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Undersave “Sadistic Iterations (Tales Of Mental Rearrangement)” [Nota: 7.5/10]

João Correia

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694062Editora: Chaos Records
Data de lançamento: 26 Março 2018
Género: death metal

Seis anos após o muito bem-recebido “Now…Submit Your Flesh to the Master’s Imagination”, os Undersave regressam ao formato nobre com “Sadistic Iterations (Tales Of Mental Rearrangement)”, um disco aguardado com expectativa por parte da comunidade orientada para a vertente mais agressiva do metal. A expectativa é simples de explicar: com esse álbum de estreia, os Undersave deram início à sua discografia com um disco recheado de malhas fortes, técnicas, old-school e que nos fizeram lembrar dos tempos em que velocidade e show-off instrumental exagerado eram bem menos importantes do que apresentar um trabalho vindo de dentro. “Sadistic Iterations (Tales Of Mental Rearrangement)” é um disco capaz de dividir as massas – se por um lado continua a apostar na estética musical do death metal clássico com técnica e ferocidade, por outro contém opções pouco ortodoxas que o deixam uns furos abaixo do longa-duração de estreia. Vamos a ele.

A principal diferença positiva de “Sadistic Iterations (Tales Of Mental Rearrangement)” em relação ao seu predecessor encontra-se nas guitarras: estão mais espessas em termos de peso, oferecem solos e riffs que farão as delícias dos fãs de bandas como Brutality ou Morbid Angel (principalmente em “Hereditary Condemnation Through Immunity”), respectivamente, sendo visível que o trabalho das seis cordas é a bússola para os restantes instrumentos. Ademais, neste campo ainda é de louvar o esforço técnico que ultrapassa sem dificuldade o álbum de estreia, como é possível verificar em temas como “Grant Courage To This Man Who Is About To Die” ou “He’d Promised You He’d Be Brief…”, repletos de variação e de inspiração por parte da secção de cordas.

Mas também existe uma principal diferença negativa, desta feita, na voz; ou melhor, em certos segmentos vocais que, lamentavelmente, não resultam. Os growls estão no ponto, podres e na melhor tradição do death metal norte-americano. Os screeches também, e, em conjunto com os growls, lembram por vezes Chris Barnes no seu prime, mas depois surgem alguns gritos mais agudos que não resultam, tanto ao nível de tentativa de inovação (o que é bastante saudável / louvável) como de adequação ao género praticado. Alguns soam mesmo a desafinados. No entanto, é necessário aprofundar um pouco mais a tentativa de inovação vocal da parte de Nuno Braz – em termos de vocalização, o death metal é um género quase estático e pouco emocionante. Assim, é natural que o vocalista tenha tentado imprimir alguma variação e cunho ao que revela menos emoção. Se em trabalhos como “The Bleeding” se deu um ponto de viragem no paradigma das vocais do death metal graças ao tremendo esforço e experimentação de Chris Barnes, o mesmo não acontece no novo trabalho dos Undersave.

A produção alcança um nível raro de precisão quando apresenta uma qualidade sonora típica dos melhores trabalhos saídos dos Morrisound Studios, logicamente que com a pegada de 2018, mas que nos faz regressar a outros tempos onde tudo era mais puro e orgânico. Por fim, um reparo que poderá ou não fazer diferença, consoante o tipo de ouvinte: os temas são alongados de mais para criar aquela sensação de familiaridade que leva os ouvintes a querer repetir o disco porque se lembram desta ou daquela passagem, logo, ou eles deixam que o disco cresça ou o mais provável é que o ignorem ao fim da primeira audição por lhes parecer apenas mais um trabalho típico de death metal (que não é, felizmente).

Assim, “Sadistic Iterations (Tales Of Mental Rearrangement)” é um disco competente e que cumpre o que se propõe fazer: apresentar uma rodela de bom death metal clássico, talvez do mais interessante em Portugal no tempo presente, mas que carece que certos pontos sejam limados para que “competente” passe a ser “obrigatório”. Não sendo um disco decepcionante, esperava-se mais em 2018 dos Undersave. A nota reflecte o disco aos olhos de um fã de death metal experiente. No caso de um menos experiente, a opinião pode divergir para uma nota inferior.

