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The Exploited: antes a morte do que a desonra (entrevista c/ Wattie Buchan)

João Correia

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rsz_the_exploited_4_-_alteradaThe Exploited no Moita Metal Fest 2018 (Foto: João Correia)

«Para a próxima, em vez de o Wattie Buchan ter um ataque cardíaco, o ataque cardíaco vai ter um Wattie Buchan.»

«É sempre a mesma coisa com ele antes e depois dos concertos», diz o baterista dos The Exploited, Wullie Buchan, enquanto se ri de troça e aponta para o irmão, Wattie Buchan, que se encontra à porta do camarim a falar com cerca de 10 fãs que querem tirar fotografias com ele, que lhe dizem “sex and violence” e que despejam informação irrelevante para cima do vocalista. «Fui visitar-te ao hospital quando sofreste o ataque cardíaco», diz-lhe uma fã. Um outro, num Inglês sofrível, diz-lhe (sic) «You are a legendary!». Começo a entender o prazer que Wullie tem em gozar com o irmão, até porque Wattie não se furta a dois dedos de conversa com fã nenhum, mostrando sempre uma paciência que ultrapassa os limites da cortesia. Wullie ri-se de satisfação com a cena à porta do camarim. «É por isto que gosto de ser o baterista – quando o concerto acaba ninguém vem ter comigo, é sempre com ele e, então, eu saio de fininho e fico a vê-lo a aturar os fãs. É que isto é constante, não fazes mesmo ideia!», diz ainda a rir-se da situação à porta.

Só acabados os dois dedos de conversa com os fãs é que reparo que o vocalista sofreu uma transformação dramática em quatro anos – perdeu cerca de 40 quilos desde Agosto passado, deixou de beber álcool, largou definitivamente as drogas e os medicamentos a que esteve agarrado durante décadas e, aos 60 anos, parece um entusiasta do fitness acabado de sair de uma sessão no ginásio. No momento em que escrevo esta artigo reparo que é dia 13 de Abril – foi há precisamente quatro anos que o vocalista dos The Exploited sofreu um ataque cardíaco em palco em Portugal, motivo mais do que suficiente para repensar a vida de excessos que cometeu ao longo dos últimos 40 anos. Depois da cirurgia derivada do incidente quase fatal, a banda remeteu-se a um hiato forçado de vários meses para que o vocalista pudesse descansar e recuperar forças e prometeu iniciar a composição e gravação de um novo álbum para breve. Quatro anos não são propriamente sinónimos de “breve” e, desde então, a banda tem feito tour atrás de tour em todo o mundo. «Na verdade, faz hoje um ano que tive outro ataque cardíaco, tive de fazer um bypass. Os médicos disseram-me que já deveria estar morto. Sinto-me melhor agora em termos de saúde do que nos últimos 10 anos. Por esse motivo, se tudo correr como tem corrido devo agora recomeçar a compor novos temas. É assim: para eu escrever música tenho de estar furioso, tenho de estar zangado. Depois dos concertos que temos em carteira, planeamos ir para estúdio. Na verdade, tenho 16 novas músicas escritas, sabes? Gravaremos o próximo disco em 2019, e podes escrever na tua entrevista que será o nosso último álbum de estúdio.» Espera aí – assim, sem mais nem menos, é o adeus a The Exploited?! «Não, vamos continuar a tocar ao vivo. Mas em termos de discos, será o último. O último foi há 15 anos, não quero deixar ninguém à espera mais 15, entendes? [risos] Depois não devo durar mais 10 anos, pelo que me disseram os médicos. Se daqui a 10 anos ainda estiver vivo, começo a acreditar em milagres.»

Se arredarmos a enorme cortina que rodeia a lenda viva que é Wattie Buchan, interveniente directo da música popular nos últimos 30 anos, desvendamos um ser humano pragmático e conformado com a mortalidade da nossa espécie. Crê que tem cerca de 10 anos de vida, logo, pensa viver esses 10 anos a fazer aquilo que mais gosta. «Tocar ao vivo, claro!» – diz sem hesitar. Mesmo sem ter gravado um disco nos últimos 15 anos, a banda continua mais popular do que nunca. «Gosto de gravar discos, mas para isso tenho de estar a 100%. Quando gravo um disco novo tem de estar tudo a 100% com os The Exploited: a música tem de estar a 100%, as letras têm de estar a 100%. Se acho que uma música está apenas boa ou muito boa, descarto-a. Tem de estar perfeita. As pessoas esperam tantos anos por um disco novo e eu vou apresentar-lhes apenas músicas boas? Não! Tenho de lhes apresentar o melhor que conseguirmos fazer! O próximo álbum seguirá a mesma filosofia, até porque, na minha maneira de pensar, quem gosta realmente da banda já percebe que nós só oferecemos o melhor. E tenho um truque para perceber se a música é perfeita – se de cada vez que a ouço ou canto ficar com pele de galinha, então é porque é perfeita. Eu sei, parece coisa de malucos, mas resulta. [risos]»

rsz_dsc_0475The Exploited no Moita Metal Fest 2018 (Foto: João Correia)

