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Theriomorphic: da besta e do homem (entrevista c/ Jó)

João Correia

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Para os Theriomorphic, tudo começou em Lisboa em 1997 pela mão de . O Jó dos Theriomorphic. Ao longo de 21 anos, o vocalista/baixista experimentou alguns altos e baixos com a sua criação, mas sempre encarou a banda como um passatempo que lhe permitiria fazer aquilo que mais gosta – tocar metal. Com a recente edição de “Of Fire and Light, que demorou 10 anos a ver a luz do dia, apanhámos o Jó no Barroselas e aproveitámos para o questionar sobre passado, presente e futuro da banda. Sente-se que a espera valeu a pena se ouvirmos as diferenças entre o novo EP e “The Beast Brigade”: enquanto o LP apresenta um death metal mais orientado para a velha-guarda sueca e mais sem rodeios, o recente EP parece privilegiar um som mais moderno, por vezes a roçar o black metal, mas também muito mais melódico. Em 10 anos muita coisa muda, mas, principalmente, as pessoas e as coisas evoluem – caso dos Theriomorphic. É importante perceber o que é que a banda andou a fazer durante uma década para também entendermos a diferença sonora do último registo para este. «A banda não esteve completamente parada, mas avançou de forma lenta, ao ritmo de cada um devido à idade, família e trabalho», começa por dizer Jó. «Depois, também trabalho com pessoal que tem outras bandas, o que, por vezes, não agiliza muito as coisas. Tínhamos de gravar um tema para um tributo a Simbiose e sugeri gravarmos mais qualquer coisa, os quatro temas propriamente ditos deste EP. A bateria foi gravada há 2 anos; o resto do trabalho foi um bocado lento também por coisas que não interessa esticar-me. [risos] Deveria ter saído muito mais cedo, em finais de 2016, mas as coisas foram-se complicando e fomos demorando até este ano. Em termos de ideais, ser ou não mais moderno é um pouco relativo, pois vamos misturando influências antigas com as mais recentes; não queremos soar a uma banda dos anos 80 ou 90; há uma mistura de um pouco de tudo, da onda americana à sueca. Na Suécia há a onda mais melódica e old-school, tipo Dismember e Entombed, que são duas influências. No fundo, essa junção de diferentes influências, incluindo os toques de black metal, não são de todo uma novidade. Tem muito a ver com o timing em que elas saem. Algumas músicas foram concluídas há algum tempo e poderiam ter sido lançadas antes.»

«A banda não esteve completamente parada, mas avançou de forma lenta, ao ritmo de cada um devido à idade, família e trabalho.»

Os toques de black metal parecem ter-se intensificado um pouco mais desde a entrada de João “Deris” Duarte na banda. Devido ao histórico relevante de black metal do guitarrista dos Theriomorphic, poderia parecer uma coisa natural que, aquando da sua entrada em 2009, o som da banda passasse a ter uma componente mais vincada, mais rápida e crua associada a esse movimento. Mas, como sempre, o que parece engana. «Na verdade, isso não veio dele, são coisas minhas, logo haver algumas notas a apontar para o black no primeiro álbum. [risos] Com o pessoal com quem gravei na altura, essa aproximação pode não parecer tão óbvia, mas são coisas minhas. Ele entrou a seguir ao segundo álbum e não chegou a gravar nada lá. Nestes temas novos, ele gravou os solos e todas as guitarras, mas eu tomei as rédeas da composição juntamente com o Kaveirinha dos Gwydion, que, entretanto, saiu. O João tratou dos solos e deu uns toques para melhorar o trabalho e sente-se um bocado a diferença. Mas, curiosamente, as partes mais a soar a black metal são minhas. [risos] Ele adequa-se mais a isso, mas são minhas. Por outro lado, não existem regras estabelecidas no nosso death metal. Das várias vertentes existentes de death metal, não tocamos um género ou outro. Depois, também gosto de bandas de black metal antigas, tipo Bathory principalmente, logo é natural que, por arrasto, o disco soe a black. É daquelas bandas que marcou muita gente e muitas bandas. Mas o som não tem de ser só death metal: se surgirem boas ideias dentro do heavy ou do thrash que se adequem aos temas, então poderão ser utilizadas. Uma das coisas que mais gosto nos Theriomorphic é a mistura de tudo um pouco e acho que é por isso que o fazemos com mais gosto e que o som sai um pouco diferente. Não é um som original, mas gostamos de nos desviar das bandas que seguem apenas um género específico.»