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Venom “Storm the Gates”

João Correia

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Editora: Spinefarm Records
Data de lançamento: 14 Dezembro 2018
Género: black/thrash metal

É redutor (e até massacrante) referir a importância dos Venom no universo do metal extremo com tudo o que isso aparca: o início selvagem, as alterações de som, a saída dos membros fundadores, o drama envolvido nas disputas entre Venom e Venom Inc., etc.. Afinal, o que importa é sempre a música. Felizmente, estes Venom conseguem trazer-nos um disco de heavy metal da velha-guarda que ultrapassa todos os feudos possíveis, mesmo que de forma limitada.

“Storm The Gates” é o 15.º álbum de estúdio do nome Venom, e quando brilha (o pouco que brilha) é por culpa de Rage e Danté. Se estes dois integrantes pouco ou nada tinham para apresentar devido a passagens anteriores em bandas perfeitamente desconhecidas, é a eles que se deve a vitalidade que encontramos no novo disco, principalmente a Rage. A faixa de abertura “Bring Out Your Dead” revela-nos o que os Venom sempre tiveram como garantido – uma produção bastante agressiva, um som afiado que nem facas e uma secção de percussão simples, mas eficaz. Quanto à voz, mantém-se igual a tantos outros discos de Venom dos velhos tempos, mas quando percebemos as letras, quase que dá para chorar, se não vejamos esta infelicidade extraída de “Dark Night Of The Soul” e saída da pena de Cronos:

“Hey, you motherfucker
What you lookin’ at?
What a fucking loser
Acting like a twat!”

Felizmente, Rage apresenta-nos riffs e estruturas memoráveis, daquelas que entram e não saem e que rapidamente nos fazem esquecer a apatia e ausência de espírito de Cronos – quer no riff inicial de “Bring Out Your Dead”, quer na estrutura viciante de “Notorious”, é fácil de perceber que o pilar principal é o guitarrista. O trabalho de baixo é relativamente inexistente, como se o vocalista/baixista estivesse a cumprir calendário porque a isso é obrigado. O trabalho de bateria é competente, mas muito distante de fantástico. Outra vez – obrigado por salvares o disco, Rage.

As faixas vão-se sucedendo a um ritmo agradável e não causam aborrecimento a qualquer género de fã de metal, até porque se trata de um trabalho tradicional. O motivo para ‘espanto’ surge quando Rage debita um delicioso solo Maidenesco em “100 Miles To Hell”, uma das faixas em que Cronos mais se destaca, mesmo que sem brilhar. “Destroyer” evidencia um pouco mais Danté ao comando das baquetas, mas sem grande emoção. Entretanto, Rage congemina novamente um bom solo caótico, voltando a salvar o dia. “The Mighty Have Fallen” apresenta a passagem mais violenta/rápida de todo o disco, convencendo com a sua cadência e… (drum roll) não um, não dois, mas três majestosos solos de Rage a lembrarem Slayer antigo – vale a pena repetir a faixa apenas para os ouvir de novo. Na seguinte e também bastante rápida “Over My Dead Body” ocorre a simbiose entre Rage e Danté, criando um novo organismo que começa a parecer-se com uma banda clássica. Cronos balbucia qualquer coisa irrelevante e repete a palavra “Propaganda” demasiadas vezes, fazendo lembrar um animal encurralado que, por força das circunstâncias, tem de atacar em vez de se defender, mesmo que de forma atabalhoada e que por isso lhe poderá custar a vida, um tudo-ou-nada por assim dizer. Mesmo nas faixas finais “Suffering Dictates”, “We The Loud”, “Immortal” e a derradeira “Storm The Gate” vingam graças ao homem das seis cordas, que devia receber mais royalties deste disco do que qualquer outro dos seus músicos.

Assim é “Storm The Gates”: um trabalho acima de previsível, mas abaixo de cativante, e no qual o guitarrista de serviço faz a festa, lança os foguetes e apanha as canas, evidenciando-se e destacando-se do marasmo ou desinteresse de Cronos e da falta de culpa de Danté, o que evita que uma banda lendária se torne vítima de si própria. É fácil repetir a audição do disco; não se trata de um colossal tiro no pé, mas está muito aquém das expectativas que um disco de Venom costuma trazer. Outra vez: sem Rage ao comando, os Venom que ouvimos em “Storm The Gates” seria uma embarcação errática, desnorteada e pouco importada em chegar a terra firme.

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Obliteration “Cenotaph Obscure”

Rui Vieira

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Editora: Indie Recordings
Data de lançamento: 23 Novembro 2018
Género: thrash/death metal

“Cenotaph Obscure” é a quarta investida em formato longo-ataque destes noruegueses oriundos de Kolbotn, local onde se formaram os míticos Darkthrone em 1986 (ainda como Black Death). O quarteto é relativamente ‘recente’ (2004) mas sobressai pela sua produção regular até este último álbum. A Noruega é mais conhecida pelo bacalhau e pelo black metal mas alguns nomes ligados ao death metal – Zyklon, Blood Red Throne, Myrkskog ou Cadaver – têm trilhado o seu ‘árduo’ caminho nos últimos anos e a esses juntam-se os Obliteration na sua batalha pelo reconhecimento, pois há mais vida para além do black metal na Noruega. Digamos que a receita é pouco ortodoxa: death clássico + pitada de black + doom q.b. e voilá! Um som que tem tanto de (semi) original como de difícil digestão. Quarenta minutos desta receita não é para qualquer um, pois não é death metal in your face, aquilo que o comum fã procura nesta sonoridade. As suas divagações por outros géneros musicais poderão dispersar a atenção e, de facto, é isso que acontece. Para além desse factor menos positivo e, pese embora as várias influências referidas, acresce falta de variedade ao longo destas sete faixas. Não transparece ao início com o tema-título mas com o avançar do álbum já não nos lembramos das faixas anteriores e esse é o indicador-mor se estamos perante algo memorável ou apenas passageiro. Gravado nos estúdios Cobra (Estocolmo) com Martin “Konie” Ehrencrona, a produção está óptima e orgânica, ouvindo-se todos os instrumentos na perfeição, e mesmo a bateria, ainda que meio necro, está em bom plano e adequada à sonoridade final. Mas mesmo todas as qualidades técnicas e resultado final não são suficientes para retirar este álbum da mediania.

Nota Final

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Kishi “Depois da Meia Noite”

Diogo Ferreira

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Editora: independente
Data de lançamento: 10 Dezembro 2018
Género: stoner rock

Lá para os lados do Japão há um Ichi the Killer, em Angola há um Kishi que é mestre da dor, um demónio animal, um filho daquela terra. Fundados em Outubro de 2017, o quarteto que toca stoner lançará brevemente o primeiro álbum “Depois da Meia Noite”, trabalho que tem uma abordagem muito directa ao género musical. Sim, é stoner como tantas outras bandas, mas com uma aptidão de espontaneidade interessante. Isto é, a maioria das faixas (são oito ao todo) nem chegam aos três minutos de duração – como uma atitude punk – e são assim comprimidas em malhas distorcidas bastante orelhudas que fornecem um groove que faz o corpo gingar. Soando mais a estrada do que a deserto, há ainda um baixo gordo que se vai ouvindo bem e uma bateria coesa que sabe onde estar neste estilo. Por fim, mas igualmente importante, até porque é dos primeiros elementos que saltam ao ouvido, a voz rouca está muito bem aplicada e pensada.

Apesar de toda a straightness, os Kishi acabam por deixar que outros pozinhos de perlimpimpim extra-stoner se intrometam neste empreendimento – a saber: a faixa “Som da Birra” incute-nos paisagens psicadélicas e a última “Kianda” encarrega-se de nos relembrar de Black Sabbath. Nota mais ainda para a utilização de língua portuguesa no tema homónimo, algo que aparenta assentar de forma sincera, mais do que o inglês, na sonoridade desta banda sediada em África. Não são obviamente a única banda rock/metal vinda de Angola (há, por exemplo, Horde Of Silence e Dor Fantasma) mas, e com este “Depois da Meia Noite”, os Kishi podem muito bem ser a catapulta que falta a esse país para invadirem, pelo menos, o underground português – a língua é a mesma, é de aproveitar!

Nota Final

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