesma conclusão: isto acaba por ser uma identidade, um conceito, uma linguagem muito própria. Isto é uma música para ser experienciada. É uma libertação. Imagina que somos três escravos fugitivos, conseguimo-nos libertar e agora vamos festejar à nossa maneira no meio do mato, dos chamados quilombos, a zona onde os escravos se reuniam depois de fugirem. Quando o pessoal está à espera que eu vá ali… [berros] Tu-pá-tu-pá-tu-pá! É quando faço a cena com mais groove, mais dançante. E vice-versa. Há pessoal que me contrata quando quer ir dançar funaná e levam com esta violência. [risos]»

«Eu ouvia Pantera e Sepultura escondido. (…) Ratos de Porão era a minha cena!»

Sendo português mas de origens africanas, vale a pena perguntar o que apareceu primeiro – o funaná ou o punk e o metal? –, numa espécie de ovo ou galinha. É que nem sempre, por mais fecundadas que estejam as nossas raízes, o suposto óbvio é a evidência mais gritante. «O funaná estava comigo, em casa, por herança cultural dos meus pais», começa. «Na verdade – eu, os meus primos e as minhas irmãs –, não gostávamos. Pronto, chega o domingo, é cachupa, cozido à portuguesa, feijoada e lá vamos ter que ouvir o tum-catum-catum-cá… Eu queria era rapalhada! Nasci em Lisboa e depois fui muito cedo para a zona do Oeste – entre o Bombarral e as Caldas da Rainha –, ali não havia a cena afro… Era a minha família! A malta da minha escola era tudo malta do thrash, do crust… Aquilo acabava por ser uma Babilónia de cultura, porque toda a gente junta-se ali. Ouvia muita rádio… Tipo, sei lá, Antena 3 com os programas do Henrique Amaro, Nuno Calado, José Marinho com a cena do rap, António Freitas com o Hipertensão. Ouvia metal, mas às escondidas dos meus primos, porque os gajos diziam logo: ‘Ah foda-se, já está armado em branco…’ ‘Tás a ver? Bué conservadores. Só podias ouvir rap, Michael Jackson ou Prince. Eu ouvia Pantera e Sepultura escondido. Os gajos azucrinavam-me!» Até que se lembra do evidente e repentinamente: «Ratos de Porão era a minha cena! Fui construindo a minha cena até que tive tomates para assumir as coisas que ouço.»

 

À medida que a idade avançou, não só metal e punk começaram a fazer parte da vida de Marcus, mas também, como é agora assegurado com Scúru Fitchádu, o funaná, devido à sua postura em palco entre a dança africana – seja ela sensual ou bélica – e os moves típicos do hardcore com joelhadas e saltos por todo o lado. «Sai espontâneo, é uma mistura. É a maneira como me expresso e como quero que Scúru Fitchádu seja visto para além da música – como um conceito», esclarece, para continuar: «É uma personagem que levo lá para cima [do palco]. Não quer dizer que ande na rua com facas. É uma cena dramática, opressiva, de libertação, quase um haka. Não ensaio nada à frente do espelho, é o que sai ali naquele momento. É um caminho que se está a fazer. Ontem toquei em Guimarães e hoje [em Aveiro] já acrescentei mais umas merdas. Nunca é igual. Até a maneira como interpretamos as músicas…» Interrompendo o seu raciocínio para dizer que aquilo que faz não é ao improviso, mas sim ao feeling, o artista responde com prontidão: «Exactamente. Os meus músicos têm direcções minhas para extravasar. Se o Ronnie quiser deixar de tocar bateria e ir cuspir lá para o outro o lado, ele vai. É esta cena meio jazzística; vamos respondendo uns aos outros nos olhares, nas caretas, no cuspir – há uma envolvência que só conseguimos explicar ali em cima [do palco], que não é premeditada.»

Já se referiu punk e metal, mas não podemos esquecer o hardcore, já mencionado em relação às suas movimentações em palco, até porque neste concerto em Aveiro houve tempo para uma cover da “Attitude” dos Bad Brains. «Não posso vir aqui dizer que sempre curti Bad Brains. Comecei a ouvir Bad Brains quando comecei a ouvir hardcore mesmo a sério… Madball, Cro-Mags… Fui dar aos Bad Brains para aí em 2005, já bué tarde.» Do nosso lado mostramos outro caminho até Bad Brains: de Minor Threat, passando por Youth Of Today. «Minor Threat! Adoro! É uma grande influência, e o gajo nem usa melodias a cantar, é quase monocórdico. Também vou beber aí um bocadinho, assumidamente. Henry Rollins com Black Flag, Discharge já com a cena do d-beat e do anarco-punk. Gosto muito do anarco-punk da Suécia, que é muito d-beat… Tá-tá-tá! Um gajo está sempre a descobrir bandas novas no Obscene Extreme [da República Checa]. Vejo ali muita coisa que meto na minha música assumidamente. É partir pedra, desbravar caminho.»