A banda mantém o núcleo do Jó, do André e do João Duarte desde 2009. Entretanto, passaram cerca de 11 instrumentistas pelos Theriomorphic. Ainda no registo das guitarras – e para além da inclusão de Deris – houve dois convidados de peso no novo registo: Miguel Tereso (Primal Attack) e o Ivo Martins (Grog), que adicionaram bastante qualidade ao EP, mas isto levanta a questão do porquê de os Theriomorphic nunca terem conseguido segurar o mesmo guitarrista lead em mais do que um registo. «Voltamos à fórmula da vida pessoal de cada um e musicalmente também tem de existir uma certa sintonia entre os membros da banda. Nem sempre as pessoas querem tocar a mesma coisa ou têm os mesmos gostos que nós. Tivemos alturas em que as coisas corriam bem com certos elementos e, de repente, eles sentiram a necessidade de tocar outros estilos que divergiam do dos Theriomorphic; ainda que sem regras, tentei sempre manter-me fiel ao trajecto da banda desde o início, não convém exagerar, [risos] mas as pessoas queriam fazer coisas diferentes; ou então são incompatibilidades com o trabalho, coisas que interferem com os concertos, ou chatices do dia-a-dia; continuamos amigos na mesma mas, por vezes, há um pouco menos de paciência porque as coisas não estar a funcionar bem e as pessoas saem, pronto. São coisas normais. Ninguém vive disto. [risos] Se fosse um emprego… E há bandas em que o pessoal se tem de aturar uns aos outros porque é o trabalho deles. [risos] No nosso caso, e em relação às colaborações, gravámos os quatro temas principais do EP e decidimos experimentar um pouco, fazer algo que não tivéssemos feito anteriormente para mostrar outra faceta dos Theriomorphic. O Deris teve de fazer quase tudo sozinho, até porque o nosso som exige duas guitarras, logo, ritmo e solos. Convidámos pessoal assim como já o tínhamos feito antes e, no caso do Ivo, foi mesmo querermos apostar em algo diferente, pois o que ele faz nos Grog não tem nada a ver connosco. [risos] Isso fez com que adicionássemos mais algum tempo ao EP, com coisas diferentes.»

«Ainda que sem regras, tentei sempre manter-me fiel ao trajecto da banda desde o início.»

Realmente, há uma nova dinâmica neste novo registo e os principais culpados disso são os pequenos interlúdios entre as músicas. Intros e outros já existem desde os primórdios dos heavy metal, mas uma intro seguida de uma faixa, seguida de uma interlúdio, seguido de outra faixa, etc. é algo de rejuvenescedor. Depois, é impossível descolar de “One Last Sunrise” por ser uma passagem tão catchy, o que confirma as palavras de Jó em relação a querer criar algo distinto, mas sempre na mesma linha do death metal clássico. «Nessa, o Ivo entra a solar e o Tereso faz o segundo solo da música [risos]», retoma Jó. «Essas pequenas peças são coisas que eu gostava de já ter feito anteriormente segundo as nossas possibilidades; embora no segundo disco já existam uma intro e a instrumental no fim do álbum. Estes temas ajudaram a ganhar cerca de cinco minutos adicionais de música para o trabalho. São coisas que nem sempre são possíveis fazer; neste caso, como tivemos bastante tempo para fazer o EP, muito devido a atrasos, [risos] permitiu-nos fazer isto desta forma em vez de gravarmos os temas todos de rajada. Isso fez com que déssemos outra dimensão à coisa e mostrássemos algo um bocadinho diferente dos habitual dos Theriomorphic. Isto também não é novo, já tinha esta ideia em mente há bastante tempo, mas nunca se proporcionou. O Kaveirinha também ajudou nisso no princípio das gravações, com arranjos que ele costuma fazer para recriações medievais, hoje em dia existem bastantes eventos desses. Como para esses espectáculos ele compõe uma espécie de bandas-sonoras, fez o mesmo com Theriomorphic e apresentou outra coisa que não guitarras e bateria do princípio ao fim.»

Como se não bastassem os atrasos, os impedimentos e o trabalho com os interlúdios entre faixas, a banda também parece ter apostado numa produção mais adequada ao novo EP e aliada a orquestrações mais complexas, sendo que Jó tratou da própria programação MIDI. Assim, não só é o trabalho mais complexo dos Theriomorphic como também parece ser o que contou com mais convidados até agora. Ou seja, uma dor de cabeça. «Muito grande. [risos] Como disse, as coisas foram-se atrasando por falta de disponibilidade das pessoas em algumas alturas. Não era suposto isto ter demorado tanto tempo a sair e, a determinada altura, começaram os nervos para acabar isto e tivemos de adiar, adiar, adiar… Isto foi anunciado [para] sair em 2017. Também poderia ter corrido de outra maneira se tivesse havido um pouco de mais vontade da parte de toda a gente, mas foi algo que se foi arrastando e que se tornou num projecto muito irritante de se fazer. [risos] Quase dois anos e começa a tornar-se complicado, e tu queres acabá-lo.» De facto, nem a ideia aparentemente mais simples de o lançar através da sua editora ajudou muito na criação de um processo sereno. «Só foi mais fácil porque se tratou de uma edição digital e até porque a ideia inicial era essa. Como é um EP, parte-se do princípio que as pessoas não terão tanto interesse em comprar. Se os CD já vendem pouco, um EP, então, ainda pior. [risos] Nos tempos que correm também é muito mais comum as pessoas ouvirem música na Internet, no YouTube, etc.; hoje em dia, começa-se até a perder o interesse em descarregar mp3 e carregá-los para leitores de mp3 ou telemóvel e ocupar espaço e afins; logo, a ideia foi meter a cena online para tentar chegar a toda a gente, para as pessoas que tenham curiosidade em ouvir a banda e até conhecerem os álbuns antigos. Vamos começar a ver qual a hipótese de fazer uma edição física. Após as pessoas ouvirem online, pode ser que o interesse seja maior em comprar a edição física. E também talvez seja mais vantajoso fazê-lo do que lançá-lo e vendê-lo sem que as pessoas o ouvissem previamente.»