Perceber o inglês cerrado deste escocês é um martírio, principalmente depois de ter revelado pormenores profissionais e pessoais tão importantes. Mas há assuntos que, por mais que a pronúncia do vocalista seja por vezes ininteligível, são impossíveis de não entender. Tomemos como exemplo a importância de temas como “Anti-UK” e “Fuck The U.S.A.” – tratam-se de duas faixas editadas há mais de 30 anos e, ainda assim, estão repletas de contemporaneidade e de significado em 2018 (basta ligar uma TV e ver o que se passa com o Brexit e com os Tories no Reino Unido ou com a personagem que é Donald Trump nos E.U.A.). Quanto mais as coisas mudam… «Embora sejam dois períodos distintos, continua a ser a mesma merda» – começa por responder o vocalista, visivelmente desiludido. «Eles continuam a gastar dinheiro com os ricos e com os seus partidos políticos, mas não investem nos mais desfavorecidos, na classe trabalhadora, nos desalojados. Continua tudo igual, é cíclico. No caso da Escócia, então, é terrível. Ao contrário de Inglaterra, a Escócia votou para permanecer na Europa, mas repara: a Escócia tem 5.5 milhões de habitantes, ao passo que a grande área de Londres tem cerca de 20 milhões. Mesmo assim, lutámos contra isso e vamos continuar a lutar, porque nós não culpamos os “malditos imigrantes” para desculpar péssimos políticos e péssimas medidas políticas, isso é completamente estúpido. Deixa de ser patriotismo para passar a ser racismo. Racismo e estupidez, é uma coisa digna de idiotas. Logo, sim: quanto mais as coisas mudam, mais continuam na mesma.»

E é precisamente aqui que entra a cultura punk, “o punk”. O punk inspirou a luta contra a injustiça, contra o sistema, mesmo que apenas verbalmente. No entanto, vivemos numa época de acta non verba, de acções e não de palavras, e cujos representantes mais beligerantes são os Antifa nos Estados Unidos da América. No entanto, o que começou por ser um movimento antifascista cedo se tornou num circo dominado por extremistas/fundamentalistas que, em muitos casos, nem sequer fazem ideia daquilo contra o que lutam, apenas lutam por lutar ou pelo prazer em destruir algo que nem sequer compreendem. Tempos interessantes, certamente, mas também muito difíceis e ambíguos. Afinal, o que é ser punk? «Penso que inspirámos algumas pessoas. Houve fãs que já nos disseram que a nossa música ajudou a ultrapassar momentos menos bons das suas vidas. Não quero parecer cínico, mas, para mim, isso é melhor do que dinheiro – na verdade, para mim isso é ouro. Há alguns anos fomos a uma cerimónia de prémios da indústria musical e estavam lá os Green Day. Um dos gajos dessa banda veio ter comigo quando eu estava acompanhado pela minha namorada e disse-me: “Quando morreres hei-de rir-me à brava e hei-de dançar em cima da tua campa”. Passei-me! Alcei o braço atrás para lhe pregar um morteiro, que foi quando a minha banda me agarrou e nos separou. Mas disse-lhe que, por mais dinheiro que ele tivesse, nunca iria ter aquilo que eu tenho, que é o respeito da comunidade punk. Se esses gajos nem sequer são punk, como é que poderiam ter o respeito de uma comunidade tão íntegra e desinteressada por dinheiro? Para mim, o verdadeiro significado do punk vem ao cimo quando alguém me diz que, de alguma forma, o nosso som ajudou alguém a sentir-se um pouco melhor, que incentivou alguém a lutar por justiça. Há punks no Norte de Portugal que nos apoiam imenso, conheço-os pessoalmente há mais de 30 anos, e fazem-no porque somos violentos, porque dizemos a verdade, as coisas como elas são. Não tenho medo de dizer nada a ninguém. Se alguém me perguntar seja o que for, não tenho papas na língua, digo aquilo que penso sem pensar duas vezes. Eu sei que os punks portugueses apoiam muito os The Exploited, pois respeitam-nos pelo que somos. É isso que o punk significa, ter orgulho em seres fiel àquilo em que acreditas.»

No entanto, o conceito de punk parece ter-se afastado da sua ideologia ao longo das décadas, como se ele tivesse sido criado apenas devido ao descontentamento com a profunda crise vivida no Reino Unido em finais da década de 1970, como se hoje em dia não houvessem motivos para estarmos insatisfeitos. Em termos musicais, então, é deprimente pegarmos num disco lançado entre 1977 e 1980 e compará-lo com o aquilo a que chamam de música punk actualmente, como os referidos Green Day. «Hoje em dia, ouço música techno, gabba holandês… Nada a ver com o punk clássico, mas é música muito agressiva também. Para mim, é o tipo de música mais relacionado com o punk, honestamente. Vais ouvir as chamadas bandas “punk” norte-americanas e é tudo uma valente merda; nem é punk, é música pop. O punk é sobre revolução, sobre problemas sociais, sobre música cheia de raiva. O punk não é a cerimónia dos Grammys, não é sobre venderes dezenas de milhões de discos. Assim, ouço o que me agrada, mesmo que não seja punk. Ouço também The Cure. Ouço Suicidal Angels, são uma banda que gosto imenso. Ouço Exodus, Destruction… Até Lady Gaga ouço. Ouço um pouco de tudo. Como disse há pouco, ser punk significa seres tu próprio, ser fiel à pessoa que és. Não significa que não mudes a tua maneira de ser caso isso te proporcione maior bem-estar. Por exemplo, eu tive cinco overdoses de speedball. [N.R.: mistura de cocaína com heroína] Como à quinta vez percebi que se calhar não iria ter muito mais oportunidades, larguei as drogas todas. [risos] Perdi muito peso, principalmente depois de ter largado as bebidas espirituosas e de ter começado a fazer exercício a sério no ginásio. Antes, andava cinco metros e começava a arfar de esforço. Fui a uma clínica especialista, larguei lá uns quantos milhares de libras em seis semanas e agora sinto-me forte como um touro, principalmente mentalmente, depois de ter optado por uma vida mais saudável. Para a próxima, em vez de o Wattie Buchan ter um ataque cardíaco, o ataque cardíaco vai ter um Wattie Buchan. [risos]»

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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