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[Entrevista] Shahyd Legacy: entre o Índico e o Japão

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Ahmed Shahyd, que é comummente conhecido por Shahyd Legacy, vem das Maldivas e regressa aos álbuns a solo com “The Legacy Begins”. Guitarrista virtuoso, o originário do Oceano Índico bebe muito da cultura nipónica como está patente no som de algumas novas faixas, mas a verdade é que os seus ídolos são ocidentais. Na entrevista que se segue, ficamos a conhecer um pouco mais o homem e o artista, bem como a cena metal asiática.

«As bandas asiáticas já começaram a fazer figura.»

Com que frequência é que as paisagens maldivas te inspiram a criar música? Isso tem algum papel na forma como compões?
Devo dizer que quando comecei a minha jornada musical não estava muito virado para a música das Maldivas, porque os meus ídolos eram principalmente internacionais – como Yngwie Malmsteen, Steve Vai e Joe Satriani –, por isso estava mais virado para o rock e metal ocidental. Mas depois do meu primeiro álbum, em 2006, comecei a experimentar a música cultural das Maldivas com rock e metal e gravei algumas canções como contributo para a nossa cultura. Foi desafiante implementar a cultura maldiva na minha música, mas criei um género maldivo único chamado Raa Metal. Embora se desconheçam as suas origens, a rimas exóticas conhecidas por ‘raivaru’ resumem o talento poético e linguístico destas ilhas tranquilas. E recentemente, com a minha nova banda Gravity, tem-se implementado muitos instrumentos tradicionais das Maldivas com os nossos poderosos riffs e melodias.

Claro que temos melodias, mas geralmente as pessoas entendem melhor os conceitos através de letras. Portanto, e tendo em conta que o teu instrumento é a guitarra, como é o processo de transformar sons eléctricos em “palavras”?
Música é universal, portanto, quer sejam letras ou melodias de guitarra, a audiência vai entender o que o artista está a tentar dizer. No meu caso, quando componho música ou quando começo a gravar os meus álbuns, ouço vários géneros – incluindo rock, rock leve, metal, j-pop, j-rock – e também vários artistas instrumentais. Combinando todos estes géneros criei o meu próprio estilo e tento dar o meu melhor para imaginar as melodias que crio na minha cabeça – é sempre uma jornada quando gravo cada álbum. Por exemplo, o meu primeiro disco, “The Sacred Legacy”, foi gravado quando estava muito virado para animes e jogos japoneses, e todas as canções foram anteriormente compostas em 1999 quando comecei a minha carreira musical. Com toda a influência dessas cenas japonesas, gravei o meu primeiro álbum e foi bom mesmo que a gravação tenha ficado uma porcaria, mas canções como “Infinity” e “Before I Die” tornaram-se um êxito instantâneo aqui nas Maldivas e ganhei muitos fãs por causa do estilo que criei.

Realmente ficamos com o sentimento de que há muita fantasia na tua música. Por exemplo, podemos imaginar videojogos e intros de anime em faixas como “The Imitation Game”, “Duel Of Fate” e “Warriors Dawn”. Concordas que há muita fantasia na tua música, certo?
Sim, é verdade. Como doido por anime e manga, obtenho influências de música e bandas-sonoras japonesas, e adoro j-rock e j-pop. Marty Friedman é um dos meus heróis da guitarra e ele também está muito metido na música e cultura japonesa. Fantasiamos sempre sobre algo, e para algumas pessoas é com dragões, reinos mágicos, poderes mágicos e sobrenatural, portanto para criar algo único tens de ser único porque há muitos guitarristas instrumentais a surgir com tanto novo material, e para um artista vindo de uma nação remota como as Maldivas é muito difícil lançar a nossa música. Portanto, para competir nessa corrida temos de criar algo que possa ser reconhecido pela cena musical internacional e quis mostrar à cena local que podemos contribuir. Espero que o meu estatuto rookie cresça com este novo álbum… [risos]

Quanto é que “Gateways” ultrapassou os teus álbuns anteriores?
Bem, antes de lançar o álbum consultei muitos dos meus amigos e colegas de bandas e disseram que este era o meu melhor trabalho, que tinha ultrapassado os meus lançamentos anteriores de muitas maneiras, incluindo a qualidade de gravação e as melodias que tinha sacado para as canções e para os estilos diferentes que fundi nas canções, mas estava à espera das análises e críticas para poder ver o que é que a cena internacional pensa da minha música. Depois de obter algumas críticas fiquei convencido que o álbum está a ser melhor recebido do que pensava. Fiquei surpreendido quando obtive um 10/10 num blog, e quando ouço [as minhas músicas] na rádio faz-me pensar que com trabalho árduo podes alcançar qualquer coisa. Agora quero ultrapassar este álbum. E para o próximo quero criar algo ainda mais único… Todos os meus agradecimentos vão para os meus colegas de banda e fãs que têm estado comigo desde o início da minha carreira e o apoio que me têm dado para criar este álbum incrível. Quero dedicar o disco a eles.

Preferes solos emotivos e sensuais ou shredding?
Gosto das duas coisas. Nem sempre é sobre velocidade ou o quanto consegues esgalhar na tua guitarra, mas para alguns géneros tens de inserir alguma rapidez e shredding, o que torna tudo mais poderoso. Quando comecei a aprender a tocar guitarra, o primeiro artista instrumental que ouvi foi o virtuoso Yngwie Malmsteen – fiquei chocado, fiquei a pensar em quantas notas é que aquele tipo toca num único solo, se eu conseguiria fazer aquilo e tocar assim rápido. Depois de ouvir mais músicas dele percebi que tem tantas melodias emocionais como shredding. Comecei a praticar todos os dias com exercícios, arpeggios e outros licks porreiros de artistas como Andy Timmons, Joe Satriani, Marty Friedman. Comecei a criar os meus licks e padrões que tenho vindo a incluir nas minhas canções. Sei que as minhas músicas têm muitas melodias emocionais com solos harmonizados, porque creio que com emoção e velocidade pode criar-se uma história melhor com a guitarra. Também gosto de esgalhar e faço algumas proezas em concertos só pela piada disso e para mostrar ao público aquilo de que sou capaz.

Pergunta obrigatória: como está a evolução da cena metal na tua região?
A cena metal asiática tem evoluído muito nestes últimos anos com mais e maiores festivais, como o Hammersonic na Indonésia e outros no Nepal. Muitas bandas grandes já estão a fazer digressões nesta região. A Índia tem sido um pólo metal da região asiática e outros países já começaram a reconhecer o metal como um fenómeno global. As bandas asiáticas já começaram a fazer figura e espero que as editoras, agências de booking e promotoras tenham tempo para olhar para estas bandas emergentes. Sei que não vão ficar desapontadas, porque no fim somos todos uma grande família e juntos podemos alcançar muito mais.

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