Curiosamente, em 21 anos de carreira os “álbuns antigos” são só dois. É certo que, a este nível, uma banda é um filho – vai-se tratando dele ao longo do tempo no melhor das nossas possibilidades, faz-se crescer pacientemente. Contudo, não só a oferta é nitidamente pequena, como é meio incompreensível o facto de os Theriomorphic nunca terem apontado para níveis mais elevados. Presumivelmente, tudo o que o vocalista e mentor da banda referiu até agora foram factores mais do que suficientes para isso. «Sim, acaba por ser uma conjugação de factores: falta de tempo, vida pessoal e profissional, várias pessoas a entrarem e saírem da banda… Tudo isso contribuiu um bocado. Durante bastante tempo tivemos pessoas a entrarem e a saírem e no mês seguinte tínhamos um concerto marcado. Assim, tivemos de arranjar pessoas com capacidade para aprenderem a tocar os temas ao vivo, não podia ser qualquer pessoa. Então, quando começamos a marcar muitos concertos ficamos sem tempo para compormos músicas novas. Paras de tocar e deixa de haver concertos, ensaios… Acabas por não compor porque te encontras menos vezes com as pessoas. Há uns anos era bastante normal as bandas terem uma garagem, um local de ensaio onde, pelo menos uma vez por semana, as pessoas juntavam-se e iam fazendo coisas; hoje em dia, isso quase que acabou: as pessoas moram em sítios diferentes, têm falta de tempo, ou então vai-se a um estúdio durante uma hora ou duas ensaiar. Já não existe aquele poiso fixo para se fazerem as coisas. Quando as pessoas deixam de se encontrar, as coisas não se fazem tão depressa. Depois, gosto de chegar à versão final das músicas e de ficar satisfeito com aquilo que fiz. Fazer as coisas mais apressadamente apenas para lançar discos e depois ouvi-los e não gostar daquilo também não me parece que seja sequer desejável. Prefiro demorar mais tempo e fazer bem, pois isso reflecte-se também nos ouvintes quando editamos alguma coisa.»

«Prefiro demorar mais tempo e fazer bem, pois isso reflecte-se também nos ouvintes quando editamos alguma coisa.»

Mas a extinção das garagens como sítio de ensaio não foi a única grande mudança no nosso panorama nacional nos últimos 10-15 anos, e Jó sabe disso: «Não tem sido fácil; há coisas que melhoraram, o nível foi subindo, mas isto não evoluiu muito. Este ano, por exemplo, vão deixar de haver eventos como o Santa Maria Summer Fest por culpa das autarquias e por causa de as pessoas não gostarem ou não se darem ao trabalho de conhecer. Até parece que não é cultura ou que não deveria estar incluído numa programação de cultura para oferecer às pessoas. E até pelas pessoas que vêm de fora e que dormem e comem e que dão dinheiro a ganhar. Há muita falta de visão. Há muitas coisas que melhoraram, mas não foram dados passos assim tão grandes; poderíamos estar bem melhores em vez de isto se andar a arrastar. Mesmo o Barroselas tem um caminho definido e não evolui muito mais do que isto porque não é fácil fazer as coisas – as pessoas pensam que sim, mas não é, há sempre muito risco envolvido e o que acontece muitas vezes é que o prejuízo financeiro arruma com as iniciativas. Ainda se desse para pagarem a despesa, penso que as pessoas continuariam a ter força para lutar e dar continuidade à coisa, mas quando perdem dinheiro, e com todas as chatices que isto dá, é natural que esmoreçam.»

A entrevista chegava ao fim, mas ainda ficava no ar uma questão importante – geralmente, um EP é sinal de disco novo a caminho, mas, depois dos atrasos e adiamentos consecutivos dos Theriomorphic (e tendo em conta que “Of Fire And Light” tem pouco mais de um mês de existência e que a banda com certeza o irá promover na estrada nos tempos vindouros) fica tudo em aberto. Ou não? «Temos ideias antigas que fomos acumulando e gostaria agora de pegar nelas para as começar a definir. Já temos um tema mais ou menos alinhavado, bem como várias ideias soltas para temas em que temos de pegar. No fim do próximo ano ou do seguinte gostaria de ter algo cá fora, mas pela experiência que tenho nisto sei que vai ser um pouco difícil. [risos] Vamos tentar, para que em 2019 ou 2020 tenhamos alguma coisa nova em carteira. Com o EP recente pode ser que isto motive a banda a andar mais rápido.»

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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