Portanto, tudo isto embrenhado numa só coisa, que é Scúru Fithádu, pode levar um monte de gente distinta – de punks a metálicos, passando por afros – a um recinto, como aconteceu em Aveiro, o que só deixa o músico em estado de felicidade. «Quando comecei a mostrar as minhas músicas, o pessoal chegava ao pé de mim e dizia: ‘Pá, tu tanto podes tocar em cenas de world music, como em festas mais electrónicas, como em cenas mais violentas.’ Por acaso, abri mais os horizontes quando fiz a primeira parte de Sinistro [em Lisboa, no Music Box], e foi do caralhão. Ninguém conhecia, e eu fiquei ‘isto vai correr mal’, mas correu tudo muito bem.»

 

Quem segue e compra a edição física da Ultraje sabe que temos uma missão clara: pegar num país estranho ao metal, devido a problemas sociais, económicos, políticos e/ou religiosos, e contactar bandas para que nos elucidem sobre a sua cena metal. Nada melhor do que saber algo sobre Cabo Verde do que perguntar a alguém que, mesmo fazendo vida cá, tem conhecimento do que se passa além-fronteiras, como nos conta Sette Sujidade: «Sei que agora, pelo menos em Cabo Verde, já começa a haver festivais e manifestações a sério de cena mais rock, mais pesadão, e não outro caminho que seria mais habitual haver lá. Há um festival chamado Grito Rock, da Praia… Já começa a haver bandas e circuitos, mas são micros. Sei que Angola também tem metal, Moçambique também tem bandas de death metal. O pessoal pensa que é metal com aqueles clichés todos do meio tropical, gajos com cenas tribais e não sei quê… Não, não! É metal convencional, feito lá, com a linguagem de lá, com os problemas de lá. Eles não têm que falar da espada, de Odin e daquela mitologia toda nórdica.» Bruxaria africana é fodida, indagamos. «É uma cena pagã muito fodida. Eles vivem aquilo…» O que nos leva ao black metal, até porque antes já tínhamos discutido a força que black e death metal têm em países como, por exemplo, a Arménia. «Não é a minha cena pela sonoridade. Depois fui criado no meio de Testemunhas de Jeová. Isso ficou impregnado em mim e deixei a cena satânica de lado, apesar de eu saber de onde vem – da Noruega –, sei de Mayhem, sei de Burzum.» Logo, Marcus não está alienado da realidade, mesmo que não faça parte desse meio mais extremo quanto a conceitos anti-religiosos e até, numa facção do black metal, de supremacia racial: «Adorava a “Dunkelheit” [de Burzum]. Até percebia os gajos lá na Noruega; aquela cena completamente conservadora católica e os gajos passarem-se lá no Helvete, ‘vamos queimar isto tudo!’. Eu entendo, ‘tás a ver? Agora quando começam a meter aquelas divindades nórdicas para a cena estúpida de supremacia… [pausa] Mas eu reprovo isso em qualquer que seja a comunidade, reprovo a cena de supremacia – não é para mim, mesmo!»

Claramente, o artista do sul do país precisa de um anti, mas um anti-rotina, como se prova na música que ouvimos em Scúru Fitchádu e na forma como se mexe em palco. «Sim, sim! Exactamente!», exclama. «Eu sou anti-inércia, porque passei muito tempo na inércia. Estou a sair agora com esta cena… Tenho 37 anos e já tinha isto na cabeça há 10, 15 anos. ‘Não, não, agora hei-de fazer!’ E nunca mais. E depois um gajo chega a velho e diz: não fiz porra nenhuma. Não quero viver a rock n’ roll life. Não, man… Estou bem como estou, atingi muita coisa, muita coisa não atingi. Estou óptimo. Se continuar a tocar aqui para estas pessoas, neste registo, vou morrer feliz. E mais para lá acho que perde um bocado a piada.»

«Se continuar a tocar aqui para estas pessoas, neste registo, vou morrer feliz.»

Cada um é como é e cada um vem de onde vem. Se toda a gente tivesse a mentalidade que somos do mundo, não seria tudo melhor? «Então não era? Seria tão bom…», idealiza Marcus. E onde entraria Scúru Fitchádu nesse universo? – perguntei a mim próprio no decorrer da construção deste artigo. Marcus Veiga já tinha dado resposta, era só transcrevê-la: «Metade deste pessoal [em Aveiro] não sabia que três pretos iam entrar em cima do palco. Pensavam que íamos tocar kuduro e levaram uma tareia do caralho! Eu adoro isso! É o que eu digo sempre: Scúru Fitchádu representa outra África, eu sou outra África. Não tenho que estar aqui propriamente com pinturas… [faz caretas] Não estou a dizer que não seja excelente, mas não é a minha cena, não é isso que eu represento. O meu BI é português, eu sou português; a minha família é cabo-verdiana… Eu tenho as duas cenas, eu acumulo, não me digam que eu sou isto e sou aquilo – eu sou tudo! És cabo-verdiano? Sou. És português? Sou. Posso acumular, não tenho que escolher, não tenho que separar.»

Topo