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Urze de Lume “As Árvores Estão Secas E Não Têm Folhas” [Nota: 8.5/10]

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29136470_10155474216971194_802058479371026432_nEditora: Equilibrium Music
Data de lançamento: 10 Março 2018
Género: dark folk

À medida que o quarto trabalho de Urze De Lume entrava lentamente na memória do Crítico, uma frase voltava insistentemente à sua cabeça. Tenho de ser imparcial. O Crítico escrevia críticas. Era o que fazia e o que o definia. Ele orgulhava-se secretamente do poder de induzir indivíduos a ouvirem discos, a descobrirem projectos e gostava de pensar que mudava o mundo, um interior de pessoa de cada vez. Mas, em mais uma audição de “As Árvores Estão Secas E Não Têm Folhas”, enquanto repetia para dentro Tenho De Ser Imparcial, percebeu que já não era
– tenho de ser imparcial
Era
– tens de escrever o que te vai aí dentro
E quem o dizia já não era a sua voz interior. Era a voz da Avó Rosa. Era a voz do Avô Chico, da Avó Maria Pereira e do Avô Silvino. E, por uma vez, o Crítico não se preocupou em pesquisar o que os outros Críticos pensavam do disco. Não pensou nos adjectivos certos para equilibrar o texto. Não andou pela sala a medir palavras, não foi tirar a roupa da máquina e não inventou a Mijinha da Crítica a meio da escrita para ponderar a próxima frase. E, pela primeira vez, foi parcial.

É isto que os Urze De Lume fazem em “As Árvores Estão Secas E Não Têm Folhas”. Deixam de lado, tal como tinham feito em “Vozes na Neblina”, a parte mais tribal e festivo do folk para mergulharem num mundo de melancolia, introspecção e contemplação. Fazem-no com canções onde a viola campaniça, a guitarra acústica, a rabeca e a flauta assumem as principais despesas dos arranjos melódicos, mas onde a percussão suave, a gaita e a voz completam os temas com pormenores discretos mas soberbos. E o resultado é uma espécie de ponto de intercessão entre o dark folk e a alma colectiva lusitana, uma delicada ode nocturna que tomou lentamente o Crítico de assalto e o levou para lá da habitual postura de imparcialidade, para um mundo de arrebatamento em que voltou a ser um fã de música inocente e entusiasmado. E, enquanto o Outono que serve de mote a “As Árvores Estão Secas e Não Têm Folhas” morria placidamente na noite lá fora para dar lugar à Primavera na incessante Roda da Vida, o Crítico escreveu o que lhe ia na alma e, pela primeira vez, sentiu que ia um bocadinho de si no que escrevia, que o texto era mais do que uma Crítica Imparcial. Desligou o computador e foi dormir, enquanto ao seu lado o Avô Chico aprovava silenciosamente, o Avô Silvino rebentava de orgulho no olhar, a Avó Maria Pereira sorria e a Avó Rosa dizia baixinho
– dorme bem, neto.

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1914 “The Blind Leading The Blind”

Diogo Ferreira

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Editora: Archaic Sound
Data de lançamento: 11 Novembro 2018
Género: death/doom metal

Formados precisamente no ano em que se assinalou o centenário do início da Primeira Guerra Mundial, esta banda ucraniana versa precisamente sobre isso através de um death/doom metal melódico com apetrechos bélicos à mistura, como conversas entre soldados ou sons de material de guerra. Curiosamente, o novo trabalho que aqui analisamos foi lançado no dia em que se assinala também um outro centenário, o do término da contenda.

Sendo um dos conflitos mais desastrosos e horríveis de toda a História Mundial, a Guerra de 1914-1918 fica invariavelmente em segundo plano quando se fala do remake (no pun intended) ocorrido entre 1939-1945 por vários motivos, destacando-se, por exemplo, a falta de documentos visuais ou de grandes operações de bravura. No entanto, não deixamos de frisar que foi um dos momentos mais negros de sempre em que milhares e milhares de jovens pereceram não só em combate por uns metros de terra mas também nas execráveis trincheiras de onde não se saía durante Invernos a fio. Com este empreendimento musical, os 1914 não tomam partidos nem se querem apresentar como instigadores de guerra, são apenas amantes da História e querem contar o que naqueles quatro anos aconteceu desde Gallipoli à Itália, de Ypres à Rússia, passando pela Áustria e Hungria.

Neste segundo longa-duração, o quinteto de Lviv proporciona aos ouvintes uma produção plena e atmosférica que equilibra bastante bem todos os elementos que necessitam forçosamente de se ouvir como um todo. Voz, guitarras, baixo e bateria ouvem-se em uníssono como um tanque a avançar perante artilharia pesada e todos os músicos são os seus fiéis operadores. Como dito anteriormente, é de death/doom metal que se trata este “The Blind Leading The Blind”, por isso as longas faixas vão oscilar entre arrastados segmentos (não muitos, diga-se) e portentos lances de death metal corrido que acabam por seguir brevemente por abordagens ao black metal. Os temas, que são melódicos q.b., não incorrem por melosas melancolias mas também não soam a glória desenfreada; há, sim, um pesado sentido de angústia, martírio, solidão e responsabilidade que, surpreendentemente para alguns, não se esbarra em composições dissonantes.

“The Blind Leading The Blind” é, em última análise, uma homenagem a todos os que marcharam sem nada ver à frente, mas que tinham a certeza quase absoluta de que era a Morte quem os esperava a cada passo que davam. A guerra é onde a morte é absurda e a vida ainda mais…

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The Smashing Pumpkins “Shiny And Oh So Bright, Vol. 1 / LP: No Past. No Future. No Sun.”

Diogo Ferreira

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Editora: Napalm Records / Martha’s Music
Data de lançamento: 16 Novembro 2018
Género: rock alternativo

Amado e odiado em escalas semelhantes, Billy Corgan é, sem sombra de dúvidas, uma das figuras mais relevantes do rock alternativo, especialmente durante a década de 1990, não só pela música que criou mas também pela forma directa com que diz o que pensa e pelas polémicas mais pessoais em que esteve envolvido com, por exemplo, Courtney Love . Longe vão os constantes discos de platina, mas os The Smashing Pumpkins nunca deixaram de rodar aqui e ali à custa dos singles de sucesso que foram lançando ao longo da sua carreira. Estiveram na berra durante cerca de 12 anos e em 2000 foi cada um à sua vida. Billy Corgan e Jimmy Chamberlin prosseguiram a sua carreira com os pontuais Zwan e James Iha tem vindo a dar o seu contributo nos A Perfect Circle.

Corgan viria a reunir a banda algures em 2005-2006, mas só agora conseguiu ter ao seu lado Chamberlin, Iha e Jeff Schroeder (no grupo desde 2007). Com estes recursos humanos, que fazem os fãs rejubilar de entusiasmo, os The Smashing Pumpkins reaparecem com o longo título “Shiny And Oh So Bright, Vol. 1 / LP: No Past. No Future. No Sun.”

A abertura com “Knights of Malta” é uma agradável mistura de pop sedutora entre uns Soulsavers (que têm incluído Dave Gahan, dos Depeche Mode, nas suas fileiras) e Editors para, seguidamente, ouvirmos uma típica canção de The Smashing Pumpkins chamada “Silvery Sometimes (Ghosts)”. Nela recebemos um ritmo bem corrido e melódico, uma espécie de remake de outros feitos antigos mas que funcionou muito bem como single porque representa bem a reconhecida sonoridade da banda de Chicago. A quarta “Solara” será, porventura, a única directa recuperação do som grunge dos anos 90 que tanto significa para a banda e para o próprio género. A abordagem pop que já estava vincada, mas bem executada, na faixa inaugural volta a dar ar de si na quinta “Alienation” com o problema de nos fazer lembrar Coldplay… E faz doer o coração com toda a aflição de um enfarte do miocárdio. Ninguém é perfeito. Já em “Machin’ On”, os efeitos da guitarra bebem fortemente daquilo que Nigel Pulsford fez nos 10 anos que esteve nos Bush.

Não podemos dizer que este seja um regresso realmente bombástico, a não ser se tivermos em conta a formação actual da banda. Sem músicas insossas mas que também não arregalam os ouvidos ao máximo, este álbum poderá ser visto como um exemplo de falta de inspiração muito à custa de ouvirmos detalhes que já foram explorados vezes sem conta pela própria banda, mas, e por outro lado, desfrutemos de um Billy Corgan vocalmente em forma, dos arranjos orquestrais que acompanham grande parte das faixas e da prova que esta importante banda está viva e para as curvas. Esperemos que se mantenham por cá e que nos voltem a surpreender um dia destes, mesmo com 30 anos de carreira.

Nota Final

 

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Ancst “Abolitionist”

Diogo Ferreira

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Editora: Lifeforce Records / Yenohala Tapes
Data de lançamento: 16 Novembro 2018
Género: black metal / hardcore / crust

Mesmo a tempo de partirem para uma digressão norte-americana em Novembro com os Dawn Ray’d, os proeminentes alemães Ancst voltam à carga com o EP “Abolitionist”. Por esta altura do campeonato, e tendo em conta que a banda de Berlim existe desde 2011, os mais atentos adeptos de sonoridades extremas já devem estar a par do que esta banda é capaz.

Produtivos e eficazes no que fazem, esta proposta, que estará disponível em CD e vinil, não traz nada de novo ao som da banda, mas continua com a fasquia elevada naquela que é uma mistura sedutora e cativante de black metal moderno e hardcore/crust metalizado.

Motivados pelo sucesso underground que têm obtido, os Ancst mostram-se neste EP um pouco mais crus a nível de produção, mas em nada isso lhes retrai as capacidades criativas que têm para oferecer músicas ultravelozes repletas de riffs orelhudos e vocais raivosos que, como tem sido desde sempre, se debruçam nos problemas sociopolíticos mundiais.

“Abolitionist” acaba por ser uma combinação entre o passado não muito longínquo da banda e o presente que lhes proporcionou um enorme salto na carreira com o álbum “Ghosts of the Timeless Void” (Março, 2018). A máquina é jovem e não pode parar. Os Ancst sabem disso e estão a puxar por si próprios – os fãs agradecem.

Nota Final